dblive Marquinhos MS

29 de março de 2010

Marquinhos MS foi o responsável pelo sucesso do histórico Madame Satã entre 1984 e 1986. A lendária casa noturna paulistana dos anos 80 foi palco para lançamento de bandas de rock nacional e passaram por sua cabine de som importantes nomes da música atual como Magal, Renato Lopes e Mau Mau. Depois do Satã, Marquinhos passou pelo Rose Bom Bom e fez com que o Malícia fosse o lugar para se estar, às quartas-feiras, em São Paulo.

Considerado, sem exagero, um dos melhores DJs brasileiros, Marquinhos MS era ávido por lançamentos e sua pesquisa musical era impecável. Quando descobriu a house music, criou seus boletins que eram distribuídos em mãos aos amigos, participou de diversos programas de rádio divulgando a dance music e reinou nas picapes do club Zóster (na R. Iguatemi) junto com Danilo “DKA” Andreoli.

Apaixonado por música e novas tendências, Marquinhos MS ainda incentivou a importação de discos e de revistas especializadas. Nos últimos anos trabalhou no Columbia, em casas da zona leste de São Paulo e finalmente no Allure (onde este set foi gravado em uma fita k7).

Este é o nosso tributo ao DJ Marquinhos MS (*1963 +1994).

***

“O MS  foi um grande amigo e fonte de inspiração. Trabalhei com ele durante 4 anos no Malícia, tempo suficiente pra aprender, receber influência e admirar o seu trabalho, sempre inovador e profissional. Tenho um set gravado do final dos anos 80, onde juntos tocamos com 4 toca-discos em um programa de rádio.”
- DJ Mau Mau

“Marquinhos e Magal eram a dupla de DJs que se completavam no Madame Satã. Logo no início em São Paulo, chegada de Porto Alegre, comecei a frequentar o club todos os finais. Eram meados de 1985 e tudo era novidade pra mim, inclusive o termo DJ, que ninguém falava em Porto Alegre. Os frequentadores eram completamente diferentes: desde góticos dark até punks, artistas, anônimos e malucos. Era realmente o lugar mais fantástico que existia na face da terra. Fora que não conhecia ninguém em São Paulo, só o meu irmão, então lá era como se fosse minha segunda casa.

Gostava de dançar na pista dos dois, mas às vezes não me atrevia a dançar na pista do Magal, porque os punks saíam aloprando e eu morria de medo de ficar roxa e levar porrada. Uma vez estava na minha dançando, um tune maravilhoso, mas tão maravilhoso, que não me contentei. Fui “na porta” da cabine, que era um degrau acima e fechada, mas não queria ser deslumbrada e nem incomodar, mas ao mesmo tempo era tudo ou nada. Se eu não perguntasse naquele momento o que ele estava tocando, depois nem poderia explicar e perderia a chance. Esperei ele ficar sem fazer nada, me enchi de coragem, bati na porta e ele abriu. Perguntei “de quem é essa música que você está tocando?”. Ele me convidou pra entrar, pegou a capa do 12″ do The The – Uncertain Smile e me mostrou, dando um breve comentário sobre o grupo. Agradeci e saí dalí, me sentindo a criatura mais feliz do mundo.

Marquinhos tinha sido um doce e atencioso comigo, me deu uma super auto-confiança e sai de lá gostando mais dele ainda como DJ e pessoa. Anos mais tarde, quando comecei a trabalhar na noite de São Paulo, nos cruzamos já na cena house várias vezes, de igual pra igual, apesar de que meu respeito por ele tinha começado naquela ocasião. Pra mim, sem exagero, ele foi um DJ que nunca sambou.”
- Bebete Indarte

O club Madame Satã em seu momento auge na noite paulistana

“Ele tocou Infinity do Guru Josh só pra mim no apartamento da Praça Roosevelt! Desculpem, era o começo dos 90 e eu tinha franja…”
- Marcelona

“Meu amigo-irmão. Primeiro companheiro de baladas, pistas e turntables. Simplesmente o melhor dos melhores!”
- DJ Magal

