“DE9 | Closer To The Edit” (2001) de Richie Hawtin dissecou a música eletrônica e popularizou o que a indústria sabiamente chamou de Minimal – (uma vertente do Techno). Revivals dos anos 80, e depois 70, nos faziam acreditar que a música que se desenvolvia até o final dos anos 90 estava esgotada. De fato, o Electro – (revival dos 80) – chegou a ser bem inventivo até 2003/2004, e o Nu-Disco – (revival dos 70) – ainda nos proporciona muitas sonoridades novas.
Durante a década de 2000, House e Techno nunca saíram de cena – estavam ocultados por outras denominações, subgêneros, e co-existindo como híbridos em quase toda música eletrônica. Algo do Electro fundiu-se ao Techno. O Tech House sempre esteve presente. Vez ou outra, um Deep House trazia algum frescor.
A partir do ano passado, principalmente, o House em seu estado bruto começou a ressurgir. Rapidamente dominou os sites de venda de mp3 e vinil. Caiu novamente nas graças de ótimos produtores que retomaram o que havia sido desgastado. Em novembro de 2009, os escoceses do Slam lançaram “We Doin’ This Again?” – música que é (basicamente) uma estrutura de House bem tradicional. Na verdade, essa música tem pouca relevância, mas em seu nome se insere uma pergunta mais complexa: Depois de tantos revivals seguidos, essa nova fase do House é apenas mais um revival, dessa vez referente ao começo dos anos 90? Ou uma retomada criativa ao House produzido naquele período?
Ninguém melhor para responder sobre isso do que um dos DJs que mais rapidamente percebeu essa nova onda de House: Oscar Bueno. Em cada uma das três vezes que o gênero dominou as pistas, Oscar foi testemunha.
HANDYCRAFT (PAUL RITCH) _ LA FOLLE DU 6 _ (2009)
Senóide: Como foi sua experiência com o House nesses três períodos distintos: (1988/1993), (1998/2001), e agora a partir de 2009?
Oscar Bueno: A minha primeira experiência com o House foi no começo dos anos 90 na Nation com Renato Lopes ou Mauro Borges, foi minha iniciação clubber. Sempre fui atraído por novidade, e o eletrônico me soava muito fresco nessa época. Na verdade, já escutara um esboço disso no final da década de 80 no Madame Satã, mas não sabia o que iria se tornar. Marquinhos MS já havia dado a dica, mas só fui absorver e entender mesmo nos 90. Acho que com minha primeira pastilha. Daí foi Krawitz, e etc.
Acompanhei bastante de perto o hype do House no final dos anos 90. Com outros olhos, claro, pois já trabalhava como promoter e bookava DJs para meus projetos. Lembro-me que o Techno dominava o underground, mas num determinado momento as pessoas se cansaram de dançar música pesada, reta, precisavam de um refresco. Em contrapartida veio o Deep House, que caiu como uma luva. Podia-se ser underground e ouvir House. De repente todos queriam dançar música fina e sofisticada, champanhe era a pedida do momento. Soulful e Jazzy House se tornaram essenciais na noite. Foi daí, em 98, que quis produzir um afterhour que tocasse House, o que era bem ousado para época. Em 1998 nasceu o Paradise After-Hours, projeto que conduzo até hoje. Trabalhei com diversos artistas que tocavam House e Tech House nesse período. Logo em seguida, já na virada do milênio, veio o Freak House para bagunçar tudo e provar que o House podia ser inconseqüente e maluco. O Freak House, Spacedisco, e outras linhas semelhantes de House, que começaram a usar elementos dos 80, prepararam as pessoas para o que viria: o Electro, gênero que abracei na minha iniciação como DJ em 2000.
Acho que a House Music teve seu declínio em 2001 com a consagração do Electro. Todos os DJs que eu conhecia estavam num determinado momento tocando música influenciada pelos anos 80. O eletrônico soava muito mais plástico e metálico que orgânico. Esse período praticamente fez sumir da cena o House que conhecemos. Hoje com o Electro soando cada vez mais comercial e burro, e o Minimal chato e monótono, nada mais natural que retomar ao velho e bom House, que afinal sempre teve groove e fez as pessoas dançarem. É uma volta às raízes que acontece com o Techno também. É o “back to basic” necessário depois de excessos ou minimalismos. Sem contar claro que vivemos uma década inteira (2000 a 2010), imposta pela estética dos anos 80, o rock e seu glamour. Agora finalmente seguindo a cronologia imposta pelo mercado, misturada ao inconsciente coletivo, vamos com certeza viver uma releitura na próxima década e nada mais 90′s que a House Music. É o eletrônico comendo a si próprio.
Senóide: No que se difere o House mais atual? Existe um modismo, ou inventividade nas novas produções?
Oscar Bueno: Sim, existe vida inteligente no novo House, e produtores super talentosos que trazem algo fresco e atual ao velho gênero tão explorado. Mas é claro, também há muitos oportunistas que pegam um sampler de algum clássico dos 90, dão um tapa e vendem horrores. Ou os que copiam a música inteira, a refazem, e depois nem fazem menção ao produtor original. É normal, é a indústria.
Senóide: Apesar de usar diversas mídias para tocar, você sempre defende que importa mais saber conduzir uma pista do que a técnica aplicada. Investir em uma única maneira de discotecar pode limitar a criatividade?
Oscar Bueno: Gosto de experimentar novas mídias e sempre estive atento a maneiras novas de apresentar meu set, mas não acho que seja determinante o modo como você apresenta suas músicas, pois na maioria das vezes a pista quer se divertir e não conhecer novos truques. “Não importa como, mas me faça feliz agora com sua música”: é o que eles pensam. Respeito esse pensamento, conduzir uma pista é algo muito sério, afinal as pessoas pagaram para estar ali. Me preocupo muito mais com o repertório, técnica de mixagem e seqüência que vão diretamente influir na dinâmica da apresentação. Me preocupo com minhas costas e meu bolso quando penso em vinil. Por enquanto, o mais sensato pra mim é usar CD. Mas estou de olho, quando daqui alguns anos, todos os clubes vão ter CD players compatíveis com pen drives. Vai ser mais prático ainda!
Senóide: Qual o limite entre o pop e o underground na música eletrônica? Isso ainda é relevante?
Oscar Bueno: Esse limite é muito tênue, já que muita produção tida como underground se tornou hit tocando em rádio em muito pouco tempo. A internet tornou tudo isso rápido e possível.
Acredito que isso tem mais a ver com a intenção do artista que está produzindo a música: Qual o rumo que vai ser tomado a partir da produção, para quem vai ser disponibilizado, quem vai distribuir, quem vai vender e consumir. Tem produtor underground produzindo merda e vice versa, para mim não é relevante.
As 8 músicas eletrônicas de todos os tempos - por Oscar Bueno
Valéria Matta disse em 21 de março de 2010
bom pra elucidar as coisas! te amo, oscar querido!