Começar o set com seu maior sucesso é algo para poucos mesmo, menos ainda quando esse trabalho é estimado como “O” maior clássico (quase unânime) do gênero ao qual você devotou toda sua vida.
É uma coisa vermos Muddy Waters começar um show tocando “I Can’t be Satisfied”, John Coltrane abrindo com “Impressions”, Sly Stone com “Family Affair”, Stevie Wonder iniciando com “Superstition”, Michael Jackson com “Don’t Stop Till You Get Enough”, Parliament com “Flashlight” ou até mesmo Grandmaster Flash com “The Message”, mas ver Larry Heard abrindo com “Can You Feel It” é totalmente outra. Um momento com algo de tão esplendoroso e surreal quanto testemunhar o próprio nascimento da House Music no Warehouse ou no Muzic Box de Chicago.
E a citação desses nomes e obras não é fortuita, pois Larry e sua obra-prima se inserem diretamente nessa nobre filiação da música negra norte-americana que, convenhamos, esboçou, planejou e construiu absolutamente tudo de decente que tivemos na música popular do século passado.
Tanto que é um sobremaneira fútil recobrir esses feitos aqui, sendo que há aprofundada entrevista com o próprio em outra coluna do deepbeep (leia aqui).
De qualquer modo, ele também merece todo crédito por ter permanecido, ao lado de poucos que compartilharam da glória dessa mesma época, na vanguarda do estilo musical que o consagrou. E, pelos últimos vinte e muitos anos em que este se consolidou, Larry permaneceu incansável com sua criatividade, forjando parcerias, fornecendo remixes ou mesmo produzindo coisas sublimes para veteranos e novatos.
Ademais, a atualização constante de seu repertório como DJ e a singular habilidade de conjuminar faixas de tempos os mais díspares nesse longo período em que a club culture se solidificou e foi elevada a um modo de vida é um dos pontos mais fortes de sua excelência perene. Indo da Disco, Soul, Funk e formas prototípicas da Dance Music afins, passando por toda a gama de sub-gêneros da House, ele desliza com graça por tudo que há de melhor na sua herança musical, como temos a oportunidade de ouvir nesta sua incrível apresentação na Passport VJ University.
Um senhor comedido e muito educado, sempre sorridente e disposto conversar discretamente sobre sua trajetória ou receber os fartos elogios de que é alvo constante (e merecido), sua postura e trejeitos até destoam da selvageria dançante e hedonismo pulsante que caracterizaram a House Music nos primórdios em que se tornou um dos maiores protagonistas do gênero, até os dias de hoje em que ele é associado a afetação e esbanjamento. Contudo, é na música que ele se expressa de forma majestosa e potente, como um rei que desfila perante seus domínios.
Enfim, se tomarmos ao pé da letra a máxima mais famosa dessa cena: “This is the House that Jack built”, é fácil notar que Larry Heard incontestavelmente fez a planta baixa e mora nela até hoje.
Texto por Raul Cornejo
www.d-edge.com.br
raulcornejo@d-edge.com.br
Fotos por Silvana Garzaro
“Can You Feel It” / Mr. Fingers
“Running Away” / Berreduar Productions
“Never” / Mute
“Electic Love” – Remix / Vikter Duplaix
“Rose Rouge” / St Germain
“Trance Dance” / Night Moves
“Ma Foom Bey” / Cultural Vibe
“Some Lovin” / Liberty City
“Days Like This” / Shaun Escoffery
Não identificada
“We’re Rockin Down The House” / Adonis
“Energy Flash” / Joey Beltram
“Clap Me” / Jack Frost
“151″ / Armando
“Glob” (Ben Klock Rx 1) / Kenny Larkin
“No Way Back” / Adonis
“Percolator” / Cajmere
“How I Feel” / Lil’ Louis
“Rej” / Ame’
“Factory” / Sumo
“Acid Crash” / Tyree Cooper
Não Identificada
“Born To Freak” / Steve Poindexter
“Conniption” / Cajmere
“Beau Mot Plage” (Lh Edit) / Isolee
“House Nation” / House Master Boyz
“The Sun Can’t Compare” / Larry Heard Pres Mr. White
“Plastic Dreams” / Jaydee – B/W “Planet Rock” / Afrika Bambaataa & Ssf
“Strings Of Life” / Rhythim Is Rhythim
“I’m A Big Freak” / Phreek
“I Feel Love” / Donna Summer
“When You Touch Me” / Taana Gardner
“In The Bush” / Musique
“Dance Disco Heat” / Sylvester
“Brother’s Gonna Work It Out” (Jmj Edit) / Willie Hutch
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