Maurício Fleury parece viver música 24/7. Seja com a elogiada banda de afro beat paulistana Bixiga 70, ou discotecando com o coletivo Veneno Soudsystem, ou ainda acompanhando músicos como Lucas Santtana, ele segue em “busca de um som diferente a cada dia”, o que considera receita infalível para a felicidade.
Maurício já se apresentou no Sónar Barcelona em 2008 e no ano anterior já havia participado da residência musical da Red Bull Music Academy, em Toronto. Fã de vinil e de sonoridades mais inusitadas como a rumba eletrônica do Haiti, cumbia, música de candomblé, psicodelia turca e do hip hop instrumental, Fleury comemora o line-up “instigante” desse Sónar SP 2012 e nos dá uma prévia do rico universo musical que vai explorar na sua apresentação.
Você abre a programação do Sónar Village no dia 11. Quais são as expectativas? O que você está preparando para sua apresentação?
Justamente por ser a abertura, não sei exatamente o que esperar, não sei como vai ser o lugar, então vou tranquilo e sem grandes expectativas. Vou apresentar um set de discotecagem em vinil com as coisas mais malucas que tenho pesquisado por aí: rumba eletrônica do Haiti, cumbia, música de candomblé, psicodelia turca, hip hop instrumental. Como o Sónar é um festival que celebra o experimentalismo, vou tentar mostrar só o que tenho de mais inusitado e tentar preparar as pessoas para uma noite de aventuras sonoras, que é o que eu acho que vai rolar.
Fale um pouco sobre esse set que você gravou pra gente. O que você reuniu aqui?
Esse set segue um pouco a ideia de partir de um som mais tranquilo e terminar com todo mundo dançando, é um ‘warm up’ mais ou menos como o que eu vou fazer lá no festival. Tentei mostrar mais ou menos o grau da esquizofrenia mas ainda guardei umas para apresentar só lá na hora. Começa com um latin soul turco de 75, passa por um som obscuro d’Os Novos Baianos e direto para Superhuman Happiness, de Nova Iorque, uma das minhas bandas atuais favoritas, projeto paralelo de um dos caras do Antibalas. De lá para um edit psicodélico do Baris K, que é um grande amigo, responsável pela meu interesse sempre crescente na música turca. Daí para o já famoso afrobeat-candomblé do Candeia, que mistura com um miami bass acústico na versão de Planet Rock do The Breakout, banda do cenário deep funk da Alemanha. E assim vai, pulando de um estilo pro outro tentando manter o passo.
Você já participou e participa de projetos musicais bem distintos que vão do electro ao afrobet, sempre tocando diversos instrumentos. Já nos seus DJ sets, em que sonoridades você baseia a sua pesquisa musical? Existe algum som que você nunca iria tocar?
Não sei se existe um som que eu não iria tocar, mas tento sempre trazer algo de diferente, algo que não toque por aí nos clubes e rádios. Hoje em dia minha pesquisa é em torno do som dos países da África, América Latina, Turquia, Indonésia e por aí vai, seja qual for o ritmo (rock, discothèque, música tradicional…), mas me agrada mais aquele tipo de gravação tosca e a inventividade presente nesses sons. A ideia é sempre inovar na sonoridade sem ser “novidadeiro”, mostrar como grooves atuais e antigos se relacionam criando o que seria uma “música dançante global”. Acho que nos meus projetos como músico, tanto nas bandas de electro quanto no Bixiga 70, essa premissa continua valendo.
Você discoteca muito com vinil. Em tempos high-tech, por que a preferência?
Acho que é porque eu aprendi a mexer assim, e sempre gostei mais de comprar vinil. Já há uns quinze anos que eu frequento o centro de São Paulo sempre em busca de um disco ou outro, ou acaba pintando uma surpresa. Trabalhei na Galeria do Rock por um bom tempo e acabei conhecendo bem os segredos das lojas de disco do Centro. Lá conheci também o Ronaldo Evangelista e a partir da obsessão em comum pelos discos e suas histórias, formamos o coletivo VENENO Soundsystem, junto com o Peba Tropikal e estamos sempre trocando sons e discotecando em vinil. Temos hoje uma residência semanal na Matilha Cultural e quinzenal no Studio SP. Para mim, os discos são peças de uma história que não acabou, mais ou menos como eu vejo os meus teclados antigos. Pode não ser o melhor som ou o mais estável ou limpo, mas é o que me agrada mais, talvez por ser o que eu ouvi na infância, não sei. Quando toco com laptop ou CD, a maioria das músicas vai ter vindo de um disco da minha coleção… mas não sou xiita, existem coisas que só saíram em vinil, outras, só em formatos digitais, e isso não pode limitar a busca de um som diferente a cada dia, que pra mim é a receita da felicidade.
Que shows você não vai perder no Sónar SP?
Quero muito ver o Cut Chemist, um dos meus DJs favoritos. Quero ver também o Chromeo e o Hudson Mohawke que eu acho bem divertidos, além do Psilosamples, Squarepusher, o projeto novo do Zegon, Tiger & Woods, James Pants. Vai ser bem legal poder ver tanta gente boa junta num mesmo espaço e com estilos tão diferentes; talvez esse seja o festival com o line-up mais instigante do qual já participei, até melhor que o Sónar de Barcelona de 2008.
PS – A gatinha na foto é a Tutsi, do Maurício.
Maurício Fleury Sónar Podcast
01. Cici Kizlar – Gencim Yasami Severim – Vakko’nun ’75 Armagani
02. Os Novos Baianos – Colégio de Aplicação – RGE Discos
03. Superhuman Happiness – The Hounds – Electric Cowbell Records
04. Nazan Soray – Halhal (Baris K Edit) – Nublu Records
05. Carmen Ezumah – Tala Tala – Fiesta
06. Marsha Hunt’s 22 – (Oh No!) Not The Beast Day – Vertigo
07. Baris Manço – Mozart – Bouzouki Joe
08. Ekambi Brillant – Africa, Africa – Fiesta
09. The Phenomenal Handclap Band – 15 to 20 – Pure Groove
10. Candeia – Saudação a Toco Preto – Equipe
11. The Breakout – Planet Rock (pt.1) – Melting Pot Music
12. Wganda Kenya – Fiebre de Lepra – VampiSoul
13. Bébé Manga – Lokognolo – SIIS
14 Lalo Schifrin – Towering Toccata – CTI
15. Ersen ve Dadaslar – Yedim Beni – Sahinler
Fotos e arte: Pedro Falcão e Ana Shiokawa

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