DJ POGO (DMC / EN4CERS, ING) – Filosofia dos Breaks

Ainda me lembro do momento em que decidi criar o Electronic Standards, projeto sobre artistas considerados influentes para os universos da música eletrônica e dos breakbeats, em meados de 2003. Colaborava em alguns sites de música, frequentava o fórum de experts e crate diggers do discogs.com e escrevia matérias para a Revista Beatz, antes de me tornar um dos membros do Conselho Editorial no ano seguinte. Quando idealizei o projeto, tive a visão de uma perspectiva artística diferente, sem fronteiras e que pudesse abranger as diversas conexões que existem na música, seja através do legado das composições, samples, colaborações, ensinamentos ou de quaisquer outro tipo que estes personagens possam ter engendrado nas gerações futuras de produtores, músicos, DJs e ouvintes. Neste pot-pourri musical, obviamente que o legado cultural do Hip Hop tem o seu lugar garantido.

Quem acompanhou a música dançante a partir da popularização dos samplers na segunda metade da década de oitenta sabe muito bem que, apesar de também ter sido originado por uma combinação de trechos de diferentes clássicos da música, de Soul a Funk, Disco, Rock, R&B, Jazz, entre outros, o Hip Hop (e mais precisamente o RAP) influenciou muito mais a música eletrônica dançante do fim dos anos oitenta em diante do que o contrário. Então, havia diversos motivos para que o Hip Hop fizesse parte do projeto:

1) Porque foi profundamente influente para a música eletrônica dançante, desde Hip House ao Techno, Hardcore, Jungle, Drum & Bass, etc. nos últimos vinte e poucos anos;
2) Pelo fato de ter igualmente sido fruto de influências musicais semelhantes (em grande parte) às da música eletrônica;
3) Porque quando se fala em história de DJs e cultura de clubs, é impossível deixar de considerar de tudo o que fizeram os pioneiros do Hip Hop como Grandmaster Flash, Grand Wizard Theodore, Kool Herc, Afrika Bambaataa, Hollywood, entre outros titãs que protagonizaram a era das batalhas de Breaks a partir do período de transição entre o Funk, a Disco e o nascimento do RAP;
4) Por causa de todos os fundamentos, nomenclaturas, manobras, invenções e desenvolvimentos profissionais que estes pioneiros dos Breaks trouxeram e trazem até hoje para a categoria: scratches, caixas de efeitos, cuts, mestres de cerimônia, back 2 backs, beat jugglings, tudo isso tem mais idade e abrangência do que imaginamos.
Portanto, os artistas do universo do Hip Hop estarão sempre presentes no Electronic Standards, e com louvor. Devemos ser gratos, afinal, credita-se a eles muito do que se tem hoje.

Para inaugurar o hall de entrevistados, ninguém melhor do que o DJ Pogo, diretor do DMC na América Latina, ex-campeão do DMC inglês de 1997 (de 1999 por equipes) e autor das coletâneas Block Party Breaks e DJ Pogo Presents The Breaks. Mas não só por estes fatores, e sim pelo conjunto da sua obra: por ter sido fundamental no desenvolvimento e na consolidação da cena inglesa de Hip Hop e de Breakbeats, por ter inspirado incontáveis DJs e ouvintes na cena mundial ao longo dos seus mais de vinte cinco anos de apresentações, e pela sua visão sensacional de música, exemplo para todos nós. Por tudo isso e mais um pouco. Poderia me delongar por horas afim de ressaltar todos os motivos, porém, deixo o desfrute desta descoberta para vocês, na entrevista abaixo.

O seu conhecimento de música é admirável. O que o trouxe para este universo?
O que me trouxe para a música foi o fator hereditário: minha mãe adorava Reggae, Calypso, e parte da música ocidental. Meu pai gostava de Dub e Reggae, então, sempre tocavam música em casa para os filhos – eu e minha irmãs. O meu pai tinha uma bela coleção de discos de sete polegadas, me lembro de brincar com eles e deixar meu pai louco (risos). Muitas festas da minha família aconteciam em casa quando era criança, meu tio era o DJ, com direito a dois toca-discos e tudo mais. Achávamos tudo aquilo incrível.

Parte da sua família tem origens em outros países, certo? Como isso se traduziu no seu ecletismo musical?
Nasci e cresci em Londres, vivi a maior parte da minha vida lá, mas tenho descendência de franceses e caribenhos. O que acontece é que sempre se ouvia rádio em casa, e não apenas Reggae e Dub; os gêneros estavam presentes sete dias por semana – tínhamos um grande contato com o pop daquele tempo, assim como o Rock, entre outros. Crescemos ouvindo Kraftwerk, Rod Stewart, Prince, David Bowie, Elton John… Ouvíamos muito todas aquelas músicas dos setenta ao início dos anos oitenta. De vários gêneros musicais.

