Arquivo de Sónar

DJ Marky

Marky – Sónar SP 2012

DJ Marky dispensa apresentações. Rei do drum and bass brasileiro, Marky foi um dos grandes responsáveis por levantar a bandeira do estilo dentro e fora do país, reverberando a música eletrônica made in Brazil pelos quatro cantos.

Nesse Sónar 2012, vamos ter a rara oportunidade de presenciar o duelo Patife x DJ Marky, que se apresentam no primeiro dia de festival. Aqui, nesse último set do Sónarcast Samsung, o DJ e produtor tentou fazer algo diferente, selecionando músicas que o acompanham desde sempre. Leia a entrevista, curta o som e aproveite o festival!

Você toca no Sónar Village num duelo inédito com o DJ Patife. Quais são as expectativas e o que vocês estão preparando para a ocasião?

Até agora nao falei com o Pato (Patife) porque ele estava em tour na Europa. Mas vai ser tranquilo. Gostamos de surpreender as pessoas e nos surpreender, então, posso garantir que vai ser incrível!

Fale um pouco sobre este set que você gravou para gente. O que procurou reunir aqui?

Sabe que eu não me lembro exatamente?!  Mas sei que procurei fazer algo diferente, bem diferente. Escolhi diversas músicas que gostava quando criança e continuo curtindo nos dias de hoje. Eu tenho mania de gravar os sets e não escutar. Não escuto os CDs que gravo, não sei por que… Eu lembro que a primeira música é ‘Stone To The Bone’, do James Brown, que é uma das minhas prediletas dele. Quando o set for para o ar, eu posso responder essa pergunta de novo? (risos)

Você é um veterano de festivais no mundo todo. Depois de tantos, ainda dá aquele frio na barriga antes de tocar?

Sim, sempre tenho. Às vezes é tranquilo, às vezes é complicado. Principalmente quando a gente toca no esquema ‘back to back’,  pois sou muito rápido tocando e não gosto de esperar… gosto de criar, fazer coisas, sabe? Mas ainda bate um nervosismo e acho isso bom e saudável. Na minha cabeça, isso se chama tesão e amor pelo que se faz. O legal é surpreender e ser surpreendido pela galera.

O que você acha que o Sónar tem de particular e diferente em meio aos outros festivais?

Acho o festival bacana. Não toquei no de Barcelona ainda pois sempre acabo tocando no Creamfields ou no Global Gathering, ou ainda no Montreaux Jazz Festival. Mas achei o line up dessa edição bem bacana, diferente.

Você é um dos responsáveis por elevar a música eletrônica brasileira a um patamar internacional. Anos depois da explosão do DnB, como você vê a evolução do estilo no Brasil e no mundo?

Sim, a evolução está aí! Continuo com minha agenda lotada fora do país, tocando mais do que nunca. No Brasil, hoje, vejo a coisa andando bem, com novos produtores como Andrezz, DJ Chap, L Side, Level 2, Rusty Ctitycal Dub e outros, fazendo um trabalho excelente. Eles estão tocando na Argentina, Colômbia, Venezuela… No Brasil, estamos trabalhando bastante para a cena voltar a crescer e estamos conseguindo.

Tem algum show em especial no Sónar que você queira muito ver?

Four Tet, Flying Lotus, Emicida, Criolo, Kraftwerk, Totally Enormous Extinct Dinossaurs, entre outros.

Marky Sónar Podcast

Tracklist não disponível.

Fotos e arte: Pedro Falcão e Ana Shiokawa

 

Gui Boratto

Gui Boratto – Sónar SP 2012

O paulistano Gui Boratto está habituado a grandes festivais. Com uma sólida carreira internacional, ele já lançou três álbuns pelo respeitado selo alemão Kompakt, fez trilhas para filmes, remixou grandes artistas e recentemente se aventura nas trilhas para video games. Gui teve uma formação musical tradicional em guitarra e piano, e por isso, soube dosar como ninguém o tecnológico e o orgânico em suas composições, produzindo música eletrônica ao mesmo tempo de vanguarda e pop, em termos melódicos e estruturais.

Para este Sónarcast Samsung, Gui Boratto traz um set live com uma retrospectiva dos seus três álbuns, com três remixes próprios, sendo um deles ainda não lançado.

Você fecha a noite do dia 11/5 no palco SónarClub. Quais são suas expectativas e o que você está preparando para a data?

Minhas expectativas são muitas. Ainda não sei o que vou preparar. Talvez use o Reactable, já que participo também do workshop juntamente com Gunter Geiger, um dos inventores do aparelho. Mas posso assegurar que muita coisa legal vai rolar. Desde algumas músicas que todos conhecem, a coisas nunca lançadas.

