RICHARD PINHAS (FRA/Cuneiform Records)

Em entrevista exclusiva, o mestre da vanguarda eletrônica francesa adepto da subversão da submissão voluntária nos fala de Gilles Deleuze, tecnologia, noções de repetição e temporalidade.

Solos espaciais de guitarra, Filosofia e raros sintetizadores modulares: expressões do revolucionário Richard Pinhas

Que depois tal ou tal álbum meu tenha ficado para a posteridade acho ótimo, por que não?“, nos relata o genial compositor, produtor e músico da eletrônica futurista e rock espacial Richard Pinhas, responsável por obras fundamentalmente influentes nos anos setenta entre as quais ‘Chronolyse’ (1976), ‘Interface’ (1977) e ‘Rhyzosphere’ (1977). “A grande chance que tive foi que praticamente todos os meus discos tiveram boa venda na Europa, Japão e Estados Unidos. Esta espécie de continuidade pode explicar o impacto que teve esta ou aquela obra. Porém, é verdade que, pelo fato de terem ouvido bastante, os jovens ocidentais sempre me dizem que foram influenciados pelo Heldon quando cresceram e que seus pais tinham os vinis e CDs“, diz Pinhas, referindo-se ao lendário grupo do qual era membro principal. “Foi isso que me contaram os Wolf Eyes de Detroit, com quem toquei em junho de 2007, e da mesma forma Merzbow, com quem gravei em Tóquio em novembro de 2007. É isso! Inclusive, em Detroit, Heldon é um grupo muito apreciado” – diz a respeito da cidade que foi capital da indústria automobilística, e um dos celeiros musicais incomparáveis, sede de obras-primas de Jazz, Soul, Punk Rock e terra natal do Techno. “Sério, é fato, não há nada que eu possa fazer a respeito, e inclusive não se trata de algo que me deixou mais rico. Não como refeições melhores por causa disso.” (risos).

“Sei muito bem que devo aos Blues americano e inglês, assim como à Tamla Motown, sem a qual (inclusive em Detroit) todo o movimento eletrônico posterior jamais teria acontecido da mesma forma, assim como a transformação de Ficção Científica em Música e principalmente este trabalho perpétuo de inovação que é o verdadeiro processo do futuro sonoro da eletrônica.”

Antes que possa ser associado a qualquer ideia de herói do passado, Pinhas reage: “Mas eu não estou morto! Produzi três álbuns simultâneos, entre os quais o meu CD com Wolf Eyes (EUA) e Merzbow (Japão) o LP de RP/Merzbow de 2008 pela gravadora Cuneiform (USA). Trabalho catorze horas por dia, gerencio um harém de forma bastante consciente, e ainda consigo visitar meus amigos com frequência. Sem contar a Filosofia. Os conceitos que dão sustentação a minha música são: evento, repetição, temporalidade, fluxo e processo. Neste universo variado de textos, não me recordo com precisão, mas certamente encontraremos tudo nos livros e artigos que publiquei e muito mais na obra de Gilles Deleuze!”, declara, referindo-se ao amigo e célebre pensador francês do século XX (sugerimos como fonte de pesquisa destes princípios que não por acaso tiveram grande impacto na música eletrônica, o site www.webdeleuze.com).
Sagaz e humanista, Richard Pinhas nos conta a respeito de suas influências filosóficas e musicais. Terreno perfeito para boas descobertas.

Richard Pinhas e os grandes sintetizadores modulares: sons do futuro

A sua história, ao menos em parte, se assemelha a de outros guitarristas e compositores de vanguarda cujo destino, de uma forma ou de outra, quis que se tornassem mestres pioneiros da eletrônica contemporânea. Quem te influenciou afinal?
Os guitarristas que me influenciaram são, em primeiro e antes de tudo, o grande Jimi D. Hendrix, e claro, Robert Fripp com quem tenho enorme dívida e que chegou a nos visitar – a mim e minha ex-mulher Agneta – e fazer uma brincadeira perguntando se eu não gostaria de aceitar a proposta de me tornar guitarrista da sua banda King Crimson (considerada uma das pioneiras do rock progressivo). Claro que foi uma brincadeira apenas (risos). Também amo demais Larry Coryell, Jeff Beck que é efetivamente um dos maiores, além do Jimmy Page (do Led Zeppelin) e enfim Eric Clapton dos Cream que me fez sonhar com apenas catorze anos. Assisti Hendrix oito vezes no palco e Clapton umas dez vezes, cheguei a cumprimentá-lo, etc. As coisas eram bem mais simples na época.

