Manuel Göttsching e seus live-acts espaciais: tesouro incomensurável
“Na Alemanha, estabelece-se a diferença entre música séria e a de entretenimento, portanto, duas categorias. Não sei por que, mas a ideia de se separar o ‘entretenimento’ sonoro do sério veio provavelmente da associação de artistas alemães (GEMA)”, diz o mestre Manuel Göttsching, ícone de relevância seminal da era Krautrock e da música de vanguarda na abertura da nossa conversa.
Legítimo representante da música cósmica, Göttsching merece todos os créditos como profundamente influente compositor, produtor e guitarrista a partir dos anos setenta. Visionário, trouxe ao mundo as obras primas ‘E2-E4′, ‘Inventions For The Electric Guitar’, ‘New Age of Earth’, entre outras sob a alcunha de Ash Ra Tempel e Ashra, consideradas referência até hoje.
Focado na idéia de arte feita com identidade e inovação, Manuel sempre nutriu uma paixão especial pelas formas experimentais de música, porém, traduzidas em algo passível de ser apreciado pelo público. Enquanto figura dominante do Ash Ra Tempel, teve chance de desenvolver suas habilidades na guitarra e na composição ao lado do baterista Klaus Schulze (ex-Tangerine Dream) e do baixista Hartmut Enke.
Fundado em agosto de 1970, Ash Ra Tempel recebeu no final do mesmo ano o convite de parceria de Conrad Schnitzler para seu projeto Eruption. Conrad, que fizera parte de Tangerine Dream e fora um dos mentores de Thomas Fehlmann, faleceu pouco tempo atrás, em agosto de 2011. Com Eruption, os músicos do Ash Ra Temple realizaram duas apresentações.
A obra de Göttsching, reflexo de sua perspectiva, estilo e técnica, causou impacto em incontáveis artistas a partir da década de oitenta. Os diferentes gêneros musicais – de House ao Balearic, Ambient, New Age e Techno o tiveram como exemplo, principalmente graças a’ incomparável ‘E2-E4’, nomeada devido à clássica jogada de abertura do Xadrez. “Sentei em meu estúdio, tomei um drink, em seguida liguei o gravador e pus-me a tocar. Cinquenta e oito minutos e quinze segundos depois, a obra estava pronta. Ela se tornou ‘E2-E4′, recorda Manuel Göttsching com ar de felicidade. Curiosamente, o fato ocorreu dia 12 de dezembro de 1981, há exatos trinta anos.
Lançada apenas três anos após (1984), tornou-se um sucesso inesperadamente avassalador nas pistas de dança de importantes clubes de Nova Iorque. Se não bastasse o fato de ter conquistado a atemporalidade, ‘E2-E4′ foi sampleada anos após em outros standards da cena de dance music (ver maiores informações a respeito da obra-prima no final desta entrevista).
Capa e matéria principal da edição da revista The Wire do fim de 2011, Manuel Göttsching nos recebeu radiante ao lado de sua esposa no restaurante italiano Due Immigranti, em Schöneberg, Berlim. A conversa, cuja altura estava parelha à qualidade do jantar, você confere abaixo:
Já que fez questão de mencionar, não podemos evitar a pergunta: como um compositor de ‘Música Cósmica’, você se considera mais próximo da música séria ou da de entretenimento?
Ótima questão! Todo compositor abrange ambos universos… (pausa). Você tem nomes como Schoenberg com a sua música de doze tons, por exemplo. Foi algo muito intelectual, matemático e interessante conceitualmente, porém, nada que realmente gostasse de ouvir. Na minha opinião, Steve Reich, Terry Riley e Philip Glass tinham uma abordagem diferenciada, porque eram intelectuais e ao mesmo tempo autores cujas obras podia-se ouvir. Eu vinha de uma realidade mais alternativa, porém, profundamente influenciado pelo universo popular do Blues, então, comecei a tocar guitarra elétrica de forma ao mesmo tempo minimalista e experimental.