O papel das rádios também era diferente, não é mesmo?
Naquele tempo, não apenas as rádios piratas, qualquer estação tocava música pelo simples fato de ser boa e potencialmente popular. As pessoas queriam ouvir isso. Depois, o dinheiro passou a pesar mais, porém, antes era diferente. Por exemplo, tinha um cara chamado Greg Edwards com um programa chamado ‘Best Disco In Town’ (Melhor Disco da Cidade) que acontecia todas as sextas. Ele tocava as melhores faixas de Disco, e as mais atuais dos Estados Unidos naquele momento. Em 1979, a grande faixa dos EUA era ‘Rapper’s Delight’ do Sugar Hill Gang, e ela foi a minha (assim como de tantas outras pessoas) introdução ao RAP.

“Música não tem cor. É para todos! Se você faz parte da indústria musical, então está em um universo profissional alegre, porque o objetivo é fazer as pessoas felizes e esquecerem seus problemas. Se quiser entrar neste mundo por qualquer outro motivo, está errado, porque é esse o propósito.”

Por que você acha que a direção artística das rádios era mais exigente musicalmente naquele tempo?
Muitos dos dirigentes das rádios eram personagens da indústria musical, e não apenas homens de negócio. Diversos deles estavam familiarizados com o que era novidade, e no caso da Inglaterra, eram catalisadores de novas tendências. Eram aficionados por isso, levavam essa cultura adiante. Os ingleses traziam o que havia de novo em matéria de Punk, New Wave, RAP, Acid House, Hip House… tudo o que havia de novo e interessante! Havia até o caso de uma rádio que operava do alto mar durante os setenta e oitenta, e portanto não estava sujeita a’ legislação britânica. As freqüências vinham de fora do país, acontecia de um navio, não havia como desativar ou censurar!

Aquelas pessoas conseguiam ter retorno?
Não se tratava de ter retorno, aquelas pessoas faziam pela música, mesmo porque, aquele barco tinha as suas atividades principais, como transporte de produtos. Da mesma forma, tínhamos muitas outras rádios piratas na época, aproximadamente umas cinqüenta, e todas com repertórios musicais diferentes!

Lembro-me de uma entrevista com Colin Dale na qual disse que havia um fascínio cultural dos ingleses pela música afro-americana, e que eram extremamente partidários da mente aberta…
Se era bom, nós ouvíamos! Simples assim. Música não tem cor. É para todos! Se você faz parte da indústria musical, então está em um universo profissional alegre, porque o objetivo é fazer as pessoas felizes e esquecerem seus problemas. Se quiser entrar neste mundo por qualquer outro motivo, está errado, porque é esse o propósito.
Campeão do DMC Inglês no mesmo ano, DJ Pogo mostra habilidade e sabedoria musicais na final do campeonato mundial (1997)

De que forma isso se traduz nos lançamentos?
Os artistas devem criar suas obras para trazer algo novo, algo que não estava aí antes. Nós, ingleses, sempre fomos muito curiosos artisticamente. Queríamos ouvir coisas novas, diferentes. Lembre-se que até a música erudita também foi popular em sua época. A música com ênfase no grave igualmente, já foi de grande apelo popular. E o Jazz também…

Se tornou o símbolo de uma música popular norte-americana no decorrer do Século XX, certo? De que forma isso aconteceu?
Sim, até as estrelas da dança fizeram parte. Engraçado é que muitos dos instrumentos, como o saxofone, não foram classificados como Jazz durante um bom tempo. (Originalmente, alguns dos metais fizeram parte de paradas e cerimoniais de bandas militares). Na realidade, a música tem este poder de romper barreiras de forma que as pessoas nem imaginam.

De que forma você testemunhou essas mudanças de perspectiva no seu trabalho?
Como DJ, cheguei a ir me apresentar em eventos cujo sistema de som não tinha cabos para ligar os toca-discos a’ mesa de mixagens. Aconteceu até o momento em que os engenheiros de som passaram a se importar e trazer os devidos cabos e entradas. Pode não ser significativo para muitas pessoas, mas para nós DJs, foi fundamental, tudo isso passou a fazer parte dos riders em qualquer evento onde fôssemos nos apresentar. Diversos profissionais tiveram que se esforçar bastante para que estas mudanças acontecessem, para que fosse possível ser ouvido…

Em qual momento você passou a encarar a sua atividade de DJ como profissão?
Começou em 1984, acredite se quiser, em um clube chamado Eighty Five (85). Já tocava há cerca de dois anos com amigos, mas profissionalmente, foi esta a primeira vez. Tinha cerca de doze anos quando passei a me interessar de verdade, comprei dois toca-discos baratos e um mixer nem tanto.

