db43 Rafael Moraes

3 de março de 2010

Da época em que trabalhou na tradicional loja de discos especializados em reggae, a Jay Mahal, em idos dos anos 80, até as suas discotecagens recentes em clubs e eventos pelo Brasil e mundo afora, o DJ Rafael Moraes não deixou de lado sua sede pela música. Músico antes de mais nada, ele integra com os DJs/produtores Ale Reis e André Torquato o Nomumbah, projeto dedicado às sonoridades jazzísticas, latinas e de ritmos quebrados, envolvidas pela deep house. O grupo é representado por importantes selos como Defected, Yoruba, Strictly Rhythm e Sonar Kollektiv e coleciona menções honrosas de gente como Louie Vega, Henrik Schwarz, Atjazz e Jazzanova.

Moraes, que também é responsável por um dos mais conceituados programas de música eletrônica na rádio, o Beats Eldorado, recebeu o deepbeep no seu estúdio para um bate-papo.

Fale sobre seu set para o deepbeep. Como você o compôs, quais as inspirações, por que escolheu estas faixas?
Já conhecia o site e escutei alguns sets de artistas que gosto. Percebi na maioria deles um foco na qualidade e também um toque bastante pessoal e até despreocupado em ser dançante. Quis colocar um pouco do que gosto de escutar, com algumas exclusividades, músicas próprias e misturar bastante a sonoridade dentro do deep house. Assim, consegui criar uma atmosfera e sonoridade que expressam bastante meu trabalho, tocando faixas de artistas que de alguma forma tenho contato. Recebo semanalmente uma quantidade muito grande de música, o que torna a tarefa de selecionar 12 faixas ainda mais difícil, por conta do trabalho do Nomumbah e do programa de rádio homônimo que é transmitido em cinco países atualmente (Brasil, Inglaterra, França, Canada e Grécia).

Você  é ligado em música desde criança? Conte um pouco sobre sua história e se há fatos curiosos, até  o momento em que você virou DJ e começou a tocar em clubes/festas.
Cresci numa família ligada a música e músicos, freqüentei festivais, ensaios, gravações e shows desde muito jovem. Sabia onde ficavam os discos que gostava na discoteca dos meus pais, que já tinha mais de 2000 discos na época, e subia no puff para puxar o disco que eu queria escutar com dois ou três anos de idade! Cresci assim, escutando discos e lendo livros diversos até encontrar a vertente musical que pegou na veia, que foi a vertente negra. Comecei a tocar muito cedo, nos bailes de escola, inclusive porque odiava ter que dançar com a vassoura. Como era mais gordinho que os meninos, fui fazer algo que sabia melhor que os outros. Aos 14 anos descobri uma loja de disco, a Jay Mahal Records, que abriu meu mundo para estúdios, rádios e noitadas. Começava ali minha vida profissional, tocando em boites como Aeroanta e Dama Xoc, festivais no SESC Pompéia e viagens para acompanhar bandas pelo litoral e interior de São Paulo. Era engraçado ver a reação das pessoas naquela época, eu chegava na aula sem dormir praticamente, e já tinha uma profissão que me pagava. Quando dizia que era DJ, a pergunta seguinte era sempre “Legal, mas você trabalha com o que”… As coisas mudaram bastante.

Como é ser DJ e músico ao mesmo tempo? O fato de você tocar percussão contribui no groove do Nomumbah?
Me considero músico antes de mais nada. Discotecagem é um dos braços que a profissão me permite, e que funciona muito bem para mim, pois vivi a vida escutando música e fazendo as pessoas dançarem, além de gostar de sair e dançar. O fato de conhecer harmonia, timbres e ritmos ajuda na parte técnica e na seleção musical quando estou discotecando, mas para mim tocar um instrumento e discotecar vem do mesmo princípio que é fazer o maior número de pessoas sentirem a música do meu ponto de vista e dançarem. Criou-se uma banalização comercial em torno da música que por vezes acaba apagando a sua verdadeira essência, e é exatamente essa essência que me interessa e me faz criar. Conheci mais duas pessoas que compartilham do mesmo sentimento, Ale Reis e André Torquato, DJs e produtores que queriam fazer música boa sem a pretensão de ser o número um das FMs. Posso dizer que com o Nomumbah alcançamos esse primeiro objetivo. Além do que, temos influências musicais muito semelhantes, como soul, funk, jazz, música instrumental brasileira, fora house como um todo e techno, principalmente o de Detroit.

Conte um pouco sobre o processo criativo do seu grupo em estúdio.
Tivemos a sorte de além de gosto muito semelhante, nos completarmos no estúdio, cada um a sua maneira. O André é o principal instrumentista, toca piano, guitarra, compõe temas belíssimos, o Alê tem um conhecimento absurdo de tecnologia, timbres, um bom gosto enorme em escolher e misturar os sons, eu sou mais o groovemaker, talvez por ter essa experiência em acompanhar as bandas na “cozinha” (seção ritmica da banda, composta por baixo, bateria e percussão).

Você  trabalhou numa loja tradicional de dub e reggae em São Paulo no início de sua carreira. Qual a importância disso no seu som atual?
A Jay Mahal Records foi o princípio de tudo pra mim, foi dalí que descobri a noite de uma maneira profissional, foi ali que vi a música como uma profissão. Por causa dessa ligação com a música negra, sempre me ative as linhas de baixo gordas, kicks poderosos e percussão harmonicamente mixados e sempre a frente da guitarra, piano e voz. Quando descobri a música eletrônica, o que bateu comigo de cara foi o deep house e o techno de Detroit, que se adequam a essa equação musical, muito próxima do dub jamaicano. A noite nunca foi para mim um lugar de balada, sempre foi meu ganha pão. Talvez por isso tenha trilhado um caminho mais longo, porém mais duradouro, já que a música descartável muda a cada seis meses, e a música boa, em sua essência, sempre estará no seu lugar através de quem quiser apresentá-la ao público.

comente

  1. Rafael Lima

    Rafael Lima disse em 6 de junho de 2011

    Caramba! Me emocionei com esse post pois tenho as mesmas influencias que eles e essa ultima frase é o que define a musica contemporanea: "a música descartável muda a cada seis meses, e a música boa, em sua essência, sempre estará no seu lugar através de quem quiser apresentá-la ao público."

db43 Rafael Moraes
ouça na radio

sugestões de sets

tracklist

1.  Osunlade – Momma’s Grooves (Nomumbah’s Dub)
2. Simon Hinter – Snowblind
3. Daniel Paul feat Colin Corvez – Something About You
4. Bon & Rau – Brothers & Sisters (Original Mix)
5. Masterbuilders – Never Never (Christo’s Afro Cosmic Dub)
6. Argy – Sometimes I’m Blind (Original)
7. DJ Minx Ft. Diviniti – Just Make it Deep (DJ Rork’s Deep Mix)
8. DOP – Horns N Roses (Original Mix)
9. Alain Ho – Sur La Terre (Original Mix)
10. Spencer Parker – The Beginning (Michael Cleis Remix)
11. Arnaud Le Texier – Ivory Machine – Original Mix
12. The Nightwriters – Let The Music Use You – Original Mix

acompanhe