Fale-nos um pouco mais de suas influências no Minimal.
A orquestra de Steve Reich trazia a estética dos instrumentos clássicos tocados em perspectiva minimalista sem um equipamento eletrônico sequer, o que me fascinava. A música até soava algo eletrônico, mas não era! Baseava-se em loopings e sons repetitivos, embora tocados ao vivo e de forma acústica, sem as técnicas contemporâneas.
Que incrível! De que forma você incorporou essa estética minimal em sua música?
Comecei a utilizar equipamentos eletrônicos e incorporei ecos e delays nas gravações de tape a partir do fim dos anos sessenta. Havia muitas possibilidades, como por exemplo criar loops de tape, e você podia obter efeitos como ecos, muito embora a qualidade não fosse das melhores. Outra técnica disponível estava na gravação de uma fita comum, deixa-se correr e alimenta-se o sinal do playback na gravação novamente, mudando a velocidade da própria fita, o que resultava em um delay (hiato de tempo) diferente. Não havia equipamento digital na época para tais efeitos, então era desta forma que se obtinha.
O uso destes efeitos era visto de forma diferente na época, não?
Na segunda metade dos anos sessenta, o uso dos pedais wah wah e do phasing era bem comum em todo tipo de guitarra elétrica. Pense em todos os experimentos que o Jimmy Hendrix fez. Eu, por exemplo, preferia não usar os ecos como um tipo de efeito, e sim como uma parte importante da composição. Se, ao tocar uma melodia você insere ecos, você obtém uma melodia nova, então, aquilo se torna parte da composição. É como se deixasse estes ecos darem outra melodia àquela que você tocou.
Manuel Göttsching e sua esposa nos deram as boas vindas em um restaurante de Berlim: sorriso estampado no rosto
Interessante o fato de você ter mencionado o Blues como influência musical.
Da perspectiva da música popular, sempre gostei de Blues e procurei incorporar seus elementos em minhas obras. Amo a música afro-americana e a forma como eles tocam guitarra, assim como os ritmos e o Jazz latinos. Boa parte das idéias que incluí vieram da perspectiva e da escala de Blues, então, tratava-se de improvisação, da idéia de se tocar em estilo livre, princípios que me inspiraram no início da minha trajetória com o Ash Ra Tempel e o projeto Eruption. É algo que você não consegue estudar a respeito no sentido clássico, você precisa treinar, precisa de experiência. Gosto muito da forma como alguns dos artistas que vieram do Blues desenvolveram sua música, buscando gêneros e interpretações diferentes.
Como o Ash Ra Tempel nasceu?
A história do Ash Ra Tempel se traduz basicamente na minha com a do meu grande amigo de estudos, o baixista Hartmut Enke. Com ele, compartilhei experiências em bandas experimentais a partir de 1967. Trabalhamos em um estúdio em Berlim denominado pelos músicos Beat-Studio, embora não tivesse nome. Era um lugar bem famoso onde todas as bandas tocavam, dirigido por um compositor suíço bem famoso chamado Thomas Kessler, que passaria a se tornar o nosso professor de vanguarda. Foi ali que, enquanto iniciávamos, conhecemos nomes da música experimental de bandas como a Agitation Free, bem conhecida na época, além da já consagrada Tangerine Dream. O artista Klaus Schulze, que tinha feito parte do Tangerine já era conhecido nosso; quando deixou a banda, fundamos o Ash Ra Tempel, no verão de 1970.
Qual o significado do nome Ash Ra Tempel?
Um nome engraçado com termos de três línguas diferentes! Todos procuravam por nomes estranhos e diferentes na época para suas bandas. Decidimos usar o termo Ash (cinza) do inglês, Ra do deus-sol egípcio, e a palavra Tempel (templo) da língua alemã. Ash representa o corpo, Ra o espírito e Temple o local onde os dois se reúnem.
Como a música de vocês era considerada?