Fale um pouco sobre esse set especial. O que você reuniu nele?

Nesse set, reuni músicas dos meus 3 álbuns – “Chromophobia”, “Take My Breath Away” e “III” – como uma retrospectiva. Mas fiz questão de incluir uma coisa ou outra não lançada ainda. Espero que agrade meus fãs.

Em um festival com uma linha sonora mais sofisticada e com uma abordagem mais artística e tecnológica como o Sónar, você acha que os artistas tendem a experimentar e ousar mais?

Em um evento como esse, com certeza os artistas têm a liberdade, ou pelo menos sintam-se assim, de ousar mais. É sempre muito gostoso poder experimentar, sem ter que ficar necessariamente de mãos atadas aos próprios hits do passado. Eu, pelo menos, penso muito assim.

Você tem uma formação musical mais tradicional em guitarra e piano. O que te atraiu nesse universo tecnológico da música eletrônica? Há limites para a interação tecnologia x música?

Minha formação me deu muita base para justamente poder ousar mais. Ou até o contrário, já que minhas músicas, mesmo as instrumentais, são “pop” em termos estruturais e melódicos. Acho que a mistura entre o tradicional e o avançado é que resulta em algo diferente e original.

Você acha que o Sónar conseguiu reunir artistas representativos da chamada ‘música avançada’? Tem algum show em especial que você não vai perder?

Com certeza sim. Alguns nomes já carimbados, como a Björk por exemplo (quando Gui respondeu a entrevista, a islandesa ainda estava no line-up).
Um nome que não quero perder é o Psilosamples. Vou no dia 12 especialmente para isso. Também quero ver o Cee Lo Green. Bom, são tantos nomes bons que é difícil.

Gui Boratto Sónar Podcast
01. Notations – Gui Boratto
02. Azzurra – Gui Boratto
03. Unfinished Sympathy – Massive Attack (Gui Boratto unreleased remix)
04. Take My Breath Away – Gui Boratto
05. No Turning Back – Gui Boratto
06. Flying Practice – Gui Boratto
07. Lovestoned – Ada (Gui Boratto remix)
08. Destination: Education – Gui Boratto
09. The Drill – Gui Boratto
10. Chromophobia – Gui Boratto
11. Blackjack’s Primetime – Gui Boratto
12. Paradise Circus – Massive Attack (Gui Boratto remix)

Fotos e arte: Pedro Falcão e Ana Shiokawa

Maurício Fleury

Maurício Fleury – Sónar SP 2012

Maurício Fleury parece viver música 24/7. Seja com a elogiada banda de afro beat paulistana Bixiga 70, ou discotecando com o coletivo Veneno Soudsystem, ou ainda acompanhando músicos como Lucas Santtana, ele segue em “busca de um som diferente a cada dia”, o que considera receita infalível para a felicidade.

Maurício já se apresentou no Sónar Barcelona em 2008 e no ano anterior já havia participado da residência musical da Red Bull Music Academy, em Toronto. Fã de vinil e de sonoridades mais inusitadas como a rumba eletrônica do Haiti, cumbia, música de candomblé, psicodelia turca e do hip hop instrumental, Fleury comemora o line-up “instigante” desse Sónar SP 2012 e nos dá uma prévia do rico universo musical que vai explorar na sua apresentação.

Você abre a programação do Sónar Village no dia 11. Quais são as expectativas? O que você está preparando para sua apresentação?

Justamente por ser a abertura, não sei exatamente o que esperar, não sei como vai ser o lugar, então vou tranquilo e sem grandes expectativas. Vou apresentar um set de discotecagem em vinil com as coisas mais malucas que tenho pesquisado por aí: rumba eletrônica do Haiti, cumbia, música de candomblé, psicodelia turca, hip hop instrumental. Como o Sónar é um festival que celebra o experimentalismo, vou tentar mostrar só o que tenho de mais inusitado e tentar preparar as pessoas para uma noite de aventuras sonoras, que é o que eu acho que vai rolar.

Fale um pouco sobre esse set que você gravou pra gente. O que você reuniu aqui?

