
Genialidade contemporânea: Sam Shepherd A.K.A. Floating Points
“Bem, você sempre esteve muito apegado ao passado, então creio que essa sua preocupação deva ser uma auto reflexão sobre isso.” Foi o que me disse um grande amigo ao saber do meu interesse em entrevistar Samuel Shepherd, o Floating Points, para o Breakbeats & Electronic Standards. Mas é isso mesmo. Embora o projeto tenha como objetivo falar das influências históricas para a música eletrônica e os breakbeats, a idéia de se ter um personagem que tenha absorvido as boas influências do passado e as traduzido em uma obra consistente e de forte identidade nos dias de hoje é igualmente interessante.
Educado musicalmente sob o espectro da música erudita ao do Jazz, Soul, Funk e Disco, Sam Shepherd teve um background daqueles tao abrangentes quanto fundamentais para qualquer grande produtor ou compositor. Precoce, despontou de forma incontestável nos ultimos três anos com produções que demonstraram excelência e honestidade intelectual. Sua versatilidade nos presenteou com obras do calibre de ‘Vacuum Boogie’, ‘Peroration V’ e ‘Love Me Like This’, além de ótimos remixes a (‘Sing’ de Four Tet) e o incrível Soul-Jazz da banda Floating Points Ensemble.
No fim de semana da Virada Cultural em abril 2011, Sam apresentou no MIS (Museu da Imagem e do Som) quarto horas de extasiante viagem musical multi-gênero durante a tarde de sábado, e mais duas na madrugada de domingo no Voodoohop (Trackers). Gentilmente, ele nos cedeu alguns momentos de sua sabedoria musical.

Música sem fronteiras como Produtor e DJ: Floating Points
Você demonstrou ter grande bagagem musical. De todas essas influências que você teve, quem destacaria?
A lista é interminável, mas alguns discos que foram responsáveis por mudar parâmetros para mim sempre estarão entre os meus favoritos: Shostakovich e todos os quartetos de cordas, e de outro lado, Chick Corea e o Return To Forever em ‘Light As A Feather’LP. Esses são os que me vêm a cabeça neste momento!
A Inglaterra (e especialmente Manchester) sempre significaram uma realidade única em termos de cena musical, conjugando diversos gêneros, do Jazz-Funk ao Northern Soul, Electro, Breakbeats, Techno, House… Que impacto isso causou na sua vida?
Oitenta por cento da música a qual fui exposto foi basicamente erudita (clássica), e o restante, Jazz. Sempre fui expert em lojas de disco, e Morava bem perto de Sebos, então meu vício por discos começou bem cedo. Era a forma mais fácil e mais barata de se ter acesso a musica pela qual estava mais interessado naquela tempo.
Da série ‘Atemporais’: os LPs e doze polegadas inesquecíveis de Sam Shepherd
Joe Henderson – Black Narcissus (1976) – Obra-prima do Soul-Jazz cujas linhas de teclados na abertura (cortesia de Patrick Gleeson e Joachim Kühn) podem fazer você se perder para todo o sempre. Um classico nos bares de Jazz e Jam Sessions de Detroit.
Chez Damier – Untitled – KMS049 (1993) – Uma das obras mais apreciadas (e cujo o 12” tem mais alto valor) do mestre da House Music Chez Damier, o Untitled é sinônimo de excelência em música dançante underground. “Meu disco de House favorito! Tente só não dançar!”
LCV (Luis Carlos Vinhas) – O Som Psicodélico (1968) – A psicodelia bossa-jazz de Luis Carlos Vinhas está entre os tesouros nacionais em materia de musica. Lamentavelmente, até hoje este album do pianista e compositor carioca é até hoje pouco conhecido do grande publico. “Que disco absurdo! Cada música, tanto no mood lento quanto no acelerado, arrebenta!”
Talk Talk – Laughing Stock – Album da banda que pasou a margem dos grandes holofotes. Os experts recomendam seriamente ouvi-lo com bons fones de ouvido. Segundo eles, dará outra percepçao da obra e novos elementos, previamente desapercebidos, surgirão. Boa viagem. “Esse é o seu último LP pela Verve. Belíssimo!”
Chick Corea & Return To Forever – Light As A Feather – Obra seminal do Chick Corea em seu projeto Return To Forever com participação da Flora Purim que traz uma fusão de Jazz com elementos da música Latina.
Você parece ter uma grande preocupação com todos os detalhes e arranjos em suas músicas. Qual costuma ser a sua linha de partida ao iniciar uma produção?