A música que acabávamos compondo tinha elementos de Blues, Soul e algumas vezes ingredientes mais pesados do Rock, condensados em um profundo senso de improvisação e experimentação que não sei como denominar. Tocávamos instrumentos tradicionais como bateria, baixo e guitarras com efeitos técnicos dos próprios e dos microfones, além do uso de delays e ecos. Resumindo, usávamos instrumentos tradicionais com os quais buscávamos sonoridades diferentes.
Fale-nos de seus equipamentos favoritos.
No início, usei equipamentos Moog e o mini sintetizador Synthi-A do qual gostava bastante, além de ARPs e os Oberheim. Posteriormente, passei a me apresentar em carreira solo com cada vez mais equipamentos eletrônicos e sequenciadores. Usei o modelo grande da ARP, o EMS, os Moogs, baterias eletrônicas e órgãos. Foi a era dos antigos sintetizadores análogos, realidade bem diferente de hoje. Depois, estes equipamentos foram lançados em menor tamanho com o sistema MIDI e outros concorrentes surgiram, como os do Japão (Roland).
Entre as marcas de sintetizador citadas por Manuel Göttsching está a Moog, que tinha o modelo antigo de grande sistema modular (acima). Todavia, a marca se consolidou apenas nos anos setenta com o advento do Minimoog (abaixo). “Antes disso, poucos tinham acesso aos equipamentos eletrônicos, era algo muito especial “, lembra Manuel. Os sintetizadores Minimoog fizeram grande sucesso em outros gêneros musicais como o Jazz, assim como o piano Fender Rhodes. “Eram instrumentos muito bons! O Moog tinha um som bem limpo, rico, de baixos bem gordos, e podia simular tudo quanto é tipo de instrumento”.
De Moogs a Minimoogs: miniaturização deixou o universo dos equipamentos eletrônicos ao alcance de todos
Produzido pela EMS (Electronic Music Studios), o Synthi-A foi lançado com três osciladores e um patch system com características similares ‘as do modelo EMS VCS3. “Na Inglaterra, a empresa EMS também contava com grandes sistemas modulares, muito embora fossem usados apenas em universidades e estúdios devido ao seu alto custo. Eram muito caros e estavam fora do alcance até que lançaram um pequeno instrumento com osciladores, o Synthi-A , que me agradou bastante”, lembra Manuel.
“A ARP Instruments Inc. também dispunha de grandes equipamentos (a exemplo do ARP 2500 acima), e mais tarde, passaram a produzir modelos menores. Tornaram-se muito famosos com o advento do modelo ARP Odyssey e do seqüenciador 1601 (1601 Sequencer). Estes equipamentos tinham algumas características especiais que você não encontrava nos seus concorrentes, a exemplo das funções i.e. sample, hold e random.” Os ARP 2600 Odyssey (abaixo) despontaram tempos após como modelo semi-modular de sintetizador de áudio subtrativo e análogo (analog subtractive audio synthesizer). Tinham um grupo básico de componentes de sintetizador pré-MIDI, mais fácil de se operar. Era perfeito para iniciantes, estudantes de universidades e para uso em estúdio.
