É evidente que boa parte da música atual mira-se no passado. Para discorrer sobre o assunto, eu conversei com um dos produtores que melhor relê a estética musical retrofuturista dos anos 70 e início dos 80 - BOTTIN.
O produtor e DJ italiano se aprofundou nas respostas e contestou alguns mitos recorrentes da música eletrônica.
Esta entrevista é especialmente direcionada a todos os produtores musicais.
BOTTIN _ HORROR DISCO _ [Bear Disco]
Senóide: A música eletrônica depende do desenvolvimento da tecnologia?
Bottin: Isso pode ter sido verdade no passado, mas acho que o desenvolvimento tecnológico da música eletrônica parou há quase 30 anos! Você sabe, quando os sintetizadores, os samplers e a gravação digital foram inventados. Nada radicalmente novo aconteceu desde então. Hoje em dia a maioria dos produtores estão usando hardware ou software que são projetados para imitar sintetizadores analógicos antigos e baterias eletrônicas dos anos 70 e 80.
Não houve qualquer “som novo” desde a invenção da síntese FM ou wavetable. Agora temos a modelagem física (physical modulation – nos computadores), mas isso apenas imita os instrumentos acústicos. Portanto, não há nada de muito novo por aí - eu acho que não houve nenhuma evolução tecnológica recente relevante na maneira de se fazer música.
Eu estou usando um computador muito novo, com um software bem moderno – com multicanais (multitrack) – mas que uso apenas para gravar fontes externas de som: sintetizadores analógicos antigos e instrumentos electro-acústicos. A tecnologia facilitou a separação dos canais e a edição dos instrumentos… Mas isso não muda em nada o som da música que eu faço.
SPACE _ CARRY ME ON TURN ME ON (BOTTIN REMIX) _ [Nang Records/Tirk]
Senóide: O acesso massificado aos plug-ins (e outras ferramentas virtuais) banalizam a música eletrônica?
Bottin: O problema não é o plug-in em si, mas a ilusão que vem com esse acesso imediato (à ferramenta). Leva tempo para encontrar seu próprio caminho como músico, compositor, até mesmo como DJ.
O acesso instantâneo a todas essas ferramentas (ou a versão simplificada delas) não faz de você um músico. Não é porque você tem um pincel, tinta e tela, que isso vai fazer de você um Caravaggio. Eu repito… (o processo) leva um tempo muito longo (para acontecer).
E a produção de música eletrônica realmente não acontece por causa de “jovens prodígios”. Há uma curva de aprendizagem; talento é fundamental, mas não é suficiente. A tecnologia ajuda mais hoje do que no passado, mas (esse processo) ainda é muito complicado; e não é instintivo.
Você tem que aprender com a experiência, especialmente a partir da experiência de outras pessoas. A maioria das pessoas não têm tempo, ou não querem esperar, e acabam fazendo músicas que apenas revelam impaciência.
Senóide: Sobre esse olhar ao passado que existe na música hoje. Seria o acesso à internet a causa desse interesse na música de outros períodos, ou você vê outros motivos que explicariam esse fenômeno?
Bottin: Essa tendência existe há muito tempo. A música foi mordendo sua própria cauda desde os anos 90, talvez até antes – constantemente reinventando seu passado, e adaptando-se ao mundo contemporâneo. Isso também se aplica à arte, moda, filmes… Eu acho que é esse o significado real de pós-mordernismo: misturar as coisas de épocas diferentes e descontextualizá-las completamente.
A internet torna isso muito fácil. Antes dela você tinha que ser colecionador e investir muito dinheiro nisso. Lembro da primeira vez que fui a uma feira de vinil, há vinte anos atrás: todo mundo estava procurando pelos antigos, não os novos.
Eu compro muitos discos pela internet, embora as descobertas musicais mais surpreendentes geralmente acontecem quando pesquiso nos mercados de rua.
OSCAR G & STRYKE _ HYPNOTIZED (BOTTIN’S MERCURIAL MIX) _ [Nang Records/Hooj Choons]
Senóide: Para você é importante resgatar elementos da boa música que nunca chegou ao mainstream?
Bottin: Eu não tenho certeza se é tão importante. Eu apenas gosto muito de fazer isso. Acho que um bom DJ deve fazer com que seu público se divirta com músicas que nunca tenha escutado antes.
Para mim, não há nada melhor do que ouvir uma música ótima pela primeira vez. Então, pesquisar e achar algum disco escondido ou esquecido, e talvez remixá-lo ou reeditá-lo para a pista contemporânea é um bom caminho a seguir, geralmente.
Senóide: Eu acredito que produtores como você podem influenciar positivamente a música pop nesta nova década. Você já vê essas melhorias começando a acontecer?
Bottin: Na verdade não. Sabemos hoje que grandes produções pop são um tanto receptíveis à cena underground: eles cooptam produtores do underground e os mandam produzir as músicas dos pop stars. Nesse processo geralmente se excluem as melhores características das produções underground.
Pense em Saturday Night Fever : muitas pessoas acham que é um grande filme sobre a música Disco, mas na verdade, é somente sobre os Bee Gees!
As melhores partes da Disco não estão lá, porque o fenômeno da música underground não pode ser resumido em uma grande produção pop - você não pode colocar os holofotes sobre um fenômeno underground sem matá-lo completamente. Acho que estamos bem assim: a música de clube, real e transpirante, de um lado, … e a música pop do outro.
