db38 Corello DJ

27 de janeiro de 2010

Marco Aurélio Ferreira, aka Corello DJ, foi o primeiro DJ da zona norte carioca a dominar a arte da mixagem e também responsável pelo “charme”, termo criado em 1980 para definir um novo caminho do R&B, que privilegiava a harmonia e o ritmo das músicas. Como radialista, ele também foi responsável pela revolução da “plástica” de programas, com a introdução de vinhetas americanas e locuções diferenciada. Enquanto isso, lotava os bailes do subúrbio com milhares de jovens amantes da boa música. Em parceria com Fernandinho DJ, trouxe ao Brasil consagrados artistas do gênero como Glen Jones, Sybil, Curtis Hairston e Omar Chandler.

Na primeira parte do set gravado para o deepbeep, o DJ apresenta uma seleção de faixas old school e de hip hop da década perdida. Na segunda parte, revela a evolução do R&B atual, com faixas usadas nas suas discotecagens pelas noites cariocas.

Como você definiria este set?
Procurei contar um pouco da história do R&B nos bailes da Zona Norte carioca sem seguir a cronologia do ano em que foram lançadas. Depois de pronto, enquanto fazia o tracklist, me dei conta que o set ficou repleto de hits old school, que ainda fazem parte das chamadas “raridades” da época, vindos de vinis difíceis de encontrar nos EUA e na Inglaterra. A primeira hora tem aquela levada dos anos 80 marcada pelo BPM alto (para os padrões atuais) e seus arranjos ainda baseados em muitos instrumentos como metais, cordas e vocais harmoniosos. A segunda parte é o retrato atual dos bailes de subúrbio, que mostra a evolução do R&B pós hip hop, onde se volta a valorizar a elegância do Urban R&B americano e inglês.

Quais foram suas inspirações e referências pra gravar o set?
Pude fazer o set mais solto, sem as preocupações da visão de pista, necessária a qualquer DJ. O set old school de certa forma foi inspirado num antigo programa de rádio chamado Big Apple Mix, apresentado pelo saudoso Frankie Crocker na WBLS de Nova Iorque até meados dos anos 90. O set atual foi saindo conforme a inspiração do momento da criação. Não parei pra olhar pro lado. São músicas que toco no meu noite a noite, que o meu cérebro já conhece o caminho de ida e volta. São músicas que fazem a pista atual nas festas do subúrbio do Rio de Janeiro.

Como começou a sua história musical? Você é ligado em música desde criança? Fale sobre fatos curiosos, influências, o que te levou a começar a discotecar, comprar discos, etc…
Sim, nunca soltei pipa, joguei bola e não sei andar de bicicleta….meu negócio era música. Minha mãe tinha muitos discos e vivia cantando e dançando em casa. Comecei a ouvir rádio muito cedo, adorava a Rádio Tamoio e Mundial (ambas AM) Curti muito o falecido Big Boy e vi o nascimento do FM no Rio de Janeiro. Em 1968, então com 15 anos, fui trabalhar numa importadora de discos em Copacabana chamada Synphonie. Lá conheci os dois brancos mais negões da minha adolescência: Mario Portas Ragio (que na verdade era um Conde) e Carlinhos (depois King Carol). A convivência com ambos foi enriquecedora. Ali tomei conhecimento do que tinha vindo “antes” na Black Music, passei a ter nas fichas técnicas dos discos importados a informação que hoje conseguimos pela internet . No inicio eu gostava de dançar, cheguei a fazer parte de um grupo denominado “Os dez maiores dançarinos do Brasil” e fomos levados por Ademir Lemos já falecido, ao programa do Silvio Santos (pula essa parte) em São Paulo. Daí a me tornar um DJ foi um pulo.

Eu ficava intrigado com isso. Passei a ter três ou quatro músicas tocando ao mesmo tempo na minha cabeça, numa confusão musical que só tinha sentido pra mim. Confesso que vivi momentos de total desligamento do mundo real, imaginando cortes, viradas de bateria. Faço parte de uma geração de DJs anterior ao surgimento da tecnologia dos equipamentos específicos para profissão. Todos os recursos indispensáveis hoje em dia, simplesmente não haviam sido inventados. Como explicar para um técnico em eletrônica em 1973, que eu queria MISTURAR os sinais de dois toca-discos? Ou pior, como fazê-lo entender que eu queria um sistema de pré escuta (a palavra não tinha sido criada). Quando essa tecnologia surgiu em 77/78 para os mais abastados, eu já conhecia todos os truques necessários para materializar a minha insanidade temporária. Minhas principais referências foram: o falecido Ricardo Lamounier no quesito mixagem. Na época ele, estava na vanguarda técnica. No bom gosto Amândio Dahora, visão de pista Luizinho Disc-Jockey Soul (in memorian) e toda a bagagem musical de Mr. Funk Santos, pai de todos os DJs de Black Music do Rio de Janeiro.