Com repertórios ecléticos, imagino…
Disco, Soul, alguns RAPs, e muitas faixas instrumentais, inclusive de Electro, faixas eletronicamente produzidas, entre as quais fusões de New Wave e Funk. ‘Planet Rock’, por exemplo, toquei bastante. Era Electro-Funk, bem eletrônico.

Como por exemplo a série Street Sounds Electro que tornou o gênero conhecido na Inglaterra, pressuponho.
É verdade. Por mais estranho que possa parecer, sequer sabia que existia o termo Electro associado a outras cenas e sonoridades até o final da década de noventa. Certa vez, fui chamado para tocar Electro em uma festa na Suécia. Então, trouxe coisas como ‘Electric Kingdom’ (Twilight 22), ‘E.T. Boogie’ (Extra T’s), ‘Clear’ (Cybotron), entre outros clássicos de Electro. Comecei a tocá-los e as pessoas presentes me olhavam como se estivesse louco. Me perguntavam “O que está tocando?” Disse: “Isso é Electro!”, e me responderam “Não, não é!” (risos). Mas no final, assimilaram bem. Quando o DJ seguinte entrou no som, me perguntei que diabos era aquilo! Basicamente, as gerações seguintes fazem uma mutação na música e transformam em algo seu, sabe?

Como no caso do RAP?
Exato. A comunidade do Hip Hop absorveu diferentes formas de arte e estilos musicais os manipulou de tal forma que criaram a sua própria cultura. Foi o que fizemos, basicamente. Da mesma forma fizeram outras gerações ao absorver a cultura do Hip Hop e manipulá-la e transformá-la em outros gêneros, alguns dos quais eletrônicos. Veja os casos da cena de Drum & Bass, Dubstep, Trip Hop ou até mesmo a atual pop de R&B. Todas absorveram elementos do que os artistas de RAP tinham feito…  Só me desagrada os que, apesar de terem feito algo diferente, continuam a se denominar artistas de RAP. Costumam inclusive chamar de Hip Hop, o que é errado. Hip Hop é a cultura, e o RAP é a música associada a ela.

“Nunca tive como conceito a execução de rotinas, muito pelo contrário, sempre fui adepto do estilo livre.”

Me lembro de uma vez você ter contado a respeito da transição do RAP e das Street Jams  para algo novo, e especificamente de um evento onde um DJ teve a coragem de misturar Reggae e Breakbeats.
Isso aconteceu no DMC de 1990, se não me engano. Foi no Hippodrome em Londres, e um dos DJs, o Ron, mixou uma faixa antiga de Reggae – se não me engano ‘Bam Bam’ da Sister Nancy com outra de Electro, com batidas eletrônicas e quebradas. Algo como ‘Gonna Be Tough’ do MC Shy D.

E como conseguiu ajustar os tempos? Reggae tem BPM (Batidas Por Minuto) bem mais lento.
Ele tocou o Electro no dobro da velocidade – por exemplo, a da Sister Nancy em 60 BPM e o do MC Shy D em 120 BPM. Se tocá-las desta forma, as caixas baterão juntas… DJ Ron é um dos grandes DJs de Jungle e Drum & Bass historicamente. Ele sempre mixava obras diferentes, canções em cima de faixas de RAP, foi inclusive o DJ do Rebel MC (dos clássicos ‘Just Keep Rockin‘, ‘Street Tuff‘ e ‘The Wickedest Sound‘). Foi membro do grupo The Beat Freak, do norte de Londres, e nesta época o conheci. Talvez ele até mixasse assim antes, mas foi em 1990 que vi este tipo de mixagens em apresentações em público.

Por falar em DMC, como começou a sua história com eles?
É uma história engraçada! Conheci um cara chamado Sefton Terminator de Manchester que se apresentava com uma Beat Box (bateria eletrônica) e era amigo do Chad Jackson (Campeão Mundial do DMC em 1987). Eu o conheci naquele mesmo ano, em 87. Ele me visitou, e ao me ver tocar, disse: “Cara, você é ainda melhor que o Chad!” Perguntei “Quem diabos é Chad Jackson?” (risos) Sefton contou que era o campeão de mixagens da Inglaterra. Fiquei surpreso! Afinal, fazia parte de inúmeras festas, batalhas de rua e confrontos de DJs, e jamais vira o Chad Jackson em qualquer uma delas. Tinha muita gente fera em termos de scratches e mixagens, e garanto que o Chad não estaria nem entre os dez melhores.

