dblive Andy Blake

5 de março de 2010

Andy Blake faz questão de se manter “low profile” e é a cabeça por trás do selo Dissident, que lança EPs com pegada disco em séries limitadas e sempre em vinil. Não adianta procurar na internet: não existe site, o selo não tem perfil no Myspace, não tem divulgação organizada e os lançamentos não estão em lojas virtuais. Mas isso não deve ser confundido com militância: para Andy, toda essa história de listas, melhores DJs e faixas mais tocadas não quer dizer nada. O que importa é o poder do boca-a-boca que a boa música é capaz de provocar.

E o boca-a-boca, neste caso, tem funcionado muito bem. Blake roda o mundo tocando em festas underground, e tem seus lançamentos limitados escondidos em cases nos 5 continentes – inclusive no de Renato Cohen. “A idéia é me divertir e ver o que acontece quando um selo que nasce com a proposta de ser pequeno briga com as grandes marcas e corporações. Nós estamos à disposição de qualquer um que quiser nos ouvir, basta nos procurar. Só não temos a pretensão e nem a intenção de vender milhões e correr atrás do público massificado”, diz.

Existe uma nova cena noturna em Londres, vibrante, com vários espaços underground. Fale um pouco sobre essas festas onde você tem tocado recentemente.
Ultimamente tenho tocado mais na Europa do que em Londres especificamente, e tenho sorte de poder tocar em festas bem legais e com um perfil musical variado. Acabo de voltar da Escandinávia onde toquei numa noite techno e house no Villa, em Oslo, com meu amigo Oyvind Morken, um DJ norueguês brilhante que dirige o selo Luna Flicks. A festa bombou e a pista ferveu até o final. Na noite seguinte toquei um long set de quatro horas numa noite chamada Rimini, num DJ bar famoso chamado Tranam, em Estocolmo.

No momento minhas festas favoritas em Londres são a minha própria noite, a World Unknown, onde tocamos new beat, dark euro, synth wave e pós punk, além de uma noite semanal, chamada Calígula. Toquei lá algumas semanas atrás e foi muito divertido, com uma vibe brilhante de festa. Toquei todo tipo de coisa, do house ao techno, do disco às faixas afro, além de euro synth pop, e o público é ótimo, uma mistura de gente da noite, modelos, travestis, club kids e o lendário “homem pelado de Londres” – ele não fica completamente pelado na verdade, já que ele fica de sapatos…

Porque você resolveu fundar o selo Dissident?
Pela mais simples das razões: meus amigos estavam fazendo ótimas músicas e eu queria lançá-las.

Porque você nunca lançou faixas em formato digital pelo selo Dissident?
Na verdade eu não gosto de MP3. Acho que o som fica frio e sem qualidade quando tocado em sistemas grandes de som. E acho que os downloads são nocivos de várias formas para a cultura da música em geral. Sei que as coisas mudaram muito recentemente, mas o download digital acabou com uma coisa muito legal que era o hábito das pessoas de irem às lojas de discos para procurar música nova, prática que tem um efeito tão positivo e evolutivo de tantas formas diferentes. Talvez o pêndulo balance novamente para o outro lado, fico com os dedos cruzados para que isso aconteça.

Tinha um estilo musical específico que você queria trabalhar no Dissident?
Não havia. Tenho um gosto musical bastante abrangente e aberto, então qualquer tipo de música pode ser o próximo lançamento. No entanto o selo parece que desenvolveu um som, um tipo de vibe de certa forma pesada e ao mesmo tempo ambiente de eletrônica análoga, com momentos ocasionais mais leves. É engraçado que as pessoas vêm o Dissident como um selo disco, quando na verdade é mais uma coisa freestyle techno. Era estranho ver as pessoas nas lojas descrevendo faixas pesadas de techno como um tipo de disco em mutação, quando na verdade não tinha nada a ver com disco.

Você produz música ou toca instrumentos?
Sim, eu produzo minha própria música com amigos. Tenho um estúdio análogo onde crio música sem computadores, usando sequenciadores para controlar tudo. Não toco instrumentos no sentido tradicional, eu programo sequências e ritmos em meus vários sintetizadores e baterias eletrônicas, e trabalho na mesa num estilo live techno/dub. Eu gosto do ar de caos potencial e de improvisação espontânea que surge desso modo de trabalhar.

Seu selo é conhecido (e respeitado) por DJs brasileiros e nós estamos do outro lado do Atlântico. Como você acha que conseguiu isso, já que você não se preocupou muito com práticas tradicionais de marketing?
Sempre achei que nossa música ia achar seu caminho até as pessoas que quisessem ouví-la e estavam dispostas a fazer um mínimo de esforço para achá-la. É legal ver as coisas acontecerem dessa maneira.

Você tem alguma idéia da nossa vida noturna aqui no Brasil?
O que eu sei é que as pessoas que conheço do Brasil, e meus amigos DJs que já tocaram em clubes brasileiros, todos dizem que os clubbers são bastante abertos em relação à música e se divertem muito nas festas e isso parece absolutamente perfeito pra mim.

Entrevista: Bitsmag
Fotos: Divulgação
Agradecimentos: Beth Ferreira e Renato Cohen

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  1. David Markan

    David Markan disse em 6 de julho de 2010

    Minha cabeça explodiu.

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