Produtor desfragmenta recente álbum e aproveita para detalhar seu modus operandi.

Imagine um andróide destoando produções de Jean Michel Jarre live. Tente idealizar uma versão saturnina de Giorgio Moroder. Agora, pega esses dois tubos de ensaio e misture num recipiente cheio de grooves por Larry Heard. Isolée é mais ou menos o resultado disso tudo: uma espécie de slomo-disco cheio de cadências espaciais que tentam uma comunicação entre si, mas acabam em tilt e se perdem no meio do caminho. Ainda difícil? Relaxe, uma definição consensual nunca prevalece quando se tenta descrever produções ousadas como as dele.
Depois de ser classificado como microhouse, dub techno e até synth pop, o som definitivamente inovador de Isolée – alterego do alemão Rajko Müller – retoma mais uma vez a forma de álbum e traz onze faixas inéditas para confundir mais ainda nossa taxativa percepção. Desde o aclamado “We are Monster”, lançado pelo selo Playhouse há seis anos atrás, o artista incitou expectativa para finalmente dar o bote: “Well Spent Youth” saiu em janeiro pelo selo Pampa Records, e segundo o próprio produtor, trata-se de Isolée em sua mais autêntica reprodução.
Juventude bem aproveitada
Não que isso tenha sido meticulosamente planejado, mas o último álbum refletiu bem o jeito isoléeico de criar harmonias e processar a realidade, ele afirma: “O primeiro long play – Rest – foi um tanto subjetivo, já o segundo – We are Monster – foi na verdade uma exceção mais dançante. Ao passo que o novo trabalho – Well Spent Youth – resultou em uma obra bem mais íntima, é música originalmente Isolée”, ele afirma.

Albuns: Rest (2000), We Are Monster (2005) e Well Spent Youth (2011)
Até aqui tudo muito bonito. No entanto, o que viria a ser música originalmente Isolée? Ele garante que mesmo estusiasmado com uma batida que faz o corpo mexer involuntariamente, ele tenta criar uma deixa para engatar melodias sensíveis. Embora ache que a linha divisora entre sonoridades dançantes e emotivas seja tênue, sentimento para ele vem em primeiro lugar.
Diferente das comoções turbinadas de “We are Monster”, as novas produções de “Well Spent Youth” recuperam os efeitos sarcásticos e os bpm’s de “Rest”, só que dessa vez, de forma mais centrada e menos discrepante a cada odisséia. O nome da primeira faixa, “Paloma Triste”, foi concebido antes mesmo dos primeiros loops aparecerem, a conclusão confere uma tragicomédia funk que apresenta o álbum emanando incertezas. Segue “Thirteen Times an Hour”, um cocktail-house animado que atenua o suspense e instiga os ombros, essa é também uma das faixas que mais deu trabalho para Isolée: “Thirteen Times an Hour, Taktell e Transmission tiveram várias nuances e precisei de mais tempo para escolher as versões finais”, conta.
Os dubs meditativos “Journey’s End” e “Celeste” reforçam uma serenidade um pouco distante da pista de dança, enquanto que a perturbação glitch, a cara de isolée, é reincarnada com “One Box” e “Hold On”. O destaque passional vai para o interlude “Trop Prés de Toi”, que comparado com o resto, personifica aquele refúgio parentético inevitável – o momento em que você fecha os olhos e esquece tudo ao redor para revisitar alguma impressão mal-resolvida.

" - A juventude não é só paz, alegria e panquecas"
O título do album é um tanto intrigante, quando questionado se sua juventude foi bem aproveitada, ele fala de sua mocidade com nostalgia e confirma que aproveitou bem, mas comenta que estamos falando da fase mais difícil da vida. Sem entrar em detalhes, ele ilustra o que quer dizer com um ditado alemão que foi também tema de Dr. Motte para a primeira Love Parade, afirmando que a juventude nao é só “Friede, Freude und Eierkuchen” (Paz, Alegria e Panquecas). Ao perceber que a sua resposta ainda não elucidava claramente o título, disse que os nomes que ele escolhe para suas obras, geralmente depois de terminadas, ele prefere deixar sujeitos à livre interpretação.
Música Originalmente Isolée
Sua técnica não implica dia-a-dia repetitivo e nem procedimento certo. Como músico, ele dispensa o trabalho metódico e consagra a intuição. Diz que quando se faz música, a materialização do conjunto de idéias e impressões é mais a solução de um quebra-cabeca do que o acabamento de uma operação linear. “Acho melhor produzir de maneira intuitiva, mesmo quando não trabalho intensivamente, estou sempre atento às influências que ouço e às idéias que surgem. Quando menos espero, já tenho acervo suficiente para novos outputs”.
Ableton live é o seu recurso principal, tanto para produção quanto para live performance. Porém, confessa, tende bem mais para hardware do que para ferramentas digitais. Dentre suas máquinas preferidas estao a JX-3P e a MKS30, ambas da Roland. Sim, aquelas lançadas no milênio passado. Ele admite que muitos aparelhos que usa são limitados, mas eficazes em sua limitação. “Nao trocaria uma máquina simples que soa bem por um plugin que consegue fazer tudo, mas não tem personalidade”
O novo live de Isolée não inclui só as novas faixas de Well Spent Youth, afim de transpor o experimentalismo doméstico para house laboratorial ao vivo, ele justapõe faixas e sequências nunca lançadas, já que poucas das suas produções oficiais são enérgicas o suficiente para uma pista de dança. De fato, ele assegura que o seu forte é produzir e não tocar, por fim, ele se dispõe a desvirtuar as caracteristicas do Isolée que a gente ouve no audio player para fazer a apresentação funcionar no clube. “O Isolée live é complementar, mas não necessário.” Por esse motivo, ele reprova restrições artísticas em um contexto pessimista pós revolução digital. Rajko não expressa total aversão à liberdade cultural, garante até que eventualmente lançaria música sem o intuito de lucrar com isso, só acha triste um músico ser obrigado a garantir sua renda com live PA’s, uma vez que suas produções circulem livre pela rede.

Isolée, tomando os seus bons drinky
Confrontado com uma outra hipótese mais exagerada – um mundo onde música fosse proibida e todos tivessem que sair de casa com protetores auriculares -, ele responde com humor, confessando que adoraria não ouvir equívocos musicais involuntariamente, especialmente muita coisa que ele as vezes é obrigado a captar do rádio. Contudo, sentiria muita falta de ouvir jazz e indie em casa, e, claro, lamentaria sua própria impossibilidade de produzir.
Nesse ponto, não deixei de perguntar o que ele faria para pagar as contas. Ele se mostra flexível e nao acha a hipótese tão apocalíptica quanto soa, finaliza dizendo que possivelmente abriria um restaurante. “Nunca pensei concretamente sobre isso, mas adoro cozinhar no meu tempo livre, acho que daria um jeito de tornar essa ocupação rentável” – O que vai ser hoje, Monsieur? “Beau Mot Plage” ao forno ou “My Hi-matic” crocante?
Isolée se apresenta neste sábado, 13/08, no MIS.
fueloop disse em 11 de August de 2011
…só confirmou a minha vontade de ir sab. no MIS, parabéns pela entrevista Marco!