Primeiro título importante: Campeonato do Reino Unido do DMC (1997)

Olha que ele ficará muito triste se ouvir isso! (risos)
Eu só estou te falando a realidade. Ele como DJ sabe disso. Tinha muito cara bom, melhor até do que eu! Cosmic Jam, Cutmaster Swift, gente de diferentes equipes, como os Deckmasters, DJ Undercover, DJ Supreme, Morph do lado oeste de Londres que criou toda a cena de Trip Hop, além do Grimm Death A.K.A. Dept Charge, um personagem incrível que se apresentava vestido de Drácula do norte de Londres… Muitos grandes DJs, portanto. O DJ Ron, que acabei de citar, era um monstro! Um grande talento dos scratches. E tinha inclusive um que se tornou grande nome do Drum & Bass, o DJ Hype! Na época, era conhecido como Doctor K. Muitos destes DJs eram melhores que o campeão Chad Jackson! Não estou dizendo isso por qualquer tipo de ressentimento, é um fato! Chad vivia em uma realidade completamente diferente, não há nem como comparar. No início, o pessoal do DMC só sabia quem eram os DJs que se apresentavam nas suas competições, não tinha tanto conhecimento do que se passava na cena underground. Não leve a mal, o Chad e eu somos muito bons amigos, mas estamos falando de história, e eram mundos completamente distintos.

E aí, seu amigo o convidou…
Naquele ano de 1987, meu amigo Sefton Terminator pediu que fosse ao DMC. Perguntei: “Quem diabos é o DMC?” Ele respondeu: “Os caras que fazem os campeonatos de mixagem!” Retruquei “Que campeonatos de mixagens?” (risos). Não tínhamos idéia do que fosse…

E quando decidiu se envolver?
Logo após descobrir a respeito em 1987, conheci Tony e a Christine Prince, além de Susan e outros dirigentes do DMC. Fui à casa deles, e tinha um par de toca-discos no fundo, um grande mixer e muitos discos. Cheguei e comecei a… (Pogo faz sinal de scratches, gestos de turntablism e de multiplas viradas). E a reação deles foi de estupefação. “Quem é esse cara? De onde ele vem?”, disseram. Chad Jackson também ficou impressionado. E acredite se quiser, fiz manobras básicas, nada de mais. Nunca tive como conceito a execução de rotinas, muito pelo contrário, sempre fui adepto do estilo livre. “Você tem que fazer parte da competição!” – disseram. “Qual competição?”, disse eu. Me explicaram e comecei a treinar com afinco. Naquela época, eram várias fases, a semifinal e a final do DMC Inglês. Tínhamos que apresentar três sets diferentes de sete minutos cada. Cada set tinha que ter um repertório forte, manobras de cutting, scratching… a ideia era ser criativo!

O que você tocou naquelas competições?
Diferentes estilos, tenho as fitas gravadas até hoje. Achava tudo aquilo muito fácil. Chamei todos os DJs das equipe, como o Cutmaster Swift e cia limitada, e contei a eles a respeito da competição, disse que havia eliminatórias por toda a Inglaterra.

Você já era bastante respeitado naquele tempo, não?
Tinha muitos seguidores porque me apresentava em vários eventos de rua, duelos, Street Jams…

“Quando você trabalha em uma empresa, tem que respeitar hierarquia e regras e é solteiro, é uma coisa, mas se tem família, há momentos em que simplesmente não se pode voltar atrás: o primeiro andar do seu filho, o primeiro dente, a primeira fala… o relógio humano que não pode ser substituído.”

