Senǒide » Música e Política nº 03: A pista CONCLAMA!

liberation2

Capa do 12″ de Liberation

 

POLÍTICA VIRA METAFÍSICA

Não há período mais utópico para a música ‘eletrônica’ do que o começo dos 90 – principalmente por volta de 92/93. O ecstasy brindava a aliança musical entre Europa e EUA, a ‘eletrônica’ negra e branca se entrelaçavam; Reagan, Thatcher e URSS saíam de cena, aquela estética bélica dos anos 70/80 perdia o sentido; a consciência ecológica dava um salto considerável. Essa onda de otimismo podia ser ouvida na música de Jam & Spoon, CJ Bolland, Humate, Orbital, Underworld, Gypsy, Leftfield, X-Press 2, e dezenas de one-hit wonders. Tudo apontava para cima » UPLIFTING (elevado, planante) era o termo que melhor descrevia o movimento das simples estruturas musicais que subiam progressivamente e lá permaneciam.

O MDMA curou a distopia dos anos 80. Para poder falar da catarse coletiva que acontecia na época, a ‘eletrônica’ se apropriou de discursos políticos históricos. Frases de Martin Luther King se renovaram » NOW IS THE TIME! « o momento é agora. A retórica das palavras combinada aos ganchos de piano e tambores mágicos causaram fortes efeitos na pista. Uma revolução extrassensorial estava no ar » CAN YOU FEEL IT? « fragmentos de certos discursos contém energia.

  

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Liberation _ Liberation 2 _ 1993 _ [ZYX]

It really is a revolution!
It really is a revolution!
But you must smile through your tears,
and move on, and keep on movin’
But you must smile through your tears,
and move on, and keep on movin’

Toughen up your fight and keep on movin’,
Toughen up your fight and move on!

imagem » molécula do MDMA
catarse a 1 min e 15 seg

‘smile through your tears’ piano em 2 min e 30 seg » sampleado de ‘Greater Reward (Dub Mix)’ do Severed Heads (1988)
Liberation é uma dupla de italianos » Marco Sabiu e Charlie Mallozi « drama!

A voz é de Jesse Jackson no discurso da Convenção do Partido Democrata de 1984 na Califórnia. Nos anos 60, Jackson participou da luta pelos direitos civis dos afro-americanos ao lado de Martin Luther King. Ele foi duas vezes pré-candidato pelo partido às eleições presidenciais, em 1984 e 1988.

 

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Lionrock (com Justin Robertson) _ Are You Willing To Testify? _ 1993

Em 1 min e 27 seg » “I wanna see a sea of hands out there, let me see a sea of hands; I want everybody to kick up some noise, I wanna hear some revolution out there, brothers, I wanna hear a little revolution… Brothers and sisters: the time has come for each an’everyone of you to decide whether you are gonna be the problem or you are gonna be the solution. (That’s right!) You must choose, brothers, you must choose! It takes five seconds, five seconds of decision, five seconds to realize your purpose here on the planet. It takes five seconds to realize it is time to move, it’s time to get down with it. Brothers, it’s time to testify n’I want to know: ARE YOU READY TO TESTIFY?”

Esse é John Sinclair, um dos fundadores do Partido dos Panteras Brancas abrindo o show “Kick Out The Jams” da banda MC5 em 1968, grupo do qual também era empresário. O partido era composto por brancos norte-americanos da extrema esquerda anti-racismo. Começou como resposta a uma entrevista em que Huey P. Newton (co-fundador do Partido dos Panteras Negras) foi questionado sobre o que as pessoas brancas poderiam fazer para ajudar os Panteras Negras. Newton respondeu que eles poderiam fundar o Partido dos Panteras Brancas. O grupo usou o nome para promover o que chamaram Revolução Cultural. Sinclair fez o possível para garantir que os Panteras Brancas não fossem confundidos com o grupo Supremacia Branca, lembrando sempre que eles se posicionavam como opositores do racismo. O Partido dos Panteras Brancas trabalhava pelos direitos de várias minorias étnicas que faziam parte da Coalizão Arco-Íris.

 

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MARTIN LUTHER KING e MALCOLM X

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Rave ou protesto? » Os dois principais expoentes do Movimento pelos Direitos Civis dos afro-americanos nos anos 1960 são, de longe, as vozes mais sampleadas na música.

 

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Kevin Saunderson & Santonio Echols _ Truth Of Self Evidence _ 1988
Fragmentos de “I Have A Dream” de Martin Luther King.

“Eu Tenho Um Sonho” é o nome popular dado ao discurso feito pelo ativista no dia 28 de agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C, no qual falava da necessidade de união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos no futuro. Feito para uma plateia de mais de duzentas mil pessoas que apoiava a causa, o discurso é considerado o mais importante do século 20, um momento decisivo na história dos Direitos Civis.

E também o mais sampleado » Os exemplos mais conhecidos são a versão de CAN YOU FEEL IT? de Larry Heard (1988), e FREE AT LAST de Simon Pearson, que fez muito sucesso nas pistas do sul da Europa em 2000/2001.

 

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Malcolm X _ Friends & Enemies _ (Stop The Confusion EP) _ 1993

Depois de Martin Lurther King, Malcolm X é o político mais sampleado na música.
A sentença » Too Black, Too Strong « aparece em vários clássicos do house »
CAN YOU PARTY? deTodd Terry (1988)
I’LL HOUSE YOU (THE GEE ST. RECONSTRUCTION) de Richie Rich (1988)

Deff Boyz’ SWING (1990) e vai diluindo até BAD COFFEE do Funk D’Void (1997)

“Too black, Too Strong” é fragmento de um discurso de 1963 primeiramente sampleado pelo Public Enemy em ‘Bring The Noise‘ (1987) em que Malcolm X compara a negritude ao café » “It’s just like when you’ve got some coffee that’s too black, which means it’s too strong. What you do? You integrate it with cream, you make it weak. If you pour too much cream in, you won’t even know you ever had coffee. It used to be hot, it becomes cool. It used to be strong, it becomes weak.” Outra relevante é o electroNo Sell Out de 1984.

