DJ há 33 anos, o carioca Márcio Careca conta em entrevista para Lennox da dupla Glocal sobre o início de sua carreira quando trabalhava com as famosas e inesquecíveis equipes de som do Rio de Janeiro.
Desde então, dedica-se à profissão com dedicação e dividiu as pick-ups com grandes nomes da música eletrônica como Gui Boratto, Fat Boy Slim, Peter Hauhofer, Miss Kittin e também com Gustavo Tatá, Renato Ratier, Maurício Lopes e Marcos Morcef em clubs na Europa e por todo o Brasil.
Bem humorado, nos conta sobre as manobras para driblar as situações embaraçosas que sua compulsão por vinil o colocava, fala sobre a noite carioca e nos traz o set gravado na noite Freak Chic do D-Edge.
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Atualmente você é um dos DJs mais antigos do Brasil em atividade. Como você começou a tocar e o que você tocava na época?
Comecei como a maioria dos DJs da minha época, tocando em festinhas de playground, mas o debut foi em uma equipe de som, na qual eu era carregador de caixa, certo dia o DJ e dono da equipe pediu que eu ficasse de olho no equipamento enquanto ele ia ao banheiro, comecei a ficar preocupado porque musica já estava no meio e o cara não voltava, quando olhei pra pista o DJ estava em frente ao palco e acenou mandando que eu colocasse a próxima música, tremi que nem vara verde afinal era a primeira vez que ia colocar uma música para mil pessoas. A mixagem não foi grande coisa, mas daquele dia em diante sempre dava uma palhinha. Na época o que rolava era disco music.
Sei que você é aficcionado por música e que além de pesquisar muito, comprava muitos discos. Como funcionava para comprar seus vinis na época que não existia a facilidade da Internet? Rolavam algumas situações adversas?
Naquele tempo, eu comprava discos de coletânea de radio (quem é da minha época lembra dos discos da Rádio Mundial e também de clubes famosos como Papagaio, New York City (do mestre e ícone Ricardo Lamounier) e uma coletânea entitulada Disco Revelation de um cara que na minha opinião era um top DJ, Claudio Careca. Quando comecei a comprar (discos) importados, comprei muita coisa que não aconteceu, pois você tinha que comprar o lote e no meio vinha muita coisa ruim, mas sempre vinham discos que você ouvia e sabia que rolavam fácil na pista.
Qual foi a importância na sua carreira em ter sido residente da famosíssima e extinta X-Demente no Rio de Janeiro.
Foi um divisor de águas, eu já estava de saco cheio do que estava rolando nos clubes do Rio e comecei a rodar as festas que o publico gay era predominante, quando entrei na X-Demente fiquei impressionado com a resposta da pista às músicas que eles não conheciam, comecei a pesquisar e conhecer selos que até então não tinha conhecimento, gravei vários sets e comecei a distribuir, em pouco tempo um desses cds caiu na mão do Fabio Monteiro (Dono e produtor da X-Demente). Certo dia recebi um telefonema do Marcelo Argento (que era o braço direito do Fábio Monteiro) me convidando para tocar na X-Demente e daí em diante as coisas foram acontecendo naturalmente.
O que te levou a sair da X-Demente?
Quando comecei, você abria a noite com deep-house, soulfull… Depois a coisa ia crescendo e no final você acabava a noite com algo mais fino, tanto que o nosso saudoso amigo, Rick (Mr. Spacely) várias vezes fechou a noite com seus sets de house fino. Com o tempo, a coisa foi ficando mais tribal e eu comecei a achar tudo muito igual. Eu já acompanhava de o trabalho de outros DJs como Gustavo Tatá (um dos maiores DJs do Brasil) e Gustavo MM que tinha uma domingueira forte no 00 me identificava com o som que rolava pois era funk-house e os elementos dessa linha eram todos em cima de funk dos anos 70/80, que eu conheço bem, daí pra mudar foi um pulo.
Você tocou na CSD em Berlin, uma das principais paradas de música eletrônica do mundo. Como foi o desdobramento do seu trabalho pela Europa?
O convite veio por meio de um telefonema. No início da conversa achei que fosse trote, mas depois que entrei no site do evento vi que a coisa era séria. Desse convite surgiu uma residência semestral em uma festa que rolava em Koln (Colônia/Alemanha). Como a festa era intinerante acabei tocando em Amsterdam durante 2 anos e em Paris. Também apareceu um convite para tocar Londres, mas na época eu não tive como ir.
O Rio de Janeiro era muito famoso não só pela beleza natural mas também pela noite carioca, o que houve mudou nos últimos tempos? O que melhorou e o que piorou?
O que melhorou eu não sei, sei o que piorou. Acho o Rio com um potencial incrível, tanto que já tivemos dezenas de casa noturnas nas décadas de 70 e 80. O que aconteceu foi a total falta de profissionalismo da nova geração de donos de casas noturnas, na sua grande maioria construiam clubes querendo retorno financeiro rápido, contratavam os “promoters” com seus mailings, e entregavam a casa na mão deles, esses profissionais da noite chegavam com seus “DJs de cinqüenta Reais” a tira-colo e transformavam a noite em uma festa de quinze anos, onde você ouvia um pouco de dance, hip-hop, música baiana e funk. Só faltava a valsa. Quando esses “promoters” recebiam uma proposta melhor de outro clube eles iam embora e junto ia o mailing, ou seja, o clube ficava vazio, daí pra falência era um pulo. Não sou contra promoters, eles são peças importantes em um clube, mas acho que o certo é criar noites e contratar o promoter que se encaixe na proposta daquela noite, é só olhar pra São Paulo pra entender o que estou dizendo. Certa vez li uma entrevista do Renato Ratier (D-Edge), e ele disse que preferiu apostar em um trabalho de médio à longo prazo do que ter uma noite cheia rapidamente, esse é o pensamento correto pra qualquer negócio, para quem acha que não, é só contar quantos aninhos o D-Edge está completando, isso sem citar clubes como o Vegas, e mais recentemente Hot Hot e Lions.