Foi ali que nasceu a crew En4cers?
Na verdade, os En4cers eram uma família, porque cresci com Cutmaster Swift e o Billy Biznizz. Sempre tocamos juntos, desde o início. Swift era de outra crew, o conheci quando ainda tinha treze anos! Treinei muito com ele, saíamos direto. Já o Biznizz começou a tocar em oitenta e seis. Um belo dia, fomos comprar os seus toca-discos, o pusemos sob nossa guarda, e ele triunfou em seu caminho até o nível em que se encontra hoje, mas sempre fizemos coisas juntos, os três, enquanto família. O nome En4cers foi criado bem mais tarde, no fim dos noventa, em homenagem a nossa capacidade de nos reinventar. Não é apenas um grupo, e sim um conceito: Reforçar a sua opinião perante os outros, a sua forma de pensar, o seu estilo de tocar… Para nós, tudo significava nós três pensando como um só: se perdemos, perdemos todos, e se ganhamos, ganhamos todos. Tínhamos outros membros na família -XL era do País de Gales, tinha um cara de Bristol também. Porém, no final, permanecemos nós três, porque crescemos juntos e pensávamos de modo semelhante, não se tratava apenas de ser tecnicamente superior. É bem verdade que grande parte das vezes, eu era o porta-voz do En4cers, mas quase sempre minhas ideias eram endossadas pelos dois amigos. Pensávamos quase sempre igual! Era aquela era a forma de sermos ouvidos.

DMC, Black Tutu, Boom Bap: alguns dos inúmeras apresentações de Pogo ao redor do Planeta

Há tempos atrás, entrevistei Roy Ayers e ele citou uma fala do Fela Kuti na qual dizia que “o alimento que você come é político, a água que bebe é política, etc.” Concorda?
Hmmm, sim e não! Por exemplo, sempre me perguntam qual foi a minha maior conquista profissional? E surpreendentemente, digo sempre que considero que o maior triunfo da minha carreira de DJ foi ter tido três filhos e um neto através da música. Poderia falar do campeonato inglês do DMC de 1997 que ganhei ou de equipes em 1999. Foram ótimos, mas para mim, o que importa foi ter tido a oportunidade de trazer três seres humanos ao mundo e ajudado a trazer um neto, e ao mesmo tempo, ter tocado a vida de milhares de pessoas em diferentes países durante estas duas décadas e meia. Isso sim é uma grande conquista! Isso tudo foi fruto de ter vivido a vida da forma que vivi, coisa boas e ruins. Os seus atos ruins te ajudam no seu julgamento pessoal e na aquisição da sua consciência.

Você poderia nos contar um pouco a respeito das coisas ruins que fez?
Cara, quando era jovem, me envolvi em muitas, muitas brigas! Me envolvi em confusão com muita gente ruim, e quando penso nas coisas que fizeram, tenho a impressão de que todos nós poderíamos ter parado na prisão, então deixemos assim. Eu realmente não era um cara muito legal. Logo, quando chegam e me falam que era um idiota, eu concordo e peço desculpas, digo que sinto muito se causei problemas ou ofendi a pessoa, porque realmente sei que fui um idiota. Mas você aprende com isso, faz de você uma pessoa melhor. Fiz muita coisa ruim, sempre procurava confusão, usava armas…

A lendária série Octopus Breaks reinou do fim dos 70 ao início dos 80 e tinha como autor o Bootleg Lenny (ou Break Beat Lenny), do Bronx. Considerada mãe da mundialmente famosa e transformadora série Ultimate Breaks & Beats, trazia os originais dos solos de bateria e arranjos tão tocados nas Street Jams e batalhas de Breaks

E quando sentiu que as coisas mudariam?
Em meados de 1989, quando minha primeira filha estava a caminho. Era hora de mudar! Os filhos fizeram parte da minha vida desde bem jovem. Respeito quem vive por si só, porém, nunca foi essa a minha realidade. Desde cedo, sabia que, o que quer que fizesse, afetaria a vida dos meus filhos. Por exemplo, se fosse contratado para um show e este não acontecesse, poderia faltar dinheiro para por comida em casa. Ao mesmo tempo, não posso ficar longe de casa por muito tempo… São muitas regras, afinal, a vida de outros depende de você. Quando você trabalha em uma empresa, tem que respeitar hierarquia e regras e é solteiro, é uma coisa, mas se tem família, há momentos em que simplesmente não se pode voltar atrás: o primeiro andar do seu filho, o primeiro dente, a primeira fala… o relógio humano que não pode ser substituído. Coisas simples, pelas quais você sacrifica tudo para ter. As vezes, as pessoas abusam do seu trabalho e simplesmente não percebem isso.

Como foi sua primeira vitória no DMC, a de 1997?
Durante todo aquele tempo que antecedeu o ano da vitória, estive envolvido em inúmeros projetos. Produzi para a Monie Love, rapper e prima do produtor de Techno Dave Angel, para o MC Mell’O', fiz diversos remixes para artistas entre os quais De La Soul, Bomb The Bass, KRS-One, Carleen Anderson, etc, e compilei inúmeras coletâneas piratas de Breakbeats para uma empresa chamada School Beat Records. Pusemos muitos loops de batidas famosas ali.

