Senóide DJs – Mixar com laptop

VÃO-SE OS CABOS, FICAM AS FREQUÊNCIAS

Em um momento de muitas transições na música eletrônica, o que vem ganhando destaque são os embates que advêm da crescente diversificação do público ouvinte. Como quando havia rixa entre Techno e House no final dos anos 90, hoje vemos os profissionais da música tendo que se posicionar entre a memória afetiva da música “orgânica” (semi-acústica), ou as possibilidades sempre infinitas da música “sintética“, produzida por meios virtuais; defendendo o fim dos gêneros por uma percepção mais livre da música, ou inventado terminologias que ajudam a compreender a música dentro de um contexto mais amplo - (entre tantos outros contextos).

Talvez a discussão mais arcaica seja sobre a técnica que o DJ usa para produzir seus sets. Se o DJ se sente confortável com a técnica e performance que vem desenvolvendo há décadas, mais especificamente o vinil, só cabe a ele decidir se vale à pena abranger outras técnicas de mixagem. Porém, a crítica negativa contra novas maneiras de se mixar, muitas vezes denota conservadorismo, purismo, ou simplesmente fetichismo. Cada técnica tem suas especificidades, investir e realçar essas diferenças pode ser uma maneira de desenvolver habilidades singulares. No exterior, a maioria dos DJs  já inseriram o laptop em suas performances.

INFINITI (JUAN ATKINS) _ THINK QUICK (BASIC CHANNEL REMIX) _ 1994

A resistência a novas técnicas sempre existiu: Na década de 1730, um dos primeiros construtores do piano, Silbermann, mostrou o novo instrumento a Sebastian Bach – (que compunha principalmente com cravo e órgão).
A principio, Bach estranhou o “som demasiado suave nas notas superiores”. O compositor somente manifestou seu apoio ao piano em 1747. Mesmo assim, ainda levaria muitas décadas para que as peças de outros compositores deixassem de ser escritas para cravos e clavicórdios para aderirem definitivamente ao piano no final do século 18.

Nos anos 80, quando a técnica de sampleagem começou a render retorno financeiro para aqueles que a usavam, o recurso passou a ser considerado motivo de disputa no campo jurídico. Para quem era sampleado, havia a impressão de que se estava sendo plagiado. Para quem sampleava, já era evidente o entendimento de que o elemento musical desapropriado de seu contexto original mudava de significado. Depois de um par de décadas, essa questão nem mais se discute.

A própria música eletrônica era extremamente desprezada no Brasil até meados dos anos 90. Muitos a consideram uma música menor e ainda não compreendem a mudança de paradigma.

Em todo o mundo, e principalmente no Brasil, a definição de produtor musical, DJ, músico, compositor e instrumentista é um grande embaraço até hoje. Se os maiores compositores da música “erudita” do século 20, como John Cage, Philip Glass ou Stockhausen já viraram essas definições de ponta cabeça, questionar a capacidade do criador de música sob moldes acústicos ou eletrônicos pode revelar uma enorme lacuna de conhecimento musical, considerando tudo o que já foi experimentado enquanto instrumento, ou extrapolado no campo tonal - isso se somente nos focarmos no ocidente.

Em um futuro relativamente próximo, os músicos estarão produzindo com técnicas hoje inimagináveis, que aproximarão ainda mais a mente do músico a do público, tornando o corpo cada vez menos necessário – (exceto se o músico deseja inserir elementos performáticos propositalmente). Como conseqüência, parte do público sentirá falta dos movimentos, do figurino, do “herói” posicionado no “palco”. De qualquer modo, não precisamos mais esperar que estrangeiros tomem a iniciativa do que vem por aí.

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Perguntei a 4 DJs experientes porque eles preferem tocar com laptop – (Lennox Hortale e Dani El Souto do Glocal, Renato Patriarca e Pil Marques):

Senóide: O que levou vocês a usarem laptop para produzir os sets ao vivo? Quais as vantagens das novas técnicas que o laptop possibilita?