Há uma influência notável de Blues e mesmo da música Afro-Americana, não?
Engraçado, porque quando estive em tour nos EUA, muitos vieram conversar conosco após nossas apresentações: os Fugees, Viggo M, Wolf Eyes, entre outros. É sempre impressionante o fato de um pequeno guitarrista branco francês receber abraços calorosos de nomes (muitos dos quais afro-americanos) dos Blues. Uma verdadeira alegria, um momento de eternidade. Eu sei o quanto devo aos Blues americano e inglês, e a Tamla Motown, sem a qual (inclusive em Detroit), todo o movimento eletrônico posterior jamais teria acontecido da mesma forma, assim como a transformação de ficção científica em música e, principalmente, este trabalho perpétuo de inovação que é o verdadeiro processo do futuro sonoro da eletrônica.

Por que, do ponto de vista filosófico, Gilles Deleuze e Spinoza foram tão influentes para você? De que forma isso se traduz na sua obra?
Eles influenciaram a minha vida, tanto filosófica quanto musical. Tenho que fazer referência (e reverência) à imanência e ontologia do ser, e por que não dizer, ao Ser Musical conforme Spinoza, ao Plano de Composição de Deleuze, inclusive o sonoro. Todo o seu trabalho sobre matérias primas, matéria molecular e sua organização. E claro, em relação aos dois, as ideias de singularidade, evento, e ‘singularidade do evento’, seguidos pelas noções de tempo e repetição. Deleuze explorou bastante este tema da repetição (principalmente na sua obra ‘Diferença e Repetição’). Repetição que destrói e estreita, repetição que cria e entrega. Não é de se surpreender que a sua obra tenha inspirado tanto – do ponto de vista teórico e prático – os músicos e compositores que reivindicam a música baseada em repetição. Fora isso, todo o seu trabalho a respeito de tempo… de forma sintética, é isso. Mas, que eu saiba, não estamos em uma aula de filosofia aqui não! (risos)

Seus pensamentos a respeito de política e sociedade são bem progressistas. De que forma influenciam a sua música?
Não estou necessariamente convencido de que influenciaram a minha música no sentido de profundidade. Porém, de certo modo, me levaram a ter uma perspectiva voltada para a inovação, a pesquisa, os novos caminhos da música, as novas semióticas sonoras. Ou seja, a procurar sempre ir mais longe. E acho sinceramente que, honesta e humildemente, a música pode e deve mudar a nossa vida cotidiana. Pelo menos isso! Lyoard, um célebre professor de filosofia, dizia que “há algo bem mais revolucionário em certos trechos de música pop do que no discurso do Partido Comunista” cerca de trinta e cinco anos atrás. Virou uma realidade (obviamente, o professor se referiu ao pop dos anos setenta em primeira instância). Continuo muito anarquista, como An-arché (‘sem ian’), ou seja, sem origem (o compositor cita como exemplo a obra de Levinas).

Já que você é apreciador de filmes de Ficção Científica, diga-nos sua ideia de ‘música do futuro’.
Ainda não foi criada. O barulho (diz, referindo-se ao termo noise) marca do fim de tudo que conhecemos será completamente outra coisa, e provavelmente construído e executado por gerações que ainda estão crescendo… enfim, assim espero! Que não seja andar em círculos, e sim, algo totalmente diferente.

AS OBRAS

Em seguida, o músico-compositor parisiense nos falou de suas grandes influências e obras musicais. Entre elas, citou os mestres das técnicas de composição e produção de vanguarda Robert Fripp e Brian Eno, cujo álbum ‘(No Pussyfooting)’ resolveu discorrer a respeito. Em seguida, falou de suas obras a partir do seu primeiro LP de 1973 sob a alcunha de Heldon. Vale muito a pena acompanhar seus testemunhos.