A cada vez é diferente. Pode começar com um sample do ato de beber uma garrafa de Perrier, com uma linha rítmica, ou então com o tocar de piano dos meus dedos… Ou até uma obra inteira em minha cabeça ou transcrita em um papel…
É fácil distinguir as suas músicas das demais. Você acha que ter autenticidade em sua obra é algo como o ato de polir uma pedra a perfeição?
Muito legal ouvir isso, obrigado. Contudo, não é como o ato de polir uma pedra a exaustão ou trabalhar em cima por mais tempo, eu acho… Porque meu estilo de produção e meus métodos são tão estranhos! Além disso, têm uma sonoridade específica. Atualmente, estou gravando tudo em tape, o que por si só já implica em ter sonoridade própria. Tentarei fazer com que soe o melhor possível para uma gravação em tape, porem, sempre haverá a característica sonora de gravação em Tape.
O compositor ou produtor geralmente não gosta da maneira pela qual o público se refere a sua música e a forma que é rotulada em gêneros ou sub-gêneros. Como você se sente em relaçao a isso?
Ah, eu nao me importo! Acho engraçado quando me contratam para tocar em eventos ao lado de artistas de Dubstep de som bem enérgico. Aí, eu chego e toco discos de Jazz. Não estou nem aí!

Você já lançou remixes muito elogiados também, a exemplo dos que fez para o Four Tet e Sebastien Tellier. Por favor, fale-nos como foi trabalhar neles e o motivo da escolha.
Eu gostei do processo de fazer esses remixes, especialmente no caso do Four Tet. Neste caso, usei pouquíssimos elementos além dos trechos da própria música para recriar o mix. Já o do Seb Tellier eu realmente não gosto mais… Nunca o ouço!
Diga-nos quem você considera os grandes nomes da atualidade, e por que a música deles é tão especial…
Actress, James Blake, os caras do Hessel Audio, Theo Parrish e o Four Tet. Gente que está fazendo a sua própria música, e não tentando pegar carona no estilo de algum outro. É música com longevidade. Penso ser muito importante.
Você pode nos revelar algum single, EP ou album que esteja gravando no momento?
Tenho aproximadamente uns seis discos para lançar, singles e EPs. Está levando um tempo porque estou no meio da minha graduação como PhD… Com relação ao album, ainda não sei. De qualquer forma, retomei as gravações com a minha banda (Floating Points Ensemble) e devo ter algo pronto em dois anos, espero. É bem difícil coordenar o trabalho de dezesseis pessoas ao mesmo tempo em um ambiente!
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Conheça alguns grandes lançamentos de Sam Shepherd (Floating Points)
Floating Points – Vacuum Boogie (2009) | Video
Sofisticação calcada em brilhante estrutura harmonica e num forte senso de ritmo e fazem de ‘Vacuum Boogie’ um dos lançamentos especiais dos ultimos três anos. Sua atmosfera única é ao mesmo tempo dançante e emocional.
Floating Points – Love Me Like This (2009) | Video
Sam Shepherd parece saber a medida perfeita para a cadência e a evolução musicais. Se você tiver pensando em categorizar a música, esquece – Floating Points é inrotulável.
Four Tet – Sing (Floating Points Remix) | Video
Profundamente introspectivo, futurista e emocional, este remix traz uma abordagem de progressão harmonica e intensidade bem maiores que a original. Brilhante.
Floating Points Ensemble – Post Suite | Video
Composição envolvendo uma banda inteira com dezesseis músicos, o single ‘Post Suite’ abrange influências de Jazz e Soul e com o toque de classe do próprio compositor no Fender Rhodes e nos sintetizadores Sequential Pro One e Prophet. Obra-prima.
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Agradecimentos especiais ao Marcos Guzman pela entrevista e a Juliana Knobel pelas fotos tiradas do artista.
cresceu com uma vasta bagagem musical que abrange música clássica, experimental, Jazz, Soul, Funk, Disco, Hip Hop, charming R&B, Kraut Rock e Música Eletrônica. Em sua vida profissional, trabalhou em veículos de comunicação na årea de música incluindo websites e revistas, entre os quais a Revista Beatz, cujo Conselho Editorial integrou em 2004. A partir de 2005, atuou em diferentes agências de artist management, onde teve a oportunidade de ter contato com artistas do porte de Kenny Larkin (EUA), Mark Archer (Altern8/ING), DJ Pierre (EUA), Vince Watson (ESC), Legowelt (HOL), Marcel Dettmann (ALE), Satoshi Tomiie (JPN/NYC), Gramophonedzie (Servia), Orgue Electronique (HOL), Alden Tyrell (HOL), entre outros em suas tours no Brasil.
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