Glocal: Preguiça de gravar CD’s e anotar nome de música. Reduzimos espaço físico, peso, além de podermos levar “teras” de música, e não ficar chorando quando deixamos de tocar “aquela” música que ficou em casa, ou que deixamos de gravar a “maldita” no CD. Sem contar mil e outras vantagens, como aumento de possibilidades, e facilidades nas performances ao vivo, efeitos, edição, enfim… Vamos aproveitar as maravilhas do mundo moderno. Que mal tem isso?

Pil: Pela praticidade. Sempre comprei muitos discos e eles não são nada baratos. Sou uma pessoa ansiosa, muitas vezes tinha que esperar pelo vinil em estoque, ou atravessar o oceano, podendo ainda ser taxado em 60% na receita. Hoje meu case está muito mais abrangente: estou preparado para tocar horas, e não tenho mais dores nas costas.

Patriarca: Meu envolvimento inicial com a música eletrônica começou dentro do estúdio, produzindo, e em apresentações Live com o projeto Minima. No Minima sempre usamos muito synths ao vivo e, principalmente, o computador – isso desde as primeiras apresentações, quando ainda nem existia o software “Ableton Live”. Quando comecei a me apresentar como DJ, o uso do computador como instrumento central da apresentação me pareceu o caminho mais simples e rápido. Isso aconteceu em uma época em que os discos de vinil ainda estavam muito presentes, e pra mim era mais fácil carregar uma mochila com todo o meu “case”, que um case com 80 discos apenas. Isso me trouxe vantagem em viagens de longa distância e tours internacionais: Posso viajar com mais músicas e menos bagagem. As outras vantagens incluem a organização mais rápida do meu case de músicas, o uso de técnicas antes impossíveis, ou mais difíceis em vinil e CD, como por exemplo, o uso de “loop instantâneo”, pular partes da música sem perder o “beat”, usar efeitos diferentes, etc.

Senóide: Por serem técnicas relativamente novas, vocês ainda sentem o receio de outros DJs mais tradicionais? Se sim, por que vocês acham que isso acontece?

Glocal: Sem dúvida alguma que sentimos. Mas, respeitamos o ponto de vista de todos. Cada um tem sua metodologia de organização e memorização para a melhor execução de seu trabalho. Cada um faz o que quer: Tem gente que prefere ler jornal e sujar o dedo de carvão todo dia, e tem gente que prefere ler na Internet. Preferimos tocar com o computador.

Pil: Pelo contrário - Hoje em dia praticamente todos os artistas se apresentam com algum software. A tecnologia está aí como mais uma ferramenta para a evolução do nosso trabalho.

Patriarca: Ainda há certo purismo sobre o uso de laptop para DJ set, mas esse ranço está cada vez menor. Eu comecei a me apresentar como DJ por volta de 2002, numa época em que DJ com computador era visto como ET. A resistência na época era muito maior. Em 2002, tocar com CD’s ainda era visto com criticismo: ou você tocava com vinil, ou você era DJ de Psy. Hoje é o contrário, talvez tenhamos no máximo quatro top DJs brasileiros tocando somente com vinil, todos os outros têm usado muito pouco, ou quase nada de vinil. Quando você começa a se apresentar com um laptop ao lado, geralmente as pessoas (ainda) olham com desconfiança, mas o que conta é a música e sua performance – se você está tocando bem, em 10 minutos o povo esquece se você está usando vinil, cd, laptop ou fita (rs). Hoje em dia, sinto que esse enorme movimento onde todo mundo é DJ, somado ao fato de que temos vários softwares que ajudam, ou até mesmo, fazem automaticamente a mixagem, criam a tendência em achar que quem está usando laptop está  ”dando truque“. A música eletrônica sempre usufruiu e ajudou a evoluir a tecnologia. Qualquer tipo de purismo na música eletrônica soa contraditório se pensarmos que o uso de instrumentos eletrônicos produz sons que parecem artificiais para instrumentistas acústicos.

Marco AndreólEscrito por Marco Andreól em 10 de junho de 2010

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  1. dj marcelo

    dj marcelo disse em 29 de novembro de 2010

    desculpem-me pelos erros mais esse teclad aqui ta com 3 anos..tenho que troca-lo.. kkkkkkkkkkk ;D