Ao coincidir com a era da popularização dos samplers, a aparição da série Ultimate Breaks And Beats (1986) mudou para sempre a indústria musical, principalmente as cenas de Breakbeats e de música eletrônica

Algo como a série Ultimate Breaks & Beats?
Parecido, porém, não botávamos as faixas inteiras, apenas os solos de batidas. Algo como três minutos de cada um dos solos instrumentais… Foi uma das primeiras séries de ferramentas para os DJs. O Q-Bert sampleou um dos Breaks de um dos discos da minha série School Beat Records seu primeiro álbum de Battle Breaks – Se não me engano, em seu ‘Toasted Marshmellow Breaks’. Fiz muitas coletâneas de Breaks! Tinha uma outra chamada Beatmania…

Que ano foi isso?
No final de 1989 até o meio dos noventa, fui responsável por muitas destas coletâneas, e fui contratado para resgatar e editar trechos (samples) históricos para diversas empresas. Tive a minha própria gravadora ‘Go For The Juggler Records’, meu grupo PLZ com o qual produzia também.

Bastante coisa, realmente…
Sim! Trabalhei ao lado de produtores como o Sparky, e fiz scratchings no álbum Modern Day Jazz Stories (1995) para Courtney Pine, um saxofonista de Jazz que era muito adepto da obra 36 Chambers do Wu-Tang. O álbum incluiu scratching, trechos de vocais, linha de sax, era diferente de tudo que tinha sido feito antes. Misturava elementos da cultura do Hip Hop, Samples e Jazz. O álbum foi lançado em 1995 e chegou à 1ª colocação no Billboard Jazz Magazine, e acabamos realizando uma Tour na America, assim como nos apresentamos em muitos festivais na Europa, como o North Sea Jazz Festival, etc. Fizemos Europa, Canada, EUA… Enquanto DJ, estava muito à frente e, ao mesmo tempo, tinha que me preocupar com tudo porque nenhum rider de banda estava acostumado com estes equipamentos de DJs naquela época. Nada estava sincronizado, tinha que ser muito rápido. Eu realmente estava muito ocupado durante todos aqueles anos!

E como apareceu a chance do DMC?
Uma das tours tinha sido cancelada em um período em que o DMC se aproximava. Aproveitei para treinar bastante. Tinha feito uma reflexão e chegara a conclusão de que ainda não tinha ganhado um título oficial. Então, botei a cabeça no lugar e me dediquei. Sabia que não tinha nada a perder, e que de qualquer forma, voltaria as tours em alguns meses. E foi desta forma que venci! Finalmente, podia correr atrás dos meus outros objetivos. Montei uma residência num Jazz Café chamado The Lyrical Lounge onde muitos artistas se apresentaram comigo, a exemplo de T-Y, Roy Ayers e Wilvin Earvin. Procurei dar espaço para diferentes artistas se apresentarem naquela noite, ninguém estava fazendo isso naquele momento. Porém, com o título que ganhei, muitas portas e oportunidades se abriram. É importante lembrar que a cena inglesa do meio dos anos noventa estava muito esquisita. Muitos clubes não estavam bem, e vários DJs de Breaks passaram a mexer com equipamentos eletrônicos ao invés de fazer uso dos samples originais dos Breaks. Sabia que era hora de fazer algo, porque a coisa não estava indo por um caminho legal.

Foi quando recebeu os convites oficiais para as coletâneas?
Sim, recebi, e tive total liberdade para fazer minhas escolhas. Poderia ter escolhido dezenas de Breaks obscuros, porém, achei importante dar prioridade ‘as batidas que podiam ser tocadas em uma festa ou num clube – as Party Breaks. Assim, as pessoas poderiam saber a respeito das minhas origens. Procurei mostrar em um CD mixado como podia se mixar tudo aquilo.


O lançamento da série Block Party Breaks por DJ Pogo trouxe de volta a cultura dos Breaks para as gerações mais novas

Quem foi que fez o convite?
Tive vários, porém o mais importante veio de um cara chamado Quentin Scott, que me aproximou da gravadora Strutt Records. Deixei a outra gravadora para me dedicar a este projeto. As coletâneas foram projetos difíceis de fazer porque, em primeiro lugar, de duzentas faixas, tinha que se levar em consideração o fato que não poderia ter muitas da mesma gravadora, não podiam soar parecido, havia o problema do licenciamento de cada uma e, ao mesmo tempo, a transição e a mixagem entre uma e outra tinham que ser coerentes! Chegava a ouvir aquele tracklist umas dez vezes por dia, e sempre tinha que mudar uma coisa. E quando mudava uma, acabava sendo necessário alterar outras! Foi assim que fiz o Block Party Breaks (lançado em 1999), e o 2º volume (2001).