A ARP 2600 Odyssey: série portátil e acessível
Em 2008, Göttsching apresentou em Pequim sua trilha sonora para ‘O Castelo Mal-Assombrado’, de Murnau (1921)
Dos primeiros ensaios da era Ash Ra Tempel a’ antológica ‘E2-E4′, Manuel Göttsching celebra mais de quarenta anos de arte. Aqui, você confere alguns dos seus mais preciosos momentos:
Ash Ra Tempel – Ash Ra Tempel – Ohr (1971) – Com Manuel Göttsching na guitarra, Klaus Schulze na bateria e Hartmut Enke no baixo, o primeiro álbum da banda foi produzido por James McRiff com o engenheiro de áudio Conny Plank. Sua atmosfera fora do usual é das capazes de trazer o ouvinte a uma viagem espacial de Rock experimental com direito a elementos psicodélicos e caóticos. Manuel fez questão de lembrar a importância que teve Conny Plank como engenheiro e dono do estúdio no qual Ash Ra Tempel fez suas primeiras gravações e ensaios: “Conny era um engenheiro extremamente mente aberta e fundamentalmente influente na cena alternativa alemã. Com Ash Ra Tempel, tentamos gravar em vários estúdios e tivemos problemas para achar um engenheiro realmente bom no início, até que encontramos aquele pequeno estúdio do Conny em Hamburgo. Ele entendeu o que era a nossa música imediatamente, do que se tratava; fez sugestões relativas ‘as sonoridades, inclusive. Compreendeu o que os outros engenheiros não eram capazes de entender, já que a indústria musical da época era bastante chata e conservadora na Alemanha. Ele era o cara, era diferente.”
Para ouvir:
Dono de várias gravadoras, autor de diversos livros e importante crítico de música, Rolf-Ulrich Kaiser foi personagem-chave na cena de Krautrock alemã. Fundou o label OHR (‘Ouvido’) em 1970 para tipos de Rock e Música Eletrônica experimentais, através do qual Ash Ra Tempel lançou seus dois primeiros álbuns. Obcecado pela sonoridade e pelo conceito de Cosmos, Rolf-Ulrich Kaiser fundou também Kosmische Kuriere , gravadora cuja tradução do alemão significa ‘Mensageiros Cósmicos’, título não por acaso usado no singular anos após pelo artista de Detroit Techno Stacey Pullen (Kosmic Messenger). Foi por esta gravadora que o terceiro álbum da banda,’Seven Up’, saiu. “Em 1972, teve início a história da gravadora Mensageiros Cósmicos com a produção do nosso álbum ‘Seven Up’ ao lado de Timothy Leary. Era o novo selo de Rolf-Ulrich Kaiser. Inspirado pelas gravações de Seven Up, Kaiser convidou todos os seus artistas na sequência (1973) para aderir ao experimento de tocar e gravar durante horas e dias em seu estúdio, uma espécie de evento sem fim. Posteriormente, ele mixou e lançou aquelas gravações, hoje conhecidas como a série Cosmic Jokers (‘Coringas Cósmicos’). Naquela época, ninguém entendeu qual era o significado por trás disso. Rolf Urlich Kaiser enlouqueceu, e ninguém quis mais suas ‘produções cósmicas’, e tampouco houve cobertura da mídia impressa a respeito. Então, todos deixaram sua empresa em meados de 1975. Rolf era visionário, alguém muito importante, porém jamais aceitou o fato de tudo ter terminado e que os tempos haviam mudado. Um personagem incompreendido ao qual a cena de Krautrock deve muito!”, relembrou Manuel.
Foi no LP ‘Seven Up‘ (Kosmische Kuriere, 1973), que Manuel Göttsching atuou em parceria com Dr. Timothy Leary, famoso por suas experiências com LSD. A obra foi inspirada nas pesquisas de Leary durante o fim dos anos sessenta entituladas ‘As Sete Línguas de Deus’ (‘Seven Tongues Of God’), uma teoria do autor na esfera da psicologia a respeito do ‘Modelo dos Circuitos da Consciência’ (Circuit Model Of Consciousness) segundo o qual a mente humana e o sistema nervoso consistem em circuitos que, quando ativados, levam a pessoa aos ‘Sete Níveis de Consciência’ (teoria reformulada tempos após como ‘Oito Circuitos da Consciência’). “Tínhamos acabado de lançar o nosso segundo LP, Schwingungen sem Schulze que deixou a banda após o primeiro LP, e pensávamos a respeito de uma terceira obra. Inspirados pelas ‘Sete Línguas de Deus’ do Leary, Hartmut deu a idéia de encontrar o autor e lançar o próximo projeto em parceria com ele. Seria um álbum conceitual a respeito do seu Modelo dos Circtuitos da Consciência, com letras do próprio Dr. Timothy Leary.” O resultado foi uma peça experimental em duas partes, denominadas ‘Space’ (Espaço) e ‘Time’ (Tempo). A Diretora de Cinema e esposa de Manuel, ilona Ziok decidiu gravar um filme sobre os bastidores de ‘Seven Up’ cujo tema consistiu em retratar como os tempos e os sonhos mudaram.