POLLYN _ CANT GET INTO IT (BOTTIN REMIX) _ [Nang Records]
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Agradecimento: Priscilla Cesarino
http://www.entourage.com.br/
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Senóide: Do you believe that electronic music’s evolution depends on technology development?
Bottin: That might have been somewhat true in the past, but I think the technological development of electronic music has stopped almost 30 years ago! You know, when synthesizers, sampling and digital recording were invented. Nothing radically new happened ever since. Talking about sound palettes, nowadays most producers are using hardware or software that is designed to mimic the old analog synth and drum machines from the 70s and 80s.
There haven’t been any “new sounds” since the invention of FM or wavetable synthesis. Yes now we have physical modeling, but that’s just to fake acoustic instruments. So nothing too new there either.
So no, I don’t think there was any recent technological development that was relevant to the way a musician makes music.
Myself I’m using a very new computer with very modern multitrack software, which I merely use to record external sound sources (old analog synth and electro-acoustic instruments). Technology has made it easy to multitrack and edit all those instruments… But it hasn’t changed anything in the sound of the music I make.
Senóide: Does the massive access to the plug-ins (and other virtual tools) banalize the electronic music?
Bottin: The problem there is not the plug-in itself but the illusion that comes with instant access. It takes time to find your own way as musician, composer, even as a dj. Instant access to all the tools (or simplified version of the tools) doesn’t make you a musician. It’s not that getting a brush, paint and canvas makes you a Caravaggio. Again, it takes a very long time.
And electronic music production doesn’t really happen with “enfants prodiges”. There is a steep learning curve, talent is essential but it’s not sufficient. The technology is easier now than in the past, but it’s still very complicated and not really instinctual.
You have to learn from experience, especially from other people’s experience. Most people don’t have that kind of time or don’t wanna wait and they end up doing music that just reveals that impatience.
Senóide: Talking about the tendency to look towards the past that is current today. Would you say that the access to the Internet is the cause to the large interest in the music of other periods or there are other reasons that explain this phenomenon?
Bottin: As far as I can remember, the tendency has been there for a long time. Music itself has been biting its own tail since the 90s, maybe even before: constantly re-inventing the musical past and adapting it to the contemporary world. This also applied to fashion, art, films… I guess it’s what post-modernism is really about: mixing stuff from different times and completely decontextualizing it.
Internet makes this very easy. Before that you had to be a collector and invest lots of money. Before the internet, there were vinyl record fairs. I remember first going to those 20 years ago: everyone was looking for old records, not new ones. Myself I buy many records online, although the most surprising musical discoveries usually happen when digging in street markets.
Senóide: Why is it important for you to rescue elements of the good music that never reached the mainstream?
Bottin: I’m not sure it’s that important, I just really enjoy doing it. I think a good dj should feed the audience music they can enjoy even if they never heard it before.
To me, there is nothing like hearing a great track for the first time. So digging out some old, obscure record (ad maybe remixing or re-editing it for the contemporary dancefloor) is usually a good way to go.
Senóide: I believe that producers like you can bring a positive influence to the Pop music in this decade. Do you see these improvements taking place yet?
Bottin: Actually, not really. We know that big pop productions are now somewhat receptive of the underground scene, they co-opt underground producers and have them make music for pop stars. Except the whole process usually washes out the best characteristics of underground productions.
Think of Saturday Night Fever: many people think it’s a great movie about disco music, but it’s really just the Bee Gees!
The best parts of disco are not there, because underground musical phenomena cannot be summarized in one big pop production: you can’t put the limelight on an underground phenomenon without completely killing it. I think we are good as we are now: real, sweaty club music on one side and pop music on the other.
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eu meixmo disse em 24 de fevereiro de 2011
a analogia sobre (a luz do) holofote que mata (a obscuridade sadia do) underground eh mto boa.
@andrefalando disse em 24 de fevereiro de 2011
Perguntas ótimas, respostas, idem. Adorei essa entrevista :)
Deejay Audioviva disse em 24 de fevereiro de 2011
parabéns, marco!
ivibrasil disse em 24 de fevereiro de 2011
adorei a imagem que abre o texto. o que é? de quem é?
Marco Andreól disse em 24 de fevereiro de 2011
é de um blog só com posters retrofuturistas: http://www.theinspirationblog.net/showcases/24-st…
Marcelo Godoy disse em 24 de fevereiro de 2011
boa, Marco!
Concordo completamente quanto ao lance de maturação do artista e a questão do mainstream/underground!
Pra ser pop tem que ser algo de fácil aceitação e sempre há a perda de elementos vitais que não são facilmente digeridos pela massa.
abs!
Bill Meirelles disse em 25 de fevereiro de 2011
Ótimo, ele disse tudo… ou quase tudo…
Complentando o assunto da técnologia, a verdade é essa, os instrumentos de verdade são sempre melhores,
se você está procurando um som pasteurizado, exatamente igual a tudo que é lugar comum por aí você
vai se dar bem com os plug-ins, mas se você está procurando novas sonoridades e feramentas que não
são previsiveis, os velhos e bons instrumentos do passado, sintetizadores e samplers das décadas de 70
e 80 são a melhor pedida, sempre da para ser criativo com essas máquinas, tem sempre um som novo que
ainda não foi ouvido, os plug-ins tendem a matar essa parte essencial do processo com seu som
instantâneo e previsivel, não se iluda com a facilidade…
Marco Andreól disse em 25 de fevereiro de 2011
"O problema não é o plug-in em si, mas a ilusão que vem com esse acesso imediato (à ferramenta)."