db38 Corello DJ

db38 Corello DJ

Marco Aurélio Ferreira, aka Corello DJ, foi o primeiro DJ da zona norte carioca a dominar a arte da mixagem e também responsável pelo “charme”, termo criado em 1980 para definir um novo caminho do R&B, que privilegiava a harmonia e o ritmo das músicas. Como radialista, ele também foi responsável pela revolução da “plástica” de programas, com a introdução de vinhetas americanas e locuções diferenciada. Enquanto isso, lotava os bailes do subúrbio com milhares de jovens amantes da boa música. Em parceria com Fernandinho DJ, trouxe ao Brasil consagrados artistas do gênero como Glen Jones, Sybil, Curtis Hairston e Omar Chandler.

Na primeira parte do set gravado para o deepbeep, o DJ apresenta uma seleção de faixas old school e de hip hop da década perdida. Na segunda parte, revela a evolução do R&B atual, com faixas usadas nas suas discotecagens pelas noites cariocas.

Como você definiria este set?
Procurei contar um pouco da história do R&B nos bailes da Zona Norte carioca sem seguir a cronologia do ano em que foram lançadas. Depois de pronto, enquanto fazia o tracklist, me dei conta que o set ficou repleto de hits old school, que ainda fazem parte das chamadas “raridades” da época, vindos de vinis difíceis de encontrar nos EUA e na Inglaterra. A primeira hora tem aquela levada dos anos 80 marcada pelo BPM alto (para os padrões atuais) e seus arranjos ainda baseados em muitos instrumentos como metais, cordas e vocais harmoniosos. A segunda parte é o retrato atual dos bailes de subúrbio, que mostra a evolução do R&B pós hip hop, onde se volta a valorizar a elegância do Urban R&B americano e inglês.

Quais foram suas inspirações e referências pra gravar o set?
Pude fazer o set mais solto, sem as preocupações da visão de pista, necessária a qualquer DJ. O set old school de certa forma foi inspirado num antigo programa de rádio chamado Big Apple Mix, apresentado pelo saudoso Frankie Crocker na WBLS de Nova Iorque até meados dos anos 90. O set atual foi saindo conforme a inspiração do momento da criação. Não parei pra olhar pro lado. São músicas que toco no meu noite a noite, que o meu cérebro já conhece o caminho de ida e volta. São músicas que fazem a pista atual nas festas do subúrbio do Rio de Janeiro.

Como começou a sua história musical? Você é ligado em música desde criança? Fale sobre fatos curiosos, influências, o que te levou a começar a discotecar, comprar discos, etc…
Sim, nunca soltei pipa, joguei bola e não sei andar de bicicleta….meu negócio era música. Minha mãe tinha muitos discos e vivia cantando e dançando em casa. Comecei a ouvir rádio muito cedo, adorava a Rádio Tamoio e Mundial (ambas AM) Curti muito o falecido Big Boy e vi o nascimento do FM no Rio de Janeiro. Em 1968, então com 15 anos, fui trabalhar numa importadora de discos em Copacabana chamada Synphonie. Lá conheci os dois brancos mais negões da minha adolescência: Mario Portas Ragio (que na verdade era um Conde) e Carlinhos (depois King Carol). A convivência com ambos foi enriquecedora. Ali tomei conhecimento do que tinha vindo “antes” na Black Music, passei a ter nas fichas técnicas dos discos importados a informação que hoje conseguimos pela internet . No inicio eu gostava de dançar, cheguei a fazer parte de um grupo denominado “Os dez maiores dançarinos do Brasil” e fomos levados por Ademir Lemos já falecido, ao programa do Silvio Santos (pula essa parte) em São Paulo. Daí a me tornar um DJ foi um pulo.

Eu ficava intrigado com isso. Passei a ter três ou quatro músicas tocando ao mesmo tempo na minha cabeça, numa confusão musical que só tinha sentido pra mim. Confesso que vivi momentos de total desligamento do mundo real, imaginando cortes, viradas de bateria. Faço parte de uma geração de DJs anterior ao surgimento da tecnologia dos equipamentos específicos para profissão. Todos os recursos indispensáveis hoje em dia, simplesmente não haviam sido inventados. Como explicar para um técnico em eletrônica em 1973, que eu queria MISTURAR os sinais de dois toca-discos? Ou pior, como fazê-lo entender que eu queria um sistema de pré escuta (a palavra não tinha sido criada). Quando essa tecnologia surgiu em 77/78 para os mais abastados, eu já conhecia todos os truques necessários para materializar a minha insanidade temporária. Minhas principais referências foram: o falecido Ricardo Lamounier no quesito mixagem. Na época ele, estava na vanguarda técnica. No bom gosto Amândio Dahora, visão de pista Luizinho Disc-Jockey Soul (in memorian) e toda a bagagem musical de Mr. Funk Santos, pai de todos os DJs de Black Music do Rio de Janeiro.

Você foi um dos primeiros DJs a trabalhar com mixagens no Rio de Janeiro, batizou o R&B harmonioso que tocava de “Charme”, comandou programas de rádio lendários como o “Seis e Dance” e “Classics RPC” na extinta RPC FM, é praticamente impossível falar dos grandes bailes cariocas sem citar seu nome. Quais foram os momentos mais emocionantes da sua carreira?
Lembro de ocasiões impactantes; o nascimento do movimento charme no Rio em 1980. Com a “morte” da Soul Music em 77 e da Disco em 79/80, havia um cenário de indefinição musical no horizonte. As equipes de som da Zona Norte do Rio que não se adaptaram as mudanças musicais e estavam como direi? Perdidas!

