Kangding (X-)Ray

Kangding Ray ao vivo no Japão – Foto: Kenichi Hagihara

David Letellier é a elasticidade artística por trás do nome Kangding Ray, performance introvertida de batida grave, ilustrada por analisadores gráficos. Ele é parte do coletivo Raster-Noton, também a casa de Frank Bretschneider, Byetone e Alva Noto. O lado musical de David tem a estrutura mais “tangível” do grupo, no sentido de juntar à pegada laboratorial, característica de todos eles, uma textura emotiva fácil de digerir.

Ele já lançou três álbuns memoráveis. Sua paleta inclui geralmente bass music, guitarrices e muita intrepidez na gravação de material, nada tão especial se não fosse sua habilidade de compactar essas referências em narrativas harmônicas. O primeiro conto, “Stabil”, é terreno minimal de melodia certeira, uma releitura meditativa da redução eletrônica em 2006. “Automne Fold” foi o ato de vocais existenciais talhados em melodia mais solta, a linha Kangding Ray mais pop até então. O último álbum, “Or”, usou de bassline ameaçadora e rasgações sintéticas para globalizar o efeito, é como se deslocasse a neurose subjetiva de Automne Fold para a esfera pública, temos assim a sensação apocalíptica dos nossos dias na forma de long play.

Tanto Raster-Noton quanto David operam de forma interdisciplinar, o selo abraça cada vez mais a fusão da arte com a ciência, enquanto o artista se ocupa de instalações quinéticas e do live Kangding Ray para explorar as possibilidades interativas do som, ponto onde convergem todas as suas expressões.

Na entrevista, ele fala sobre todas essas manifestações, das crises no estúdio, da satisfação no palco, das recentes experiências tridimensionais Versus e Tessel. Ele descreve três períodos diferentes da sua carreira – um para cada álbum lançado – e ainda dá sua opinião sobre propriedade intelectual e o futuro das nossas extensões virtuais.

Já teve alguma crença que acabou desaparecendo com o tempo?
Eu pensava em me tornar um homem resolvido e sério, com um carro, uma casa e um trabalho comum. Hoje não tenho nenhuma dessas coisas, e a previsão é que continue assim. Mas estou satisfeito, acho um privilégio fazer aquilo que gosto.

Que tipo de situação mais te inspira?
Tenho muitas ideias quando viajo, mais no contexto privado do que cultural. Acho o continente asiático uma grande fonte de inspiração: India, China e Japão, por exemplo.

Como você controla o limite entre fase experimental e escolha definitiva? Está satisfeito com o seu poder de decisão?
Não muito, sou devagar na hora de tomar decisões. Acho que o problema está nas ferramentas poderosas que temos para criar, você sempre pode voltar no tempo para mudar e regravar, isso reduz nosso poder de definição. Em outros tempos, quando a gravação de música era linear, éramos forçados a decidir. Hoje me pego dizendo “mudo isso depois”.

Isso quer dizer que você precisa forçar a conclusão de uma ideia?
Às vezes sinto que o processo é muito longo, nesse caso sim, apresso a conclusão de uma ideia, também porque quanto mais você experimenta, mais você se afasta da ideia original.

Apnée – Part II

A Protest Song

Você costuma ter blackouts criativos?
Sim. No entanto, tento evitá-los intercalando períodos de performance com meses de produção. O que ameniza os blackouts são as mudanças que acontecem nos períodos em que não produzo.

Quanto tempo esse período leva e o que ele pode mudar?
Geralmente de 4 a 6 meses. Tento mudar muita coisa, por exemplo, agora estou reconfigurando meu estúdio completamente, não só para torná-lo melhor, mas pra deixar novos pensamentos circularem. Sempre me sinto vazio depois de lançar um álbum, as outras influências artísticas, bem como a apresentação ao vivo, me reconstroem criativamente.

Como você descreveria o seu quadro emocional para cada um desses períodos, de produção e de performance?
Produzir pra mim é sempre muito autístico e intenso, custa muita energia e às vezes eu me perco; de repente não estou mais certo do que quero e me sinto mal por alguns dias. O live é a recompensa de todo o trabalho que tive antes, é testar diretamente tudo o que eu fiz no estúdio, é quando me completo.