Até então, estas coletâneas de originais eram piratas em sua maioria.
Me preocupei com o recebimento de todos os artistas – por exemplo, os caras do The Winstons (responsáveis por um dos mais sampleados solos de batera, o do Amen, Brother, de 1969). Não havia esse tipo de preocupação antes. E quando receberam os seus cheques, sequer imaginavam que suas obras tinham sido sampleadas! Alguns deles não vivem em condições favoráveis, inclusive. Foi a minha forma de retribuir. Muitos copiaram a iniciativa para fazer dinheiro, mas para mim, era questão de preservar a cultura, dar um bom exemplo e educar a nova geração.

No final, há um compromisso com a educação também, certo?
Devemos nos conscientizar que, a cada dez anos, uma nova geração deve aprender a respeito de música. Por isso as minhas coletâneas mudavam sempre, cada vez era uma história diferente, com estilos e músicas distintos. A segunda teve muito mais influência de Funk pesado, a seguinte tinha solos quebrados de Rock, e cheguei a fazer uma de Disco-Boogie. Todas contam histórias diferentes, isso é muito importante. Diversos DJs chegaram a mixar coletâneas sem coerência, e digo que recebi convites para mixar de forma oportunista outras como os Breaks do J Dilla em um CD mixado na época em que ele estava muito doente e que quiseram ganhar dinheiro em cima, e eu disse não. Chegaram inclusive a roubar ideias minhas! Quando tive a ideia de mixar uma coletânea com Funks instrumentais, chegaram a entregar para outros fazerem. Sempre que houve politicagem envolvida, não quis fazer parte. Quando o dinheiro começa a falar muito alto, sempre há a interferência dela.

Você já me contou essa fascinante história, e acho que seria importante falar aos leitores a respeito das séries como Octopus Breaks.
Muitos nem sabem do que se trata a série de coletâneas Octopus Breaks, mas conheceram a Ultimate Breaks & Beats. A série original do Octopus foi do volume um ao nove, entre o final dos anos setenta e início dos oitenta, pelo que me lembro. Era totalmente pirata, e na seguinte, Ultimate Breaks & Beats, foram obrigados a partir de determinado momento a pagar os direitos aos artistas. Você acha mesmo que conseguiriam não pagar ao James Brown por ‘Funky Drummer’? Eu garanto que não. E foi muito dinheiro!

Não foram só as séries Octopus e Ultimate Breaks & Beats que fizeram história: Paul Winley, com o Super Disco Brake’s, sacudiu as pistas no fim dos anos setenta

Me lembro que conversamos a respeito disso há uns três anos atrás, e só descobri a respeito da existência desta série Octopus Breaks por sua causa.
Sim, e o engraçado era que tudo aquilo era vendido na Downstairs Records, uma loja que ficava no andar de cima de uma estação de trem em Nova Iorque, e não de baixo, como sugere o nome. (risos) Era estranho! Estive lá em 1988, tinha muito disco naquela loja. A série Octopus já estava extinta, mas a loja se tornou muito conhecida com ela. Ali era o paraíso dos Breaks e dos DJs. Era onde se pesquisava afim de se obter o sample para a próxima obra de RAP. Muitas lojas tinham estes discos, e algumas a preços exorbitantes, ainda é assim hoje em dia. Mas, se você souber onde procurar, pode encontrar, seja onde for.

Como começou essa história dos Octopus Breaks afinal?
Aconteceu durante os anos setenta com um cara chamado Bootleg Lenny, que trabalhava em outra loja (Ele também era conhecido por Break Beat Lenny e atingiu status de lenda no Bronx, responsável por idealizar e prensar os oito volumes iniciais da série Octopus com imagens de Polvos – tradução do termo inglês Octopus – com endereços falsos de Hollywood e Florida nos selos. Na sequência, Lenny fundou Street Beat Records e seguiu durante a segunda metade dos oitenta com a série de sucesso internacional Ultimate Breaks & Beats com as mesmas siglas ‘BB’ ou ‘Break Beats’ nos sulcos dos discos – também presentes na série Octopus Breaks, assim como nas matrizes). Basicamente, as séries em questão traziam os originais (de Soul, R&B, Rare Grooves, Jazz, Disco e Rock) cujos solos instrumentais eram tocados por Grandmaster Flash, Kool Herc, Afrika Bambaataa, entre outros gigantes dos toca-discos nos anos setenta e oitenta. Como os discos destas obras originais eram caros demais, as séries tornaram a aquisição destas músicas acessíveis ao público. Vou te dizer que faixas como ‘Apachie’ do Incredible Bongo Band, ’2001′ do Cecil Holmes ou mesmo ‘Black Grass’ do Bad Bascomb eram extremamente difíceis de ser encontradas, mesmo na época! A do Bad Bascomb, por exemplo, jamais vi o original. E por falar em séries de coletâneas, teve também o Paul Winley que tinha a sua série de Super Disco Brake’s pelo seu label, por onde saíram coisas como ‘Catch A Groove’ do Juice.

