
DETROIT MOVEMENT 2011
cobertura ELECTRONIC STANDARDS
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Me lembro uma vez de ter escrito um texto sobre o Techno de Detroit anos atrás, sem jamais ter posto os pés lá, o que em princípio parece contraditório. É que, com o passar dos anos, absorvi muito do seu legado musical, e como essa influência começou ainda em meados da década de setenta, claro que não estamos falando somente de Techno. Uma das capitais mundiais da indústria automobilística, Detroit, posteriormente batizada de Motor City, sediou justamente aquela que se tornaria uma das gravadoras mais importantes dos anos sessenta aos oitenta: Motown.
Fundada em 1701 pelo francês vindo do Canadá Antoine de la Mothe Cadillac, Detroit teve seu nome baseado no termo sinônimo em francês que significa estreito devido a’ sua posição geográfica. Apesar de ser sede da General Motors e de ter tido Henry Ford como um dos seus padrinhos, sua abrangência foi muito além das fronteiras do universo automotivo: musicalmente, foi cidade dos músicos e compositores Donald Byrd (Blue Note) e Joe Henderson (Wayne State University) que se tornaram clássicos do Jazz, teve sua bandeira eternamente cravada na história do soul e do funk com o grupo de labels Tamla-Motown cujos releases incluíram Rick James, Teena Marie, Stevie Wonder, The Commodores, Diana Ross, Marvin Gaye e Jacksons 5, e além de ter sido residência de standards do rock entre os quais Alice Cooper e MC5 (leia-se Motor City Five, banda cuja obra teve profundo impacto na era Punk).
Detroit também abrigou estúdios e palcos que se tornaram notórios. Só no caso da Motown, foram dois – os estúdios do histórico prédio da gravadora Hitsville U.S.A. hoje pertencendo ao museu, e o United Sound Systems, onde grande parte das produções musicais orquestradas do label foram gravadas.
Os locais de eventos, da mesma forma. Foi no Apex Bar, em Midtown onde ocorreram as Jam Sessions de Jazz de vários dos artistas da Motown em momentos de descontração, e no Sugar Hill Lounge o local de muitos dos shows destes artistas na fase inicial de suas carreiras. Não muito longe dali, o Grand Quarters sediou intermináveis festas a partir dos setenta e especialmente durante o crescimento da cena de Booty e Ghetto Tech nos noventa.

Antoine de la Mothe Cadillac foi o fundador da cidade, em 1701: influência francesa
Achou pouco? Foi exatamente em Detroit que teve início a tão apreciada cena de Techno, primeiro através de Juan Atkins a partir do início dos anos oitenta com seus projetos Cybotron e Model 500, depois com os seus amigos e igualmente lendários produtores Derrick ‘Rhythim Is Rhythim’ May, Kevin ‘Master Reese’ Saunderson e Eddie ‘Flashin’ Fowlkes na escola Belleville e nos seus primitivos estúdios caseiros de cada um deles, a partir da segunda metade da mesma década. Derivado de gêneros como jazz, soul, funk, disco e tudo o que havia de alternativo musicalmente falando na Europa incluindo industrial, EBM e kraut rock e electronic disco, de Kraftwerk a Giorgio Moroder, o techno se proliferou a partir do meio dos anos oitenta, superando todas as barreiras regionais e tornando-se um dos mais apreciados estilos até hoje de música eletrônica.

United Sound Systems: onde ocorreram grande parte das gravações dos artistas da Motown
Quer mais? A partir do fim dos oitenta, infindáveis talentos despontaram, desde Carl Craig, os Members Of The House (cujo embrião fizeram parte ninguém mais ninguém menos que Mad Mike Banks do Underground Resistance e Jeff Mills), Kenny Larkin, Mills, Robert Hood e Cia. O próprio Underground Resistance teve papel determinante nas décadas seguintes tornando-se o grande label em matéria de Techno de Detroit com lançamentos que incluíram os atemporais álbums e singles dos projetos UR, Drexciya, Red Planet e do coletivo Los Hermanos, além da eterna ‘Jaguar’ de Rolando, ícone da cena underground. Ao mesmo tempo, a poucos quilômetros dali, na cidade de Windsor, no Canadá, despontava Richie Hawtin (também conhecido por Plastikman), artista que se tornou invariavelmente parte da cena de Detroit graças as suas influencias culturais vindas da Motor City e as suas brilhantes habilidades como DJ, nos estúdios e como dono de label, reunindo a partir do início dos noventa com o label Plus8 ao lado de John Acquaviva.