“Marquinhos, foi quem me fez despertar o interesse em ser DJ. Ele generosamente abriu espaço para observá-lo de perto. Sua técnica e seleção impecáveis; a paixão, ousadia e carisma. Muito do que conheço de música eletrônica deve-se ao que ele mostrava nas pistas do Satã e do Malícia. É alguém que sempre será lembrado com carinho e respeito.”
- DJ Renato Lopes

“Apesar de ter frequentado os últimos anos do Satã, não lembro do Marquinhos de lá. A boa memória que tenho dele é do Malícia, e foi onde eu o conheci pessoalmente. Na época eu morava em Santos, e subia a serra toda semana pra vê-lo tocar junto com o Renato. Alguns anos antes da sua morte, lembro de tardes no seu apartamento no fim da Paulista junto com Edu Gantous (se não me engano) batendo papo e escutando musica. Só tenho boas lembranças, e saudades dele e de vários amigos que se foram.”
- Cacá di Guglielmo

“Tive o prazer de conhecer o Marquinhos no início da década de 80 no Madame Satã, através dele pude entrar em contato com o que havia de mais moderno na época: The Cure, The The, Joy Division, enfim, tudo de bom… Um cara, um DJ como todo DJ deveria ser: a frente de seu tempo… Saudades.”
- Nenê Krawitz

Smooth operator. Well, Marquinhos MS… sou suspeitíssimo pra falar dele. Conheci em 1984. Numa noite de mau humor épico e ele foi chegando, conversando, e me ganhou em dois minutos. Me convidou para ir no Madame Satã, club que começava a chamar atenção mas ainda não era “O” lugar da noite paulistana que iria se tornar cerca três meses depois. Claro que estavam ele e Magal, brothers in “agulha de vitrola” que se revezavam nas picapes da casa colocando o povo pra dançar de uma maneira que até então não se vira por aqui.

(Cabe um parêntese: a figura do DJ praticamente não existia na noite. Havia o responsável pelo som e só. Aliás, “Disc Jockey” era termo usado no rádio para apresentadores que faziam a própria seleção musical de seus programas. Na cena internacional, os profissional encarregado de tocar discos, era conhecido como “discaire”, o discotecário).

Nosso primeiro encontro aconteceu no apartamento do Carlini, na Rua Dona Veridiana – Baixo Higienópolis, de onde saia grande parte das novidades que os DJs de então – o termo começava a pegar – tocavam na noite. José Roberto Carlini (1949-1994) era comissário de bordo da Varig e o som da noite paulistana deve muita coisa a ele, foi a primeira pessoa que vi usar piercing no mamilo e possuir um Walkman, em 1979, o ano em que caí na noite – onde permaneci até 2001, quando o barato ficou louco demais, sintético demais e divertido de menos pro meu gosto.

Com Marquinhos (o MS foi incorporado mais tarde e até hoje eu não sei o porquê) foram dez anos de muita cumplicidade, companheirismo, diversão, descobertas, aprendizados e, sobretudo, som na caixa. Sim, ele não era das dez pessoas mais fáceis da face da Terra – nem eu – então houve bastante faísca, chuvas e trovoadas, mas a gente conseguiu administrar (o caldeirão da bruxa escorpião-peixes). Ainda tenho muitas fitas cassete gravadas pelo Marquinhos (sets que ele tocou ou feitas durante encontros que varavam dias e noites), mas não sei bem por onde andam. Sem dúvida, dentro de alguma caixa preta da minha vida. Era expert em sets hipnóticos com passagens imperceptíveis. Uma música emendava na outra. Sonoridades sobrepostas, trechos dissonantes insinuando-se no meio de batidas conhecidas, cortes abruptos para controlar a velocidade, equilibrar o colorido ou simplesmente to set the perfect mood.

Confesso não tirar de letra, hoje, ouvir o que ouvia com ele – seja o que ele me apresentou ou eu pra ele. Lembro o dia que apareceu em casa com o single de Unfinished Simpathy, do Massive Attack (uau!!!).