Fripp & Eno – (No Pussyfooting) – Island (1973)
“O nosso primeiro álbum como Heldon, o ‘Electronique Guerilla’, foi feito no final de 1973, simultâneo à obra de Fripp e Brian Eno ‘No Pussyfooting’ – genial, aliás. Tenho que te confessar algo que sempre tive convicção a respeito: que as bandas que se apresentavam na abertura dos shows do King Crimson eram gravadas e produzidas pelo próprio Fripp, algumas das vezes, junto com o Brian Eno, e eram conhecidas como Frippertronics. Daí as numerosas referências que sempre fiz a esta obra monumental. Eu sabia que o Eno, por exemplo, preparava o instrumental, equipamentos e efeitos para as obras do Manzanera (conhecido como Bryan Ferry), e utilizava o Sistema de Repetição do Fripp, entre outros” (* na entrevista de Thomas Fehlmann para o Electronic Standards, também há referências a Robert Fripp). Trata-se de um criador inacreditável e um sublime produtor – diz, referindo-se ao Eno.”Nesta época, desconhecia completamente o Krautrock. Acabei descobrindo a respeito bem mais tarde, sobretudo através de Kraftwerk que se tornaram meus amigos e admiradores. Eles estão na base da música eletrônica contemporânea e porque não dizer, do Techno”.

Para ouvir: The Heavenly Music Corporation

Heldon – Electronique Guerilla – Disjuncta (1974)
“Vim de grupos ingleses de Blues dos meus dezesseis aos dezenove anos, e então, teve a revolução de Miles Davis que me iniciou no sintetizador. De verdade! Com 22 anos, gravei o meu primeiro disco: Electronique Guerilla, em 1973, praticamente sozinho, a não ser alguns trechos com dois amigos, e sobretudo Le Voyageur que compus ao lado de Gilles Deleuze. Um ano depois, me tornei PHD em Filosofia pela Paris 1. O LP saiu apenas em 1974 após negociações com a EG Records, gravadora que tinha muitos grupos e artistas para gerenciar.”

Para ouvir: Ouais, Marchais, Mieux Qu’en 68 (Ex: Le Voyageur)

Heldon – Un Rêve Sans Conséquence Spéciale – Cobra (1976)
“Como disse a vocês, Chronolyse não foi minha primeira obra, já que lancei quatro ou cinco álbuns do Heldon os quais compus cerca de 95%, gravei 99% e toquei 89% (risos). Em uma determinada altura, o Heldon se tornou uma grande máquina, o que quer dizer que a partir de ‘Un Rêve Sans Conséquence Spéciale‘ (Um Sonho Sem Consequência Especial) tínhamos um estúdio de verdade e todos os meios que a época permitia, resultado de um enorme investimento, muita grana mesmo, além de uma equipe respeitável para as nossas tours. Por exemplo, só a logística do grande sintetizador Moog necessitava de quatro roadies, mais um técnico responsável. Por outro lado, a ideia com meus álbuns solo era justamente fazer tudo em casa por um custo próximo de zero. Uma espécie de música home made comparada a de uma orquestra ou grupo, como no caso do Heldon.”

Para ouvir: Marie Virginie C.

Sintetizador modular dos anos setenta cujos componentes podiam incluir VCA, Osciladores e Filtros VCF, o Moog 55 foi usado em ‘Chronolyse’. Com ele, o compositor/produtor podia montar a estação de sua preferência

“Os conceitos que dão sustentação a minha música são Evento, Repetição, Temporalidade, Fluxo e Processo.”

Chronolyse – Cobra (composição 1976, lançamento 1978)
Obra baseada em singularidade e futurismo, Chronolyse foi a primeira composição solo lançada em vinil do autor. “Gravei ao longo de 1976. No mesmo período, saiu ‘Un Rêve Sans Conséquence Spatiale’ (Heldon), considerado um dos primeiros discos da história do rock eletrônico onde instrumentos de verdade como bateria foram misturados aos sintetizadores modulares. ‘Rhizosphere’ foi lançado um ano depois, em 1977. La especificidade de ‘Chronolyse’ está em ter sido gravado diretamente em duas pistas em um Revox A7OO. Há uma sequência de variações a cerca de um mesmo tema, tudo gravado direto a partir de um Moog 55″, diz, referindo-se as ‘Variations Sur Le Theme Des Bene Gesserit’. O termo ‘Chronolyse’ vem de um romance de Michel Jeury, escritor francês de ficção científica”, diz.
“É bem verdade que o UNKLE (coletivo do qual fazem parte James Lavelle e Pablo Clements), por exemplo, sampleou uma das ‘Variations Sur Le Theme des Bene Gesserit’ deste LP, e que vira e mexe me pedem samples, ou sequer me pedem. Não estou nem aí. Sou muito libertário e defensor das liberdades individuais e, sobretudo, Nem Deus, Nem Mestre! (título dado ao jornal do socialista revolucionário francês Auguste Blanqui, de 1880) contra a servidão voluntária! Spinoza e Nietzsche acima de tudo… menos das mulheres brasileiras, é claro! (risos).