Qual a sua relação com os gráficos do live Kangding Ray?
Eu tenho uma relação estranha com a parte visual, já que não a controlo ativamente, trata-se de um analisador gráfico controlado por midi. A minha intenção não é uma instalação propriamente audiovisual, é em primeira linha, um concerto… a imagem deve servir de tema, de ambiente, é importante que ela permaneça coadjuvante. É por isso que ela é concebida da maneira mais abstrata possível.

Você pode descrever três períodos distintos da sua carreira, um para cada álbum?
O primeiro álbum foi longo, recebi uma proposta do Raster-Noton em 2003 para lançar um álbum e só finalizei em 2006. Escutei muita coisa nesse período, fui bastante influenciado por eletrônica minimal e ambiente, foi uma época intensa já que precisei pré-estabelecer um estilo. O resultado, “Stabil”, foi puro, leve, melódico e filigrano.

Dadaist

Sub.Res

Automne Fold foi um salto para um nível mais dark e instigante, mais a ver com pista de dança. Nesse período saí mais noite e fui influenciado por áreas mais obscuras como dub e techno. Fez sentido porque eu reuni influências do passado – industrial, noise, rock – e incorporei isso no meu trabalho. Devo dizer que nos anos 90 eu escutava NIN e My Bloody Valentine, não tinha ideia do que acontecia na música eletrônica.

The Distance

Époque

Or é um álbum que chegou mais perto do ideal de música que eu tenho desde o começo: faixas para a esfera clube que remetem à um conceito, que podem ser apreciadas também fora dessa esfera O conceito particular de Or é apocalíptico, a ideia era passar a sensação de fim do mundo regente nos dias atuais.

Qual a ideia principal por trás das instalações Versus e Tessel?
São máquinas que se movimentam de acordo com a frequência do som ambiente. Adoro a ideia de produzir e configurar máquinas autônomas, sempre me surpreendo com o resultado, às vezes é assustador pelo fato de você não saber qual será a resposta mecânica ao som ambiente, também porque Versus é maior que você, por exemplo. A plástica não é muito proposital, o foco está na ligação entre som, espaço e movimento. Versus, por exemplo, começou no papel de um jeito bem abstrato, fui explorando a forma de hexágonos dobrados e recortados até me decidir pelo aspecto.

Qual o seu foco artístico atual?
No momento tenho propostas para realizações na mesma direção, devo dizer que são atividades que eu tento separar do Kangding Ray. A sequência ainda tem plástica livre, a única certeza é que som e movimento serão combinados novamente.

Como você encara liberdade cultural? Te incomoda a ideia de outros artistas usarem seus trabalhos sem que os seus direitos intelectuais sejam pagos?
Eu acho que faz parte do jogo. Antigamente eu tinha um certo problema com isso, mas percebi que quanto mais você ganha reconhecimento, mais você deve aceitar essa liberdade. Tem centenas de vídeos que usam minha música sem permissão, qualquer um dos meus álbuns pode ser baixado gratuitamente. Não me importo mais, acredito que o artista deve estar aberto a outras formas de sobrevivência, é aí que o live se torna importante, já que o momento não pode ser baixado da internet.

Você tem alguma espécie de premonição em relação ao desenvolvimento da nossa era?
Todo mundo tem uma ideia vaga das consequências dos mecanismos atuais, coisas que podem se tornar extremas amanhã. Mas uma coisa eu penso ser certa, não podemos parar a digitalização do nosso dia-a-dia, temos que optimizar a maneira com que nos adaptamos a ela, ao mesmo tempo acho normal uma certa resistência ao mundo virtual, se você só ouve mp3 e fala mais com os amigos pela rede é natural que isso te canse, de modo que o evento real ganha mais importância, pois vem compensar a convivência estéril.

Se colocassemos um analisador gráfico de pensamentos na sua cabeça enquanto voce produz música, o que sairia na tela de projeção?
Formas polidas, por vezes texturizadas, com toda a variação possível de cor. Tudo definitivamente abstrato.

avatarEscrito por Marcos B. Oliveira em 1 de March de 2012

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