db168 APOENA

26/09/2012

Criado em rico e variado ambiente musical, o gaúcho Henrique Casanova a.k.a. APOENA sentiu-se atraído pelo universo underground e inovador da música eletrônica no final dos anos 90, em Porto Alegre. Apaixonado e fiel ao vinil, O DJ que também é produtor, já lançou trabalhos que repercutiram de forma surpreendentemente positiva no Brasil e no exterior, chegando a figurar no topo de listas da Juno Records, maior loja de música eletrônica do mundo.

Com um repertório musical maduro e consistente, APOENA transita por diversos vertentes musicais nesse set exclusivo, gravado todo em vinil, e ainda fala sobre sua trajetória, suas produções, a paixão pelos discos e a atemporalidade das músicas que realmente valem à pena.

Como você descreveria o mix exclusivo que você gravou pra gente? Qual o clima, as inspirações e o que você procurou reunir aqui?

É um set 100% em vinil, gravado em um take, sem edições. Minha predileção é transitar entre o deep house e o techno. Nessa discotecagem fiz isso de forma mais artística e abrangente do que faço nos clubs. Não parti do house simplesmente, mas dos seus elementos formadores, como o soul e a disco. E o techno surge nos últimos discos, de forma talvez imperceptível para boa parte do público, pois vem num viés “Detroit” mais abstrato, uma das tantas formas que há de techno. São então estéticas tradicionais, trazidas, porém, com material bem novo.

Você foi fisgado pelo universo da música eletônica em meados dos anos 90, em Porto Alegre. Fale um pouco sobre sua trajetória e suas influências.

Sou super ligado em música desde sempre. Gosto de reggae, samba, regionalismos latinos diversos… A música eletrônica, quando me conquistou, foi também em função do movimento cultural que a cercava na minha região quando tive os primeiros contatos. Música eletrônica era um mundo paralelo. Seus clubs eram os mais loucos e o seu público, também. Gente de todo o tipo, mas que compartilhava um gosto pelo diferente. Era uma cultura realmente alternativa e underground, e me senti em casa nesse ambiente. Quanto à música, em pouco tempo me identifiquei com o Hard Techno, nas festas “Fusion”, que o DJ Luciano Araújo mantém viva até hoje por aqui (não sozinho, é claro). Com o passar dos anos fui descobrindo as linhas mais suaves, como o minimal techno, o detroit e o deep house. Minhas influências são os produtores negros de Detroit e Chicago, do início da coisa, e as respostas européias que surgiram, como o hard techno inglês e o dub techno alemão. Hoje em dia os estilos já não pertencem a uma determinada etnia e também se desterritorializaram, o que acho muito bom!

Você é um apaixonado por vinis e se mantém fiel à mídia até hoje. Quais são os prós e contras dessa relação? Qual é o xodó da sua coleção?

Quando comecei só havia o vinil. Os discos eram caros, vinham do outro lado do mundo, de forma bem menos ágil que hoje. É difícil explicar o valor simbólico que o disco tem pra os DJs que curtem vinil. É um objeto muito especial, é uma obra, é um disco! Essa materialidade é parte inerente da coisa para mim. Respeito as outras mídias. Tenho desenvolvido ótimas relações pessoais e profissionais com laptop DJs. Mas falar pra mim sobre mídias digitais é como falar para um tenista sobre ping-pong. É mais simples, mais barato e mais viável, mas o tenista quer jogar tênis! Sobre as dificuldades com o vinil, tem o peso da mochila e o fato da maioria das casas noturnas não terem mais toca-discos. Mas tenho passado por cima disso na marra, do jeito que dá. No meu sentimento, não consigo separar musica eletrônica dos discos. Quanto à coleção, tem muita coisa especial, mas me vem à mente agora o álbum triplo chamado Lounge Excursions, do Glenn Underground, talvez o mais importante artista do deep house. Já tem 12 anos e uso até hoje.

Você também produz sua música, inclusive com lançamentos em vinil. Como anda o ritmo dessas produções e qual o próximo lançamento?

É da minha natureza compor, música e letra, tudo ao mesmo tempo. Tenho músicas próprias em todos os estilos que já me concentrei. Tenho sambas, incontáveis reggae, até uns trash metal eu fazia quando adolescente. Comecei a produzir música eletrônica há muito tempo. Os resultados sempre foram legais musicalmente, mas levei bastante tempo pra buscar o padrão técnico da indústria do vinil. Nunca estudei uma linha sobre áudio, então levou dez anos pra meu primeiro disco surgir, em 2010, pela gravadora inglesa Stuga Musik. A repercussão foi bem massa. Meu produtor preferido, Delano Smith, de Detroit, foi um dos que usou o disco. Esse ano saiu mais um EP e outros 2 tão sendo forjados nesse momento, pela gravadora norte-americana Underground Quality. O ritmo das produções é intenso, não tenho ideia de quantas tracks tenho. O que espero é ir aumentando minha discografia em vinil; esse sempre foi meu sonho. Cada disco que sai traz visibilidade e facilita futuros lançamentos.

Você mistura muito bem o novo e “velho” em seus sets buscando sempre um atemporalidade sonora. O que pra você caracteriza esse som atemporal? Ou, como criar algo que não envelheça em meio a tantas produções descartáveis e ao consumismo desenfreado, inclusive na música?

A atemporalidade é característica de toda boa música. Ouço música jamaicana dos anos 70, música latina e norte-americana dos anos 60. Quando vejo um DJ dizer que uma track de 2 anos atrás é velha, chega a dar pena. É uma visão musical aberrante. Quanto aos segredos da atemporalidade, é difícil dizer, difícil sistematizar uma coisa que na verdade acontece pelo canal das emoções. Tem muito de conhecer timbre e de conhecer ritmo, pegada. Existem, por exemplo, baterias eletrônicas clássicas, usadas em peso no início da música eletrônica e também no rap, que os bons produtores seguem usando, ao mesmo tempo que estão atentos para incorporar novos timbres, quando eles valerem à pena.

Quais os projetos, novidades e planos para os próximos meses?

Quero observar que oportunidades se desenrolam a partir dos EPs que vão sair pela Underground Quality. É uma gravadora com muita personalidade e que tem um público seleto, mas apaixonado, espalhado em vários cantos do mundo. O projeto é discotecar, coisa que adoro fazer, no Brasil e fora dele também, onde houver toca-discos e uma pista querendo dançar coisa boa. Estou também maturando um plano antigo, de ter meu próprio selo. Lentamente colecionando os contatos da indústria do vinil. É uma equação bem complicada. Mas isso vai levar mais do que alguns meses.

Fotos: Felipe Gaieski

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    Flávia Bavaresco disse em 18 de março de 2013

    :)

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    Alessandro Pantera disse em 23 de novembro de 2012

    Mandando muito bem como sempre.

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tracklist

1- Jazzanova ft. Paul Randolph – “Lucky Girl”
2- Flowriders – “Macymiles”
3- Marvin Gaye – “Whats Going On” (Unknown 2012 edit)
4- Delano Smith – “What I Do”
5- Carlos Nilmmns - “Lost Afternoon”
6- Tim Schumacher – “Somaman”
7- Baaz – “Jeally”
8- Bo Saris – “She’s On Fire (Maya Jane Coles remix)”
9- desconhecido – track A2 (NDATL MI-03/03)
10- Ron Trent – “Space Ship”
11- Calisto – “Basic Lytes”
12- The Timewriter – “Velvet Halo”
13- Robert Hood – “Peace (closing theme)”

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