Você já quase terminou um casamento por conta do seu vício por discos e recentemente foi presenteado pela chegada de Ana Beatriz. Como conciliar a vida de papai e DJ ao mesmo tempo?
Nem me fale, era foda, cansei de comprar disco e deixar na casa do porteiro, no dia seguinte quando minha esposa saia pra trabalhar ele entregava a bolsa, só que ela não era boba. Como sempre estava comigo nos eventos, percebia que eu estava tocando várias musicas novas e aí o pau quebrava, porque, por conta dessa secura por vinil, volta e meia eu atrasava algumas contas. Com o crescimento do digital, fui quebrando esse bloqueio de não querer tocar com cd, hoje uso o Traktor na boa, coisa que veio em boa hora, afinal de contas ia ficar difícil comprar vinil e bancar uma criança. Com relação a minha filha, tive que me ausentar um pouco da noite, afinal minhas prioridades mudaram, mas dá pra conciliar as duas coisas. Tem dias que estou chegando e minha esposa está saindo pra trabalhar, parece aquele filme o Feitiço de Áquila, é mais ou menos, oi e tchau.
Esse set foi gravado no D-Edge, você toca regularmente na noite Freak Chic. Como rolou essa conexão com o Renato Ratier e como tem sido o feedback do público de São Paulo?
Começou com um evento que o Renato fez em um barco aqui no Rio que eu da cuidei produção. Depois ele trouxe o Tony Senghory nesse evento eu toquei na pista dois, ele ouviu e gostou do set, daí rolou um convite pra tocar no D-Edge. Confesso que no dia eu tremia da cabeça aos pés, afinal eu estava na cabine do clube que todo DJ quer tocar e na Freak Chic. Desse dia em diante os convites foram acontecendo com mais frequência, hoje, quando toco me sinto em casa, fiz amizades e tenho um público que sempre está presente. Só tenho a agradecer ao Renato pela oportunidade que me foi dada.
Fotos: Divulgação
Agradecimentos: Lennox
Desculpe, tracklist não disponível.
Beth Ferreira disse em 22 de June de 2010
A onda agora na verdade é a onda que a gente vai fazer. Apesar do quadro ser negro na noite carioca, e é mesmo, tem muito público pra ser atingido e muita casa noturna. 15 anos atrás só tinha uma, a Dr.Smith. Ou o DJ tocava lá ou não tocava em nenhum lugar. Daí tinha as festas “pagas”, que surgiram justamente dessa falta de espaço.
E a culpa não é só das casas noturnas. Quanto alguém quer fazer algo com qualidade e tem competência e recursos pra isso acaba fazendo, como a festa MOO. Iniciativas como a da MOO só acontecem quando a vontade de investir vem do gosto pela coisa, aliás como é o próprio Renato Ratier que sempre adorou música eletrônica e já tinha a D-Edge de Campo Grande, onde ele já trazia, antes de Rio e São Paulo, grandes DJs internacionais. Mas qual grupo de festas hoje, e existem centenas, que pretende investir em eventos com qualidade de música????? Quase ninguém quer isso, a vontade é de ganhar dinheiro em 5 minutos com eventos pop onde nem o pop é de qualidade (pq existe pop de qualidade, só não está nas picapes desse povo…)
No Rio existe muito pouca gente com vontade de investir em casa noturna. O empresário tem de enfrentar tantas dificuldades que dá até pena… Desde as dificuldades de espaço em si, pois no Rio não tem um espaço disponível na zona sul e muito menos vontade da prefeitura de dar alvará, até o medo de receber público de pitiboys que depredam as casas noturnas e levam seus diretores pra delegacia toda hora, com consequências horriveis.
Mas existem várias, o negócio é tentar juntar um bom grupo de promoter/DJ e público segmentado e montar uma proposta. Como sou brasileira, eu ainda acredito…
Anna Abud disse em 22 de June de 2010
Talento inquestionável. História de sucesso. Parabéns, Careca! Orgulho de ter você no time Request!
Soter disse em 22 de June de 2010
Parabéns ao Lennox e ao entrevistado Márcio Careca por essa ótima entrevista. E a luta continua.
P.S.- Careca o set ta animal!
Forte abraço.
Halley Seidel disse em 22 de June de 2010
Uma lenda da cena carioca….
Adorei a entrevista!
Quem é verdade sabe quem é de mentira!
Respect meu Brother…
Tamo junto, mixado e remasterizado!
DRI.K disse em 22 de June de 2010
Muito bom ouvir histórias do tempo em que a noite carioca fazia história na cena nacional. Temos grandes DJs por aqui, mas infelizmente a cena não está lá das melhores… Mixar perfeitamente e ter um repertório impecável (como é o caso do Careca) não é suficiente. A onda agora é o tal do “Sertanejo Universitário”… No coments!
Um salve pro Careca e pro Lenoxx. Quem bom poder ouvir música boa via DeepBeep!