Para ouvir:
Inventions For Electric Guitar – Kosmische Musik (1975) foi o primeiro álbum da carreira solo de Manuel através do qual fundiu a estética minimal na perspectiva de Krautrock. “Procurei preservar a atmosfera do live sem tirar nada. Por exemplo, neste LP, toquei guitarra elétrica por vinte minutos com ecos e delays, porém sem cortes ou edições. Toquei no decorrer de toda a obra. Foi interessante, porque a guitarra elétrica era um instrumento muito popular durante os sessenta e setenta em virtude de nomes como Jimi Hendrix e Eric Clapton, e toquei o instrumento de forma que jamais tinha ouvida antes. Não era Rock ou Pop, e sim uma composição mais natureza experimental e minimal através do uso de guitarra elétrica. Algo que, segundo o meu feeling, jamais tinha sido feito até então. Antes, a guitarra elétrica era usada para fins rítmicos no Pop e no Rock, e não como as velhas guitarras clássicas, como procurei usar neste LP. Toquei como um instrumento erudito, sério”, confessou Manuel.
Para ouvir:
New Age Of Earth (1976) - O segundo álbum solo de Manuel Göttsching, profundamente inserido no universo da música eletrônica, trouxe profunda atmosfera espacial e novos tipos de composições – desta vez, não apenas para guitarra elétrica, mas para teclados. O resultado foi não menos do que uma obra-prima de proporções estratosféricas. “Gravei tudo ao vivo, sem seqüenciar ou mexer em nada. Usei órgãos elétricos e um pequeno teclado da marca Farfisa (Itália). Essa empresa era muito popular na época! Pink Floyd também usou os teclados deles em seus LPs”, relembrou Manuel.
Para ouvir:
Die Dominas – Die Dominas – Fabrikneu (1981) - Gravado em 1980, Die Dominas teve a participação de duas amigas de Manuel Göttsching – Rosi Müller (a mesma que gravou com Ash Ra Tempel o LP ‘Starring Rosi’) e Claudia Skoda (cujos eventos de moda de sua curadoria tinham trilhas sonoras compostas pelo próprio Göttsching). Um belo dia, as duas amigas viajaram a Düsseldorf e ganharam do duo do Kraftwerk Ralf Hütter e Karl Bartos um papel com dois acordes escritos por eles – o sub-domina e o domina seven. De volta a Berlin, perguntaram ao amigo a respeito destes acordes dominantes. Enquanto tocava os acorde e os explicava, elas começaram a ensaiar em cima dos temas, o que terminou em uma sessão de gravação feita por Manuel. O resultado final impressionou os dois artistas do Kraftwerk de tal forma que eles pediram para fazer a arte da capa deste disco. Cerca de uma década após, a obra se tornou muito apreciada do outro lado do Atlântico e na Europa, além de ganhar homenagem de Maurizio (projeto do Moritz Von Oswald com Mark Ernestus) em ‘Domina’, também remixada por Carl Craig.
Para ouvir:
‘E2-E4’ (1981) – Batizada como a clássica jogada de abertura do xadrez, “E2-E4”é um convite a viagem a’ excelência sonora. Gravada em 12 de dezembro de 1981, a obra acaba de completar trinta anos. Quando lançada, surpreendentemente infestou as pistas de dança dos lendários clubes Paradise Garage, império do DJ Larry Levan, e o rival e midiático Studio 54. Segundo Manuel, Levan chegou a tocar a obra inteira no club-estacionamento da Big Apple: “Ele queria a obra tocada em seu funeral”, declarou. As linha de sublimes pianos sintéticos e efeitos metálicos foi sampleada no hit do período baleárico “Sueño Latino” (1989), que ganhou diferentes versões, incluindo um majestoso remix de Derrick May de 1992.