Na época do Satã,  Magal e Marquinhos muitas vezes passavam em casa antes de ir pro trabalho e o som da noite começava na minha sala (há testemunhas. Certo, Magal?). Pensando bem, nunca digeri totalmente sua morte – em 1994 – e ainda não é nada simples lembrar dele, falar sobre ele… Enfim, não foi uma coisa à toa. Marquinhos não teve tempo de fazer tudo que era capaz ou realmente mostrar a que veio. Muito do que ele falava nos anos 80 e 90, só veio acontecer nos anos 2000. Estava à frente de nós todos e alguns poucos entenderam.

Meu amigo, meu amor, meu DJ favorito ever. ‘Nuff said!
- Mario Mendes

Agradecimentos: Cacá di Guglielmo, Danilo Kindro Andreoli, Hisato, Mario Mendes, Mau Mau e Max Ruao.
Conversão e masterização:  Hisato.

Referências bibliográficas: Babado Forte – Erika Palomino – Ed. Mandarim
Noite Ilustrada (Folha de São Paulo) por Guto Barra

comente

  1. Mario Mendes

    Mario Mendes disse em 29 de março de 2010

    Faltou falar que os sets do Marquinhos eram muito sexy. Não tinha como não se apaixonar.

  2. Lucia Possas

    Lucia Possas disse em 29 de março de 2010

    Eu também fazia parte do “caldeirão escorpião-peixes” como o Mario Mendes colocou. Se o Mariô tinha um certo “Q” de figura paterna para o Marquinhos, eu era um pouco mãe. Conheci o Marquinhos pouco depois de me mudar pra São Paulo. Uns amigos da universdade me falaram do Madame Satã e da Wop-Bop, já que compartilhávamos do gosto pelo mesmo estilo de música que na época totalmente underground no Brasil, praticamente inexistente. Desde a primeira noite que fui no Satã não parei mais de ir. Pegava um ônibus, ia sozinha, dançava a noite toda até as luzes do club se acenderem e a música parar e voltava pra casa sozinha. Não falava com ninguém. Só dançava. Até que um dia ele veio falar comigo pra saber quem era essa louca que vinha quase todo dia e dançava a noite toda sem parar sem falar com ninguém. O clique foi imediato. Nunca mais nos separamos.

    Ele morou comigo entre 1985 e 1987. Se antes as festas começavam na casa do Mario (Marquinhos morava em São Bernardo antes de vir morar comigo) depois passou a começar na nossa – primeiro no Itaim, depois na Alameda Itú e finalmente na Rua Pamplona. Eu ainda tenho fitas K7 gravadas por ele, mas não muitas.. Eu tive a honra e o privilégio de ter ele live em casa todos os dias; de ver o entusiasmo dele cada vez que chegavam discos novos, que ele descobria um grupo novo… “Meu, é demais!” e a gente dançava alucinadamente na sala de casa… e depois na pista do Satã ou do Malícia, ou do Nation, ou do Zoster…. Cada lugar correspondeu a uma fase, um estilo musical, uma viagem.

    Não sou muito boas com palavras e já não consigo ver o screen do computador porque as lágrimas não deixam, de maneira que vou arrematar. Ele foi sem dúvida meu DJ favorito entre todos que ouvi e lugares que morei, meu melhor amigo, meu irmão mais novo, meu pandinha… Não sei se jamais vou conseguir superar a sua perda. Fica a sua música comigo – hoje e sempre…

    Nunca vou conseguir ouvir Ben Watt’s North Marine Drive sem pensar nele.

  3. ivi

    ivi disse em 29 de março de 2010

    “Tenho um set gravado do final dos anos 80, onde juntos tocamos com 4 toca-discos em um programa de rádio.” Por que o Mau não divulga isso???

  4. ivi

    ivi disse em 29 de março de 2010

    mais uma vez, um excelente trabalho do deepbeep pro mundinho eletrônico! parabéns! vou ouvir marquinhos ms pela primeira vez agora!

  5. L_cio

    L_cio disse em 29 de março de 2010

    como disse Marco Andreol….

    Queria muito ter vivido essa parte da história.(2)

    adorei o texto e o set é incrível messssssssssssmo

    parabéns Deepbeep!!!!

    ;)

dblive Marquinhos MS
ouça na radio

sugestões de sets

tracklist

Desculpe, tracklist não disponível.

acompanhe