Poucos sabem, mas Detroit é um dos grandes centros culturais dos Estados Unidos, além de Nova Iorque e Chicago. Acima, o Detroit Institute Of Arts, com a réplica do Pensador, de Auguste Rodin. Abaixo, o Museu Afro-Americano de Detroit, igualmente impressionante.
Os reflexos da inesgotável musicalidade da Motor City podem ser sentidos até hoje em cada esquina ou estabelecimento. Bares e lounges de hoteis ao som de Jazz, as inúmeras sedes da Igreja Batista com os corais e instrumentais gospels, pessoas cantando Soul na rua, eventos com artistas de house e techno no line up, hip hop nas caixas de som dos carros, entre outros.

Disco de platina do LP ‘Paradise’, do Inner City (1989): marco na história da música eletrônica
A cidade de Detroit, que já passou por diversas crises, está vivendo outro momento de reestruturação. Foram muitas as famílias que deixaram a Motor City após os períodos de baque na indústria automobilística, desde a crise do petróleo no início da década de setenta até a invasão dos carros japoneses nos anos oitenta, a crise das hipotecas, entre tantas outras.
E isso, é claro, teve resultados no dia a dia da cidade. A criminalidade está em níveis claramente acima do razoável, é comum ver pessoas pedindo dinheiro na rua, e a cidade se ressente da falta de infraestrutura em várias regiões, o que fez com que a prefeitura criasse um plano de emergência de realocação dessas famílias nos bairros em melhor situação.
Contudo, a partir dos últimos dez anos, a cidade de incomparável vida musical foi presenteada com a criação de um grande festival, o D.E.M.F. (Detroit Electronic Music Festival) que depois passou a ser chamado apenas de Detroit Movement Festival sob a administração da Paxahau. Com direito a um line up respeitável a cada edição, o festival está entre os melhores do mundo em matéria de qualidade musical, em grande parte devido a’ prata da casa, que literalmente dispensa comentários. Imagina você ter opção de sobra para escolher entre Inner City, Derrick May, Model 500, Timeline, Moodymann, Theo Parrish, Carl Craig, Kenny Larkin entre outros para montar o line up do evento a cada ano. É tanta possibilidade que o festival teve que adotar o rodízio como regra para que se trouxesse sempre novidades a cada ano e ao mesmo tempo desse grande destaque para os artistas locais.
Além disso, houve um grande trabalho de planejamento no sentido de se trazer atrações internacionais de peso, tanto em termos conceituais quanto os nomes mais conhecidos. Neste ano, dividiram o line up nomes como Space Time Continuum, Metro Area, Kerri Chandler, Flying Lotus, Sven Vâth e Fatboy Slim, comprovando a perspectiva eclética e abrangente do evento, que contou com cinco stages: a marca multinacional de bebidas Vitamin Water, o portal de música digital Beatport, a marca local Made In Detroit, o Red Bull Music Academy e a própria Movement.
Gostaria de deixar clara a plena consciência de que não existe a cobertura de um festival, e sim, uma cobertura. Por mais que se passem sete a oito horas por dia de trabalho, é impossível estar em todas as pistas ao mesmo tempo durante todos os dias do evento – portanto, procurei, na medida do possível, trazer aos leitores alguns dos grandes momentos do Detroit Movement. Abaixo, vocês conferem alguns dos ótimos momentos.

O live do Dam-Funk com o Master Blazter abalou as estruturas do Red Bull Stage,
com referências claras a Zapp e George Clinton: Future Funk interplanetário
Um dos grandes parceiros do Detroit Movement foi a Red Bull Music Academy, divisão da multinacional Red Bull responável por congressos anuais itinerantes de difusão de conhecimento e tecnologia na área de música. Para o Movement, eles se estruturaram de forma impecável, com um stage de grande porte e atrações incríveis, incluindo o live do Dâm-Funk com o Master Blazter, o ícone do Drum n’ Bass e da Metalheadz Goldie com o MC Armanni Reign, além do talentoso Space Dimension Controller (R&S), Soul Clap, e um grand finale com o genial Flying Lotus. De quebra, a localização do Red Bull Music Academy Stage proporcionava ao público presente uma belíssima vista para o lago atrás do palco.

O palco Vitamin Water foi o estrategicamente o mais bem localizado do evento e contou com arquibancada circular em forma de escadas com uma grande pista ao centro. A foto acima foi tirada no momento da apresentação de Kerri Chandler, debaixo de chuva em emocionante set de deep grooves com direito a ‘What They Say’ da Maya Jane Coles no repertório.
Confira a lista completa dos vídeos de cobertura do Detroit Movement no final da matéria.