“E2-E4 representa a jogada de abertura de Xadrez, e foi um título muito significativo, já que a obra foi a minha primeira em carreira solo lançada com meu próprio nome. Conectei todos os sintetizadores e sequenciadores – para linhas de baixo, solo e voz com bateria eletrônica, fazendo uso de efeitos. Utilizei um sintetizador análogo grande, o EKO da Itália, máquina feita a mão que foi lançada em apenas quatro exemplares no mundo, e um segundo equipamento da Pearl. A voz solo foi feita com o sintetizador da ARP.
Para ouvir: Ensaio de ‘E2-E4′ para o evento de 25 anos da obra-prima no Berghain (Berlim)
“Sentei em meu estúdio, tomei um drink, liguei o tape e pus-me a tocar. Depois de 58 minutos e 15 segundos, estava pronta. A obra se tornou E2-E4.” (Manuel Göttsching)
No início, ninguém entendeu muito do que se tratava, era um pouco cedo para esse tipo de música!”, diz Manuel, rindo. “Tinha uma hora de duração, uma natureza bastante minimalista e atmosfera flutuante com pequenas variações. Muitos DJs queriam tocar outras obras em cima dela, e sua popularidade só aconteceu alguns anos depois.” Depois, ao relembrar o seu indefectível elo com a cultura club, confessou: “Jamais pretendi me tornar um tipo de ‘rei da dance music’. E2-E4 se tornou favorita de Larry Levan no Paradise Garage, e da mesma forma no Club 54 em Nova Iorque, onde sempre se ouvia em seu encerramento. Posteriormente, DJs de Chicago e Detroit também passaram a tocá-la em suas apresentações internacionais.
O projeto Sueño Latino sampleou-a em seu lançamento homônimo, e no final, deram sua licença para publicação em várias coletâneas sem os devidos créditos”, confessou o autor da obra original. “Eu diria que a E2-E4 trouxe uma espécie de atmosfera Latina e Mediterrânea para a cena, adotada pelo Sueño Latino. Talvez tenha a ver com o meu estilo ‘latino’ de tocar guitarra” (risos). “Na verdade, apenas toco e gosto da idéia de soar como algo que realmente goste!”
Para ouvir:
Sites: http://manuel-goettsching.com | http://ashratempel.com |http://www.ashra.com
Distribuidora: http://www.mig-music.de/
Loja (infos): order@ashra.com
Youtube: http://www.youtube.com/user/MS805
* (A foto portrait acima e a do live act na abertura da entrevista são cortesia MG ART).
cresceu com uma vasta bagagem musical que abrange música clássica, experimental, Jazz, Soul, Funk, Disco, Hip Hop, charming R&B, Kraut Rock e Música Eletrônica. Em sua vida profissional, trabalhou em veículos de comunicação na årea de música incluindo websites e revistas, entre os quais a Revista Beatz, cujo Conselho Editorial integrou em 2004. A partir de 2005, atuou em diferentes agências de artist management, onde teve a oportunidade de ter contato com artistas do porte de Kenny Larkin (EUA), Mark Archer (Altern8/ING), DJ Pierre (EUA), Vince Watson (ESC), Legowelt (HOL), Marcel Dettmann (ALE), Satoshi Tomiie (JPN/NYC), Gramophonedzie (Servia), Orgue Electronique (HOL), Alden Tyrell (HOL), entre outros em suas tours no Brasil.
Viviane Faustini disse em 27 de dezembro de 2011
Parabéns pela excelente matéria, Alain! Artista excepcional, entrevista com conteúdo riquíssimo e acompanhada de um som fantástico… Perfeito!