Você foi um dos primeiros DJs a trabalhar com mixagens no Rio de Janeiro, batizou o R&B harmonioso que tocava de “Charme”, comandou programas de rádio lendários como o “Seis e Dance” e “Classics RPC” na extinta RPC FM, é praticamente impossível falar dos grandes bailes cariocas sem citar seu nome. Quais foram os momentos mais emocionantes da sua carreira?
Lembro de ocasiões impactantes; o nascimento do movimento charme no Rio em 1980. Com a “morte” da Soul Music em 77 e da Disco em 79/80, havia um cenário de indefinição musical no horizonte. As equipes de som da Zona Norte do Rio que não se adaptaram as mudanças musicais e estavam como direi? Perdidas!

Foi nesse hiato que comecei a tocar artistas desconhecidos do segmento R&B como Frankie Beverly & Maze, Billy Griffin, Webster Lewis, entre outros. Houve um fenômeno que dificilmente será repetido. Todos os DJ’s que compravam discos importados se recusavam a tocar o chamado “disco-funk”, eles estavam inclinados a tocar o Funk Melody ou Miami Bass e classificavam o que eu tocava como música de viado… Ótimo, passei sem querer, ao topo da cadeia alimentar. Tudo que não servia pra eles, eu adorava! Cheguei a ter dez discos de cada, pois todos me cediam os discos, veja que coisa interessante! O que muita gente não sabe é que, o Funk Melody e o Miami Bass foram os hospedeiros do Funk Carioca, mas isso é outra história…

O que acha da produção atual da black music brasileira e mundial?
O R&B nacional deu um salto de qualidade impressionante. São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul alcançaram a sonoridade gringa sem perder a identidade, houve também o amadurecimento técnico do músico brasileiro e os cantores perderam a vergonha de cantar em português. Acho o cenário promissor, desde que haja uma maior visibilidade dos artistas na mídia. Quanto à atualidade gostei muito da evolução do R&B puro para o Hip Hop no primeiro momento, entre os anos de 2004 e 2006. Depois que lançaram a Thalia & Fat Joe meu queixo caiu. A pasteurização tomou conta, o Hip Hop virou modinha de playboy e a indústria cultural se encarregou de fazer o resto. O excesso de lançamentos inócuos resultou num novo híbrido o Hip Pop. Aqui no Rio chegaram da dizer que: Akon, Black Eyed Peas e Pussycats Dolls eram Hip Hop… Fiquei bege!!!

Dei graças à Deus quando essa onda passou mas, as rádios insistem em tocar… Fazer o quê? Enquanto isso no gueto as mudanças foram mais visíveis, volta-se a valorizar o R&B “classudo” com a levada crua do Hip Hop… Até a zona sul está aderindo. Enquanto isso o universo de ouvintes de rádio offline diminui a cada ibope.

Qual é aquele clássico que nunca vai sair do topo da sua parada? E, qual foi sua última grande descoberta?
Existem músicas que “funcionam” em qualquer época, depende muito do tipo de pista que eu esteja fazendo. Mas, é lógico que sempre tem aquele midi ou aquele flash que direcionam ou em muitos casos “salvam” o seu set. Só pra citar alguns: Shabba Ranks – House Call, Brand New Heavies – Never Stop ou um Guy – I Like.

Quanto a lançamentos, não me atrevo a citar um sequer. Em tempos de internet e downloads à rodo, não dá pra bater no peito e anunciar aos quatro cantos que você “descobriu” este ou aquele som, pelo menos no cenário R&B onde o acesso as pérolas foi democratizado ao extremo.

Quais são seus projetos atuais e planos futuros?
Os atuais e futuros são de continuar trabalhando com música boa, tocando o que gosto, sem ter a necessidade de me prostituir musicalmente. Faço a seleção musical de alguns canais áudio da GloboRádio para Net e Sky e minhas festas nos finais de semana.