No mural de história da música negra do Museu Afro-Americano de Detroit, há um capitulo inteiro dedicado ao Techno e quatro de seus personagens fundadores – Juan Atkins, Derrick May, Kevin Saunderson e Eddie Flashin Fowlkes. Abaixo, o célebre trecho ‘We Hold These Truths To Be Self Evident’ usado por Martin Luther King e sampleados por Kevin Saunderson

Estrelas do Detroit Movement 2011: Aril Brikha (Irã) cumprimenta o amigo Steve Rachmad (HOL) na foto acima, pouco antes de sua apresentação no Made In Detroit Stage;
no dia seguinte, foi a vez do holandês (abaixo) por tudo abaixo no Movement Stage, ao lado da agente Manuela (esq) e dos amigos da Ostgut Ton Marcel Dettmann e Ben Klock (ALE).

No encerramento do 2o dia, um dos mais aguardados momentos do festival: live do projeto 69 (Six Nine) de Carl Craig, que presenteou o público presente com os clássicos ‘Rushed’, ‘Tres Demented’ e ‘Desire’; abaixo, os singles relançados do 69 na loja da Planet E

Techno com influências de Jazz e Soul: Trio do Underground Resistance foi destaque no 2o dia
Outra surpresa especial do Detroit Movement ocorreu por conta da apresentação do trio de artistas do Underground Resistance formado pelo DJ e percussionista Mark Flash, o tecladista Jon Dixon e o saxofonista De’Sean. O Mestre de Cerimônias encarregado de apresentar os artistas foi o célebre Cornelius Harris, também do Universe 2 Universe (Galaxy 2 Galaxy).
Baseados na própria cidade de Detroit, o coletivo Underground Resistance é um dos mais importantes da música eletrônica nos últimos vinte anos. Se você quiser se inteirar a respeito de história do label e das suas novidades, não deixe de conferir os sites:

www.undergroundresistance.com . www.submerge.com . www.youtube.com/ur313
Videos

O encerramento do Detroit Movement Festival 2011 não poderia ter sido mais emocionante: no Red Bull Music Academy stage, Flying Lotus foi o responsável pelo grand finale levando a pista literalmente ao delírio (acima); Enquanto isso, na pista Made In Detroit, Claude Young desfilava seu repertório de grande sabedoria musical sob a presença de Kevin Saunderson
Confira mais Videos do Detroit Movement 2011
Metro Area 01
Metro Area 02
Aril Brikha (Made In Detroit) 01
Aril Brikha (Made In Detroit) 02
Aril Brikha (Made In Detroit) 03
Aril Brikha (Made In Detroit) 04
Tortured Soul @ Vitamin Water Stage
Kerri Chandler DJ Set 02
Kerri Chandler DJ Set 03
Steve Rachmad (Sterac)
69 (Carl Craig) Live 01
69 (Carl Craig) Live 02
69 (Carl Craig) Live 03
69 (Carl Craig) Live 04
Terrence Parker DJ Set 01
Terrence Parker DJ Set 02
Terrence Parker DJ Set 03
Terrence Parker DJ Set 04
Terrence Parker DJ Set 05
Terrence Parker DJ Set 06
District 909 live 01
District 909 live 02
Alan Oldham A.K.A. T-1000 DJ Set
Claude Young DJ Set 01
Claude Young DJ Set 02
Claude Young DJ Set 03
Flying Lotus live
cresceu com uma vasta bagagem musical que abrange música clássica, experimental, Jazz, Soul, Funk, Disco, Hip Hop, charming R&B, Kraut Rock e Música Eletrônica. Em sua vida profissional, trabalhou em veículos de comunicação na årea de música incluindo websites e revistas, entre os quais a Revista Beatz, cujo Conselho Editorial integrou em 2004. A partir de 2005, atuou em diferentes agências de artist management, onde teve a oportunidade de ter contato com artistas do porte de Kenny Larkin (EUA), Mark Archer (Altern8/ING), DJ Pierre (EUA), Vince Watson (ESC), Legowelt (HOL), Marcel Dettmann (ALE), Satoshi Tomiie (JPN/NYC), Gramophonedzie (Servia), Orgue Electronique (HOL), Alden Tyrell (HOL), entre outros em suas tours no Brasil.
league of legends download disse em 22 de July de 2011
I don’t know why…
Robson disse em 15 de July de 2011
Alain Patrick é um jornalista inexorável .