Foi nesse hiato que comecei a tocar artistas desconhecidos do segmento R&B como Frankie Beverly & Maze, Billy Griffin, Webster Lewis, entre outros. Houve um fenômeno que dificilmente será repetido. Todos os DJ’s que compravam discos importados se recusavam a tocar o chamado “disco-funk”, eles estavam inclinados a tocar o Funk Melody ou Miami Bass e classificavam o que eu tocava como música de viado… Ótimo, passei sem querer, ao topo da cadeia alimentar. Tudo que não servia pra eles, eu adorava! Cheguei a ter dez discos de cada, pois todos me cediam os discos, veja que coisa interessante! O que muita gente não sabe é que, o Funk Melody e o Miami Bass foram os hospedeiros do Funk Carioca, mas isso é outra história…

O que acha da produção atual da black music brasileira e mundial?
O R&B nacional deu um salto de qualidade impressionante. São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul alcançaram a sonoridade gringa sem perder a identidade, houve também o amadurecimento técnico do músico brasileiro e os cantores perderam a vergonha de cantar em português. Acho o cenário promissor, desde que haja uma maior visibilidade dos artistas na mídia. Quanto à atualidade gostei muito da evolução do R&B puro para o Hip Hop no primeiro momento, entre os anos de 2004 e 2006. Depois que lançaram a Thalia & Fat Joe meu queixo caiu. A pasteurização tomou conta, o Hip Hop virou modinha de playboy e a indústria cultural se encarregou de fazer o resto. O excesso de lançamentos inócuos resultou num novo híbrido o Hip Pop. Aqui no Rio chegaram da dizer que: Akon, Black Eyed Peas e Pussycats Dolls eram Hip Hop… Fiquei bege!!!

Dei graças à Deus quando essa onda passou mas, as rádios insistem em tocar… Fazer o quê? Enquanto isso no gueto as mudanças foram mais visíveis, volta-se a valorizar o R&B “classudo” com a levada crua do Hip Hop… Até a zona sul está aderindo. Enquanto isso o universo de ouvintes de rádio offline diminui a cada ibope.

Qual é aquele clássico que nunca vai sair do topo da sua parada? E, qual foi sua última grande descoberta?
Existem músicas que “funcionam” em qualquer época, depende muito do tipo de pista que eu esteja fazendo. Mas, é lógico que sempre tem aquele midi ou aquele flash que direcionam ou em muitos casos “salvam” o seu set. Só pra citar alguns: Shabba Ranks – House Call, Brand New Heavies – Never Stop ou um Guy – I Like.

Quanto a lançamentos, não me atrevo a citar um sequer. Em tempos de internet e downloads à rodo, não dá pra bater no peito e anunciar aos quatro cantos que você “descobriu” este ou aquele som, pelo menos no cenário R&B onde o acesso as pérolas foi democratizado ao extremo.

Quais são seus projetos atuais e planos futuros?
Os atuais e futuros são de continuar trabalhando com música boa, tocando o que gosto, sem ter a necessidade de me prostituir musicalmente. Faço a seleção musical de alguns canais áudio da GloboRádio para Net e Sky e minhas festas nos finais de semana.

Agradecimentos: Taciana Abreu
Fotos: Lucas Bori

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  1. victor hugo r. da hora

    victor hugo r. da hora disse em 28 de janeiro de 2010

    Pô o que comentar desse mito charmeiro,amigo,parceiro,companheiro e um tremendo profissional.
    Só tenho que agradecer à Deus,por tornar esse gênio real em carne e osso para nos dar tanta s alegrias e prazer de curtir esse rítimo gostoso,alegre e contagiante.
    Muito obrigado pelos bons papos e até conselhos nos momentos que juntos, trabalhamos no Pampa Grill,foi realmente o meu maior prazer como profissional que hoje sou.
    Viva o R&B CORELLO DJ,UM ABRAÇÃO DO SEU AMIGO
    DJ.VICTOR HUGO.

  2. Denise M Sant´anna

    Denise M Sant´anna disse em 28 de janeiro de 2010

    Como frequentadora de “baile no subúrbio” em 1981, esta reportagem, me remete ao tempo em que balançava o então corpinho , com charme e elegancia, na época não poderia supor que após 29 anos, poderia ler jornais, revistas, blogs, etc que o Sr. Corello continua, com muito estilo, dando um toque a mais no movimento da black music.

    Quando digo com muito estilo, me refiro ao fato de não precisar levantar nenhuma bandeira sobre a questão racial e sim mostrar que um negro que ama o que faz, e faz muito bem, é reconhecido como o melhor, é reconhecido pelor estilo, pela elegância e principalmente pelo talento.

    Suas fotos revela sua soberania, elegancia e beleza. Parabéns !

    Como fã posso dizer que estou orgulhosa por ter curtido o início de sua carreira.

  3. Pejota.

    Pejota. disse em 28 de janeiro de 2010

    …que aula!

    … e que bom saber que ainda existem DJs que tem a paixão e o verdadeiro compromisso da profissão.

    Será uma honra no dia em que eu dançar em sua pista.. e espero que seja logo!

  4. Marcius Nery

    Marcius Nery disse em 28 de janeiro de 2010

    Sou apaixonado pelo som R&B e Soul norteamericano. Teu set é uma delícia de escutar e faz qualquer ambiente mais alegre e sofisticado. Parabéns pelo trabalho. Abraço. Marcius Nery

  5. Lennox (Glocal)

    Lennox (Glocal) disse em 28 de janeiro de 2010

    Não acreditei qdo vi o set do Corello aqui… sou fan desde muleque, o rei do “baile charme” no rio de janeiro que em sampa a galera chamava de “cool”. Parabens pelos 2 sets