Agradecimentos: Taciana Abreu
Fotos: Lucas Bori

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  1. francisco helio de muritiba BA

    francisco helio de muritiba BA disse em 26 de fevereiro de 2010

    DJ corello,,sem comentarios..d+

  2. DARIO

    DARIO disse em 24 de fevereiro de 2010

    BOM DIA ! DJ CORELLO ESTOU PASSANDO POR AQUI PARA LHE DAR OS PARABÉNS , SAIBA QUE ACOMPANHO SUA TRAJETORIA DOS TEMPOS DA FM 105 PASSANDO PELA RADIO RPC FM 100,5 QUE HOJE É FM O DIA , NAQUELE TEMPO EM QUE VC TOCAVA NA RADIO FM 105 EU ANDAVA DE RADIO GRANDÃO NAS PRAIAS DO RIO DE JANEIRO OUVINDO SUAS MUSICAS MIXADAS TODAS QUE EU PODIA GRAVAR EM FITA CASSÉTE PARA OUVIR DEPOIS SEJE EM CASA OU NA RUA COM OS AMIGOS , ADORAVA MNTO QUANDO VC TOCAVA AS MUSICAS LENTAS , MAIS HOJE OS TEMPOS SÃO OUTROS MUINTA COISA MUDOU DE LÁ PARA CÁ , ENTÃO AMIGO CORELLO QUERO QUE SAIBA UMA COISA FOI ATRAVES DE VC QUE HOJE PASSEI A GOSTAR + E + DO RITIMO R&B , HIP HOP ENTRE OUTROS , DETALHE MINHA FILHA QUE HOJE TEM 18 ANOS ADORA ESTE RITIMO E TUDO ATRAVES DO PAI DELA QUE SOU EU E EU ATRAVES DOS TEUS PROGRAMAS DE RADIO QUE VC FASIA NA ÉPOCA , TE FAÇO UMA PERGUNTA QUANDO VC VAI VOLTAR A TOCAR NAS RADIOS FM TÁ FALTANDO , DESEJO SUCESSO A VC MUINTA SAÚDE , PRÓSPERIDADE E MUINTA PAZ PARA VC E TODOS DA SUA FAMILHA , FIQUE NA PAZ…….

  3. Jacqueline dos Prazeres

    Jacqueline dos Prazeres disse em 23 de fevereiro de 2010

    Olha o sono é ingrato mesmo e vou fazer um acerto na minha frase.

    Corello,

    Obrigada por me educar musicalmente e parabéns por essa trajetória belíssima, recheada de sucesso.

    bjs

    Jacqueline dos Prazeres

  4. ailton silva

    ailton silva disse em 23 de fevereiro de 2010

    Cresci ouvindo charme junto com meus irmãos, nos bailes (portelão, disco, vera e bola preta) e nos programas seis e dance, black beat e etc. confesso que a informação musical narrada por vc em várias oportunidades me influenciou a pesquisar artistas do genero e assim enriquecendo o conhecimento sobre o assunto. parabéns pela trajetória e o sucesso estará sempre conosco.
    viva o charme!!!

  5. Jacqueline dos Prazeres

    Jacqueline dos Prazeres disse em 22 de fevereiro de 2010

    Corello,

    Realmente vc é tudo de bom dentro da black music. Parabéns por me educar musicalmente e parabéns por essa trajetória linda e cheia de sucesso.

    bjs e me orgulho de ser “charmeira”.

db38 Corello DJ
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sugestões de sets

tracklist

CD1 – Old Skool
Parte 1
Johnny Bristol – Love No Longer Has a Hold On Me
Cash Flow – I Need Your
Chapter 8 – Understanding
Visions – You’re Gonna Be Mine
Magic Lady – Betcha can Lose With My Love
Parte 2
Temptations – Look What The Starded
Unlimited Touch – Happly Ever After
Brian Loren – Lollipop Love
The O’Jays – Put Your Hands Together
Curtis Hairston – I Want Your Lovin’
Goldie Alexander –Show You My Love

CD2 – News
Parte 1
Pharrell & Snoop Dog – I Miss You
David Hollister – Baby Those Things
T.I – Why You Wanna
Musiq Soulchild – Make You Happy
Troop, Levert & Queen Latifa – For The Love Of money
Donell Jones – Baby It’s You
Parte 2
Antonio – Mend Your Broken Heart
Aaron James – Me & U
Unfiled Tribe – Keep On Keeping
Chico DeBarge – Hey You
Dave Young – Love
Ryan Leslie – Gonna Let This Luv
Jaheim – Ain’t Leavin Without You

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