Para ouvir: Variations Sur Le Theme Des Bene Gesserit

Rhizosphere – Cobra (1977) - Autre véritable référence électronique, ‘Rhizosphere’ (1977)
“Este LP foi concebido da mesma forma que o anterior, mas aproveitei de algumas seções de gravação do Heldon para adicionar a bateria do François Auger em um grande desenvolvimento sonoro meu. Os pratos da bateria e as duas micro atmosferas foram retratados em um sintetizador do tipo EMS/AKS ao vivo durante a mixagem em estúdio. Para os meus LPs solos, ao contrário dos do Heldon, procurei adotar uma estrutura leve: pouquíssimo ou nada de estúdio, deixar praticamente tudo já gravado em casa em um dos Revox, e após isso, usar um equipamento analógico de oito canais.
‘Rhizosphere’ é um conceito deste amigo que marcou tanto a minha vida do ponto de vista teórico e filosófico, e porque não dizer minha vida como um todo – o filósofo Gilles Deleuze. Fui seu aluno e amigo de 1971 a’ sua morte, em 1995. Sua influência em termos conceituais foi primordial para mim – algo equivalente ao Jimi Hendrix na guitarra! Conheci também e visitei bastante o Robert Fripp a partir de I974 após assistir um show do King Crimson em I972 (banda da qual, aliás, foi membro fundador).
Estes dois álbuns (‘Chronolyse’ e ‘Rhizosphere’) foram meus primeiros ensaios solos e praticamente sem presença de guitarra. Por outro lado, o Heldon sempre foi idealizado e composto a partir da guitarra, meu instrumento favorito que toco desde os treze anos.”

Para ouvir: Rhizosphere Sequent & Tower Belfast

Heldon – Heldon 6 / Interface – Cobra (1977)
Um dos álbuns mais importantes da carreira do artista francês, ‘Interface’ ganhou elogios pela sua ousadia na época de seu lançamento. “A respeito de seu aspecto trend setter, é verdade que há pouco mais de três décadas, quando foi lançado, este LP gerou muitos comentários. Um dos meus amigos, tecladista do Magma, me disse: Não duvide da importância que terá ‘Interface’ no futuro da música contemporânea.”

Para ouvir:

Utilizados em LPs como ‘Iceland’ (1979): Polymoog e seu sistema polifônico (acima), e o Rolls-Royce dos sintetizadores E-Mu Modular (abaixo)

Iceland – Polydor (1979)
Entre as principais obras de Pinhas está este álbum de 1979 cuja atmosfera era de pura hipnose glacial (não deixar de ouvir ‘Greenland’). Em sua gravação, o compositor-produtor utilizou os equipamentos Polymoog, sintetizador análogo e polifônico da Moog célebre no final dos anos setenta, além de um duplo Moog 55 e o ARP 2600 em algum dos efeitos.
“O Polymoog que usei é um equipamento único, a parte mesmo. Foi o primeiro Moog polifônico, bem diferente dos outros. Trata-se de um teclado com sintetizador no sistema por nota que saiu no final dos setenta. Nesta época, montei um duplo Moog 55 (photo anterieure) e um dos raríssimos Modulares E-Mu I Emulators, considerado a Rolls Royce dos sintetizadores, presentes em ‘East West’ (I980) e ‘L’Ethique’ (1981), meus álbuns dedicados a Spinoza e Deleuze.”

Para ouvir:

“Espero ter o prazer de me apresentar no seu país qualquer dia desses!”

Nós também, Richard.

RICHARD PINHAS

Richard Pinhas & Merzbow at Sonic Circuit, Washington DC, 2010

Richard Pinhas & Etienne Jaumet at BBMix Festival, Paris, 2011

Cuneiform Records – USA – www.cuneiformrecords.com
Site Oficial Richard Pinhas – www.richard-pinhas.com
Textes sur l’oeuvre de Gilles Deleuze – www.webdeleuze.com

avatarEscrito por Alain Patrick em 7 de fevereiro de 2012

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    Daniel UM disse em 25 de fevereiro de 2012

    Ótima matéria Alain, parabéns!

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    Viviane disse em 10 de fevereiro de 2012

    Entrevista super interessante, adorei a abordagem filosófica! Parabéns, Alain!!

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    Dj YONOID disse em 9 de fevereiro de 2012

    Mais uma grande Matéria do meu Amigo Alain

    Parabéns pelo excelente trabalho mano!

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