Envolvidos no universo musical há mais de 20 anos, Edu Corelli e Luis Depeche deixaram suas marcas na cultura da noite paulistana. Corelli, seja tocando acid house nos anos 80, seja encarnando a primeira DJ-drag do país (Selma Self-Service, no clube Sra. Krawitz, em São Paulo, meados dos 90), seja como produtor musical de Edson Cordeiro ou hoje como DJ de casas e festas alternativas. Depeche, conhecido por ser uma “enciclopédia musical”, se envolveu com a cena eletrônica quando integrou a equipe da Stilleto Records, na virada dos 80 para os 90, – atualmente trabalha no selo Fiber Records e é editor do site FiberOnline, além de discotecar em festas como a Hotzilla, a FiberOnLive e Debut.
Há quase uma década os dois amigos dividem ideias musicais: mantêm o projeto de eletrônica Suntrax, além de produzirem trilhas para desfiles de moda. Ellus, Ocimar Versolato, Amapô, New Balance, Canal, Simone Nunes e Fábia Bercsek são algumas das grifes que já receberam as boas melodias da dupla. Ao ouvir o set, atente para as interferências com samples de clássicos da house durante o tema de Blade Runner, de Vangelis, seguido de um mix do Suntrax com Toto.
Falem sobre o set. Como o compuseram, quais as inspirações, por que escolheram estas faixas?
Luis – Esse set mistura humores diferentes, mas na maior parte é pontuado por um pouco de melancolia e romantismo. A idéia foi reunir músicas que para nós são inesquecíveis, independentemente se foram gravadas e escutadas pela gente pela primeira vez há quase trinta, vinte, dez ou um ano atrás, e de um jeito não muito linear, que é mais ou menos como funciona o nosso emocional. Aproveitamos para expressar isso até na maneira como trabalhamos, como é o caso dos samples que mixamos sobre a “Love Theme”, do Vangelis (aquela do Blade Runner) e gravações de amigos introduzindo o nosso projeto de música eletrônica. São alguns dos momentos “mafuá jeans” que fazemos pra quebrar um pouco a seriedade e rigidez das coisas.
Edu – Dadaismo antigo.
Vocês são ligados em música desde quando? Contem um pouco sobre suas histórias e se há fatos curiosos, até o momento em que viraram DJs e começaram a tocar em clubes/festas.
Edu – Comecei a colecionar discos quando meu avô me deu uma revista que comentava os capítulos semanais das novelas e vinha um compacto com duas músicas. De um lado tinha o tema da novela Dancing Days e uma do Scotch Machine. isso ainda eram os anos 1970. Na época já bateu uma vontade de me montar pra ficar parecida com a Julia Matos, que era a personagem da Sônia Braga na novela. Vinte anos depois, o desejo virou realidade, me montei nos anos 90 de Selma Self Service (meu personagem como DJ-drag) e numa determinada festa em que fui tocar na Zona Leste, especificamente num circo, achei que o povo de lá não gostava de house porque a pista ficou vazia. Só fui saber depois que, por ser num circo, o leão havia fugido da jaula e o povo ídem.
Luis – Comecei a colecionar vinis desde a primeira vez que escutei a “Hall of Mirrors”, do Kraftwerk, num comercial da Star Sax que passava na TV há muuuito tempo. O envolvimento profissional com a música veio nos tempos em que passei a trabalhar na Stiletto Records, com o Thomas Pappon, que hoje em dia mora em Londres e trabalha na BBC. As primeiras discotecagens vieram deste trabalho, quando comecei a receber convites pra participar de programas de rádio e tocar discos em casa noturnas (a primeira vez no Madame Satã, em 1990, quando levei algumas coisas que lançamos na época, talvez o primeiro – e único – set de acid house e indie dance que rolou por lá).
Quais seus projetos, residências, festas e/ou parcerias em andamento?
Luis – Fora o Suntrax, que é o projeto de música eletrônica que criei e que desde o começo conta com a participação do Edu (principalmente na mixagem, pois os ouvidos e sensibilidade dele pra pista são bem melhores que os meus) e o trabalho de produção de trilhas que temos juntos, sou residente nas festas que estão ligadas diretamente ao FiberOnline, que é o site de música eletrônica em que trabalho como editor. As festas são a FiberOnLive, Silver Tape, Hotel House, Machina Festival, Machina Redux e também a Hotzilla, que é também um blog de música alternativa e indie. De uns tempos pra cá tenho discotecado algumas vezes com o Edu, quando fazemos sets no formato back to back. Vira uma verdadeira festa na cabine e tocamos num esquema completamente “no escuro”, sem combinar nada, nem mesmo quem vai tocar a primeira música.
Edu – Não gosto da palavra residência pois soa muito a plantão médico e anos 90. Toco mensalmente no Vegas (Rebel! vs Debut), no Glória na Luxo Pop Show, na Torre (Debut!) e como convidado nas festas Freak Chic, Perversa, Bafón Báfu e Alelux.
Desde quando vocês trabalham juntos fazendo trilhas para desfiles? Como funciona o processo de composição?
Luis e Edu – Completamos agora nove anos fazendo as trilhas juntos. O processo de composição depende muito da carta branca que temos pra pirar e da disposição do estilista. A trilha pode ser uma música inteira estendida, ou em outros casos faixas que editamos à nossa maneira, remixes que fazemos, músicas compostas a partir do zero e até produções que contam com a participação dos estilistas. Pra deixar a coisa mais interativa e com um imprint ainda mais pessoal, convidamos eles pra literalmente “colocarem a mão na massa”, ou melhor, o gogó na música.
No que o trabalho de um completa o outro? Além das trilhas, têm outra ligação com moda?
Luis – Na hora juntamos tudo – background musical, técnica, ouvidos, coração, vontade de experimentar, abstração. Geralmente, eu que sou mais nerd fico no comando do computador, softwares, dos botões, e a voz do Edu de produtor musical fala mais alto. Depois de tentativas, erros e acertos, batemos o martelo juntos.
Edu – Resumindo, o Luis é o macarrão com ovos, e eu sou a Renata… kkkkkkk
Texto: João Pedro Perassolo
1. The Durutti Column – Sketch For Summer
2. Arthur Russel – Wild Combination
3. Aphex Twin – Xtal
4. Appaloosa – The Day We Fall in Love
5. Bent – Coming Back
6. Black Science Orchestra – Richard Opus n° 9
7. Plantains – I Feel Love
8. Vangelis – Love Theme (Reworked and enhanced by Mafuá Jeans)
9. Toto vs Suntrax – Africa (excerpt from Fabia Bercsek’s soundtrack for the 2007/2008 Summer Collection)
10. Prefab Sprout – When Love Breaks Down
11. Orbital – Belfast (Fabia’s Cloudy Interference)
thiago disse em 7 de novembro de 2009
wild combination… :)