Esse set segue um pouco a ideia de partir de um som mais tranquilo e terminar com todo mundo dançando, é um ‘warm up’ mais ou menos como o que eu vou fazer lá no festival. Tentei mostrar mais ou menos o grau da esquizofrenia mas ainda guardei umas para apresentar só lá na hora. Começa com um latin soul turco de 75, passa por um som obscuro d’Os Novos Baianos e direto para Superhuman Happiness, de Nova Iorque, uma das minhas bandas atuais favoritas, projeto paralelo de um dos caras do Antibalas. De lá para um edit psicodélico do Baris K, que é um grande amigo, responsável pela meu interesse sempre crescente na música turca. Daí para o já famoso afrobeat-candomblé do Candeia, que mistura com um miami bass acústico na versão de Planet Rock do The Breakout, banda do cenário deep funk da Alemanha. E assim vai, pulando de um estilo pro outro tentando manter o passo.

Você já participou e participa de projetos musicais bem distintos que vão do electro ao afrobet, sempre tocando diversos instrumentos. Já nos seus DJ sets, em que sonoridades você baseia a sua pesquisa musical? Existe algum som que você nunca iria tocar?

Não sei se existe um som que eu não iria tocar, mas tento sempre trazer algo de diferente, algo que não toque por aí nos clubes e rádios. Hoje em dia minha pesquisa é em torno do som dos países da África, América Latina, Turquia, Indonésia e por aí vai, seja qual for o ritmo (rock, discothèque, música tradicional…), mas me agrada mais aquele tipo de gravação tosca e a inventividade presente nesses sons. A ideia é sempre inovar na sonoridade sem ser “novidadeiro”, mostrar como grooves atuais e antigos se relacionam criando o que seria uma “música dançante global”. Acho que nos meus projetos como músico, tanto nas bandas de electro quanto no Bixiga 70, essa premissa continua valendo.

Você discoteca muito com vinil. Em tempos high-tech, por que a preferência?

Acho que é porque eu aprendi a mexer assim, e sempre gostei mais de comprar vinil. Já há uns quinze anos que eu frequento o centro de São Paulo sempre em busca de um disco ou outro, ou acaba pintando uma surpresa. Trabalhei na Galeria do Rock por um bom tempo e acabei conhecendo bem os segredos das lojas de disco do Centro. Lá conheci também o Ronaldo Evangelista e a partir da obsessão em comum pelos discos e suas histórias, formamos o coletivo VENENO Soundsystem, junto com o Peba Tropikal e estamos sempre trocando sons e discotecando em vinil. Temos hoje uma residência semanal na Matilha Cultural e quinzenal no Studio SP. Para mim, os discos são peças de uma história que não acabou, mais ou menos como eu vejo os meus teclados antigos. Pode não ser o melhor som ou o mais estável ou limpo, mas é o que me agrada mais, talvez por ser o que eu ouvi na infância, não sei. Quando toco com laptop ou CD, a maioria das músicas vai ter vindo de um disco da minha coleção… mas não sou xiita, existem coisas que só saíram em vinil, outras, só em formatos digitais, e isso não pode limitar a busca de um som diferente a cada dia, que pra mim é a receita da felicidade.

Que shows você não vai perder no Sónar SP?

Quero muito ver o Cut Chemist, um dos meus DJs favoritos. Quero ver também o Chromeo e o Hudson Mohawke que eu acho bem divertidos, além do Psilosamples, Squarepusher, o projeto novo do Zegon, Tiger & Woods, James Pants. Vai ser bem legal poder ver tanta gente boa junta num mesmo espaço e com estilos tão diferentes; talvez esse seja o festival com o line-up mais instigante do qual já participei, até melhor que o Sónar de Barcelona de 2008.

PS – A gatinha na foto é a Tutsi, do Maurício.

Maurício Fleury Sónar Podcast
01. Cici Kizlar – Gencim Yasami Severim – Vakko’nun ’75 Armagani
02. Os Novos Baianos – Colégio de Aplicação – RGE Discos
03. Superhuman Happiness – The Hounds – Electric Cowbell Records
04. Nazan Soray – Halhal (Baris K Edit) – Nublu Records
05. Carmen Ezumah – Tala Tala – Fiesta
06. Marsha Hunt’s 22 – (Oh No!) Not The Beast Day – Vertigo
07. Baris Manço – Mozart – Bouzouki Joe
08. Ekambi Brillant – Africa, Africa – Fiesta
09. The Phenomenal Handclap Band – 15 to 20 – Pure Groove
10. Candeia – Saudação a Toco Preto – Equipe
11. The Breakout – Planet Rock (pt.1) – Melting Pot Music
12. Wganda Kenya – Fiebre de Lepra – VampiSoul
13. Bébé Manga – Lokognolo – SIIS
14 Lalo Schifrin – Towering Toccata – CTI
15. Ersen ve Dadaslar – Yedim Beni – Sahinler

Fotos e arte: Pedro Falcão e Ana Shiokawa

Psilosamples

Psilosamples – Sónar SP 2012

Com seu jeito tranquilo de mineirinho ’come quieto’,  Zé Rolê, ou Psilosamples, atraiu atenções para seu som desde o ano passado, com o lançamento do seu primeiro álbum, o ‘Mental Surf’. Fazendo uma mistura musical sem fronteiras, Zé alia o senso de humor à vasta pesquisa de samples, com influências que vão da sanfona à IDM, do cancioneiro nacional ao drum and bass, alçando vôos além mar (ele foi um dos brasileiros convidados a tocar no Sónar Barcelona).

