A música de L_cio vai além das pistas de dança. Avesso a todos os dogmas que alguns acreditam haver na música eletrônica, ele está ciente de que suas produções dependem pouco das constantes inovações tecnológicas do mercado de softwares. Ainda que tenha começado a produzir recentemente, L_cio recebeu o direcionamento certeiro de seu professor e amigo, George Alveskog, e aprendeu a importância de se explorar profundamente os instrumentos eletrônicos para que a verdadeira criação autoral fosse possível: “Percebo que muitos artistas acabam sendo dominados pelos softwares. A idéia é conhecer muito bem os presets para poder manipulá-los da maneira desejada”.
A voz humana, sempre presente em seus live p.a.’s, é captada por um microfone extremamente simples, porém o timbre é trabalhado para incorporar-se a outras texturas da composição. Apesar de suas músicas serem compostas no Live (Ableton) e produzidas inicialmente para seus live p.a’s – (onde L_cio mostra toda a potencialidade de seu som) – ele também veicula as faixas avulsas em netlabels ao redor do mundo.
Influenciado por ritmos étnicos, L_cio passou alguns meses na Bahia para conhecer a Capoeira Angola, o que o levou a concluir seu mestrado de Educação Física. Leia a entrevista abaixo:
L_cio _ ANTES _ 2009
Senóide: Os tratamentos de áudio que você acrescenta à voz geralmente se fundem com o som das palavras. Seria seu intuito desassociar o significado literal da palavra e incitar uma audição mais sensorial da voz?
L_cio: Primeiramente, a utilização dos vocais tem relação direta com o texto. Quero que a mensagem seja, de alguma maneira, incorporada por quem as escuta, mesmo que o vocal não pareça tão claro (pois também uso vocais ao contrário – reverse). Outro ponto é a sonoridade que a voz humana tem. Acho fantástica! Além do seu poder de tocar quem a escuta.
Quanto ao tratamento de áudio, varia de acordo com a track: Alguns eu processo mais (reverbs, delays, vocoders, beat repeat, pitch, etc.) e outros deixo mais naturais (com poucos effects), para que a mensagem seja passada de forma mais explícita.
Senóide: Sua música remete a vários momentos distintos da música eletrônica, e por isso soa mais atemporal. Você procura se distanciar dos elementos musicais característicos de uma determinada época propositalmente?
L_cio: Meu contato com a música eletrônica é muito recente, assim, não tenho muitas referências no que diz respeito às fases da música eletrônica. Tento sempre buscar o caminho do trabalho autoral, sem me prender a rótulos ou estilos.
L_cio _ ORI _ 2009
Senóide: As referências étnicas da sua música também apontam essa atemporalidade. Ou seria uma busca pelos sons do oriente, menos explorados?
L_cio: As referências étnicas que estão no meu som, têm relação direta com minha história de vida (trabalho com Capoeira e manifestações afro, além da minha admiração por cantos religiosos – umbanda, candomblé, islamismo, cristianismo). Tive uma formação religiosa intensa na infância, o que me fez aproximar desse “sincretismo étnico/religioso”. Sobre as diferentes sonoridades étnicas, concordo que existe uma busca pelo “inesperado sonoro”.
Senóide: Nos anos 90, a maioria das músicas eram mais longas e iam se desenvolvendo conforme percorriam o tempo, se transformando aos poucos, criando climas. Na passagem do século, a música retornou à estrutura tradicional do pop. Você acha que estamos novamente nos abrindo para uma percepção de uma música mais fluida?
L_cio: Não sei se essa é uma tendência que está crescendo/voltando, mas concordo com o ditado popular que diz: “Devagar se vai longe”. A construção sonora pode ser mais bem absorvida quando o ouvinte (quer e) tem tempo pra isso. Infelizmente, a paciência para escutar o outro está se perdendo num mundo onde todo mundo quer ser ouvido e visto. Em relação às possibilidades de criação mais livres e desprendidas de tempo/espaço, concordo que há mais produtores explorando esse universo.
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L_cio _ WHAA _ 2010
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A música de L_cio tem relação com os excelentes produtores turcos que surgiram nos últimos anos em Berlim, tais como Onur Özer e Tolga Fidan, (e o alemão Pherox).
As 7 músicas eletrônicas preferidas de todos os tempos, por L_cio:
rodrigodario disse em 5 de March de 2010
parabéns L_cio, em um pais de dj sets bom ver que tem gente produzindo de verdade, a gente que produz já não se sente mais tão só hoje em dia. Crescer por si só, pelo trabalho e não por contatos. “Tamo” junto :)
bmind disse em 5 de March de 2010
perguntas inteligentes, respotas inteligentes!
parabens aos dois!!! demais!!!!
pedro b. disse em 5 de March de 2010
sinais de que a música vai mais fundo!
Bebete Indarte disse em 5 de March de 2010
Interessante Marco, não entendo nada de técnica…sempre fui leiga nesse assunto, apenas meu ouvido me ajuda a perceber as diferentes sonoridades desenvolvendo a emoção necessária que vem na interação com o pedaço (piece). Já cantei muito em corais da vida, uma ferramenta que ficou enferrujada, mas me ajudou muito a distinguir e apurar meu ouvido…das porcarias que se ouve por ai.
Acho legal o o L___cio (como se escreve esse nome???, hahaha, desenvolver esse tipo de trabalho, como um bom pesquisador, alheio à tendências, usando o background e individualidade no processo de criação. Liberdade necessária pra produzir o novo, acredito que ele vai longe.
Parabéns aos dois!
L_cio disse em 4 de March de 2010
Marco, muitíssimo obrigado pelo espaço!!!!! adorei o blog!!!!
abração!!!!!