 

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MANIFESTO

Mais artístico do que político, este manifesto nasceu da parceria entre Genesis P. Orridge do Throbbing Gristle e o catalão Jordi Valls. Segue a letra de Dinheiro para Ecstasy »

 

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Psychic TV _ Money For E (Jack The Tab Mix) _ 1990 _ [TEMPLE]
 

em 47 seg »

viva Salvador Dalí! ( visca Salvador Dalí! )

o cão catalão nascido em Figueiras, ( le chien catalán neix a Figueres, )

em 11 de maio de 1904. ( l’11 de maig de 1904. )

se a inteligência não existe ao nascer, ( si l’intel·ligència no existeix en néixer, )

não existirá nunca! ( no existirà mai! )

 

a sua luta é… ( la seva lluita és… )

contra a simplicidade pela complexidade ( contra la simplicitat per la complexitat )

contra o coletivo pelo individual ( contra el col·lectiu per l’individual )

contra a política pela metafísica ( contra la política per la metafísica )

contra a música pela arquitetura ( contra la música per l’arquitectura )

contra a natureza pela estética ( contra la naturalesa per l’estètica )

contra o progresso pela perenidade ( contra el progrés per la perennitat )

contra o maquinismo pelos sonhos ( contra el maquinisme pels somnis )

contra a abstração pelo concreto ( contra l’abstracció pel concret )

contra a juventude pela maturidade ( contra la joventut per la maduresa )

contra o oportunismo… ( contra l’oportunisme… )

pelo fanatismo maquiavélico ( pel fanatisme maquiavèl·lic )

contra o espinafre pelo escargot ( contra l’espinac pels cargols )

contra o cinema pelo teatro ( contra el cinema pel teatre )

contra Buda por Marquês de Sade ( contra Buda pel Marquès de Sade )

contra o oriente pelo ocidente ( contra l’Orient per l’Occident )

contra o sol pela lua ( contra el sol per la lluna )

contra a revolução pela tradição ( contra la revolució per la tradició )

contra Michelangelo por Rafael ( contra Miquel Àngel per Rafael )

contra Rembrandt por Vermeer ( contra Rembrandt per Vermeer )

contra os objetos selvagens… ( contra els objectes salvatges… )

pelos ultracivilizados ( per als ultracivilitzats )

contra a arte moderna africana… ( contra l’art modern africà… )

pela arte do Renascimento ( per l’art del Renaixement )

contra a filosofia pela religião ( contra la filosofia per la religió )

contra a medicina pela magia ( contra la medicina per la màgia )

contra as montanhas pela costa ( contra les muntanyes per la costa )

contra os fantasmas pelos espectros ( contra fantasmes pels espectres )

contra as mulheres por Gala ( contra les dones per la Gala )

contra os homens por mim ( contra els homes per mi )

contra o tempo pelos ‘Relógios Fundidos’ ( contra el temps pels ‘Rellotges Tous’ )

contra o ceticismo pela fé ( contra l’escepticisme per la fe )

 

a Salvador Dalí,

morto em 23 de janeiro de 1989. ( mort el 23 de gener de 1989. )

o sangue é mais doce que a neve! ( la sang és més dolça que la neu! )

Obrigado ao amigo da Isabella Franceschi, à Isabella, à Roberta Dias e ao Washington Gonzales de Lima pela tradução. Este manifesto é inédito na internet em qualquer língua.

Senǒide » Música e Política nº 02: Plat Du Jour

MATTHEW HERBERT

Segundo o ecologista indiano Satish Kumar, comer alimentos apropriados é parte da solução de problemas como o aquecimento global e a fome mundial: “Perdemos o controle das origens dos alimentos; a maioria de nós não sabe dizer como a comida é distribuída, tarifada, ou mesmo como é preparada. » Continue lendo esta matéria

Senǒide » Música e Política nº 01: (Pride) A Deeper Love

a deeper love 2

Deborah Cooper em 1991

Em 28 de junho de 1969, no Greenwich Village, bairro de Nova York, um bar clube de gays, lésbicas e travestis chamado Stonewall Inn era mais uma vez invadido pela polícia. Naquela época os bares gays americanos eram constantemente inspecionados; os policiais prendiam as travestis mais ousadas e todos os que vestiam mais de três peças do sexo oposto. A princípio não havia nada de especial naquela batida no Stonewall, até que, pela primeira vez, os LGBTs reagiram.

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Senǒide » MÚSICA & POLÍTICA » nº 00 [série]

Diferentemente do que muitos pensam, a música “eletrônica” vai além do mero escapismo. Na realidade, a música trata de tudo e qualquer coisa. Pense em algo! – Do sol às aves, do amor ao chão, da matemática ao sexo Haverá um ou mais produtores abordando o tema. 

Mas por que continua presente o estigma da vacuidade? Ou ainda: por que persiste a fama de que a “eletrônica” só serve às pistas?

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SEN☼IDE S☼B ☼ S☼L

1.sol

Dizem que o amor entre duas pessoas é o tema mais recorrente na música.
No senso comum, a ‘eletrônica’ trata apenas dos embalos noturnos. Mas esses limites se desfazem quando nos aproximamos do vasto repertório existente.

Do sol não ouvimos nenhum som, mas a capacidade humana de representação mostra que há diversas maneiras de expressarmos o astro sem que tenhamos que recorrer à música narrativa ou às canções.

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