Para esse Sónarcast Samsung, Psilosamples traz um pouco de suas experimentações sonoras, que confeita como a um bolo de festa, “modulando efeitos, linhas de baixo, sintetizadores e samplers” e polvilhando tudo com muito amor. Segue a receita:

Você toca no dia 12 abrindo a programação do Sónar Hall. Quais são as suas expectativas e o que você está preparando?

Até agora eu não preparei algo dedicado, mas eu continuo concentrado e produzindo bastante. Espero que quando chegar o show eu tenha um bom material e saiba tocar cada track no seu momento certo. E espero que minha saída de som faça amizade com o sistema de som. E também estou feliz em abrir a programação porque fico mais tranquilo para assistir outros shows.

Qual é a ‘cara’ desse mix especial? Podemos considerá-lo uma amostra do que você vai apresentar no Sónar?

Ainda não decidi sobre o que vou tocar no Sónar, mas já comecei a pensar sobre quais músicas vou apresentar.
Nessa mix tem algumas faixas que venho produzindo e explorando suas pistas em tempo real. Modulando efeitos, linhas de baixo, sintetizadores e samplers. O resultado não superou minhas expectativas; existe uma falta de qualidade sonora que me persegue dia e noite. Por outro lado, isso não oculta meu espírito de confeiteiro de tratar a música como um bolo de aniversário de casamento. E com tudo isso e mais um pouco de amor, no final, tudo faz muito sentido.

Você também foi um dos brasileiros convidados a tocar no Sónar Barcelona, em junho. Será seu maior festival até então? Como está a ansiedade e os preparativos para sua apresentação?

Estou feliz e meu computador está uma loucura e cheio coisas. Estou com milhões de ideias incompletas e pensamentos atropelando a realidade, como de costume. Grandes e pequenos shows já foram e cá estou com músicas novas de volta ao pasto e ao laboratório, planejando qual será a próxima aventura.

Mineiro de Pouso Alegre que começou no Rap e caiu nas graças do eletrônico com forte influências regionais. Como foi essa transição e como o fato de morar no interior de Minas afeta e tempera sua produção musical?

Só foi preciso tempo para eu chegar onde cheguei e com isso, um concentrado de ideias: de um lado, uma faca, do outro, um queijo. Os softwares e a cabeça o tempo todo na sintonia de fazer música e explorar sonoridades.

Falando em tempero, em uma entrevista você disse que se não fosse músico seria cozinheiro. É sério? Você tem alguma especialidade?

Eu tenho um sonho de ser cozinheiro. Cozinhar é uma ciência muito foda! Acho que toca o mesmo lugar do meu cérebro responsável por sentir prazer fazendo música.
Sim, eu faço uma lasanha de broto de feijão ao molho branco que fica gostosa.
Mas às vezes uma panceta com um limão e uma cachaça é tudo que a gente precisa (risos).

Quais shows que você vai assistir no Sónar São Paulo e em junho, no Sónar Barcelona?

Em São Paulo: acredito que vai ser muito interessante o Ryuichi Sakamoto com o Alva Noto e estou muito interessado na Gang Do Eletro, gostaria de fazer amizades com eles.
Em Barcelona: Die Antwoord, The Roots, Mouse on Mars, Squarepusher, Salyu X Salyu com o Cornelius, estou muito ansioso para assistir esse show.

Psilosamples Sónar Podcast
01. Eterna Criança do Mato – Psilosamples (remix)
02. Super Mulambo - Psilosamples
03. O Preço da Flor Ilegal - Psilosamples (remix)
04. A Revolução dos Bichos - Psilosamples
05. Pop Green Morton - Psilosamples
06. OK, Hiperatividade da Roça - Psilosamples (remix)
07. Sonhos no Quintal - Psilosamples
08. Barba de Bode - Psilosamples
09. Bit Coração - Psilosamples

Fotos e arte: Pedro Falcão e Ana Shiokawa