10 (DEZ) DOS SEUS BREAKS FAVORITOS

Certos discos dentre os que o DJ Pogo escolheu (foram muitos, selecionamos dez) não estão necessariamente na sua lista de todos os tempos, porém, estão entre seus favoritos atuais. E é exatamente isso que é legal, não? Algumas, claro, são eternas. Antes de seguir adiante, esteja preparado, você certamente encontrará na seleção abaixo grandes standards dos Breaks, contudo, em um caso ou outro, terá agradáveis surpresas. “Poderia fazer uma lista interminável, atualmente estou muito em cima dos instrumentais. Sou um E-Boy também! (risos). E-Boy significa ser um B-Boy que procura por estes clássicos em vinil online. Mas procuro e compro, sempre dou suporte aos artistas.”


Hiroshi & Kudo Featuring D.J. Milo – D.J. Mix – Major Force (1988) - Disc Jockey e fundador do Wild Bunch Sound System, Milo tem uma história sem paralelos na cena de Hip Hop em Bristol, Reino Unido. Pogo recorda a importância que teve o autor e como este lançamento do fim dos oitenta era árduo de se encontrar. “Esse cara era um grande DJ de Bristol! A prensagem original é de 1988!

Para ouvir: Return Of The Original Art Form


DJ Pogo Presents The Breaks – Harmless (1998) - “Gosto muito das versões promo em vinil que apareceram na minha coletânea The Breaks”, diz Pogo ao sacar um white label do clássico Apachie do Incredible Bongo Band (1973). Quem ama Breaks e não teve a oportunidade, deve ir atrás desta seleção impecável que inclui grandes standards, de James Brown a Jimmy Castor Bunch.

Para ouvir: Apachie

Mystic Brew – The Main Ingredients EP Pt 1 – Fat City (1999)“Ah, a gravadora Fat City, de Manchester! Eles lançaram muitas coisas boas! Tenho muitos doze polegadas da discografia destes ingleses da pesada, são bons demais. Algumas deles são realmente difíceis de se encontrar, já que não prensaram muitas cópias.”

Para ouvir: Spanky Wilson – Sunshine Of Your Love (1969)


Wild Style Soundtrack – Animal / Chrysalis (1983) - Um dos mais importantes filmes de música em todos os tempos, Wild Style (1983) foi dirigido por Charlie Ahearn. Sua trilha histórica incluiu monstros sagrados do Hip Hop entre os quais Fab 5 Freddy, Grandmaster Flash, Rock Steady Crew, entre outros grandes. Homenageado em 2007 pelo VH1 Hip Hop Honors, recebeu também o título de Top 10 Filmes de Rock & Roll de todos os tempos pelo Rock & Roll Hall Of Fame. A respeito da sua trilha, DJ Pogo foi categórico: “Dez favoritos de todos os tempos? Um deles tem que ser a trilha sonora do Wild Style, com toda certeza!”

Para ouvir: Fab 5 Freddy – Down By Law


Invisibl Skratch Piklz – Skratchcon 2000 (2000) - Ferramenta de scratches dada aos inscritos na conferência Skratch Piklz Skratchcon 2000, este doze polegadas contem dois efeitos bem conhecidos na história do Hip Hop – o sagrado Aaaahhhh! e Fresh!, sampleados de ‘Change Le Beat (French RAP)’ do Fab 5 Freddy (1982). “É do Change The Beat mesmo”, diz o DJ britânico, com o sotaque francês.

Para ouvir: Change The Beat (French RAP)

Tim Maia – Racional – Seroma (1974) - Histórico álbum de Tim Maia e hino do Soul brasileiro, Racional é tiro certeiro dos ávidos colecionadores de tesouros de grooves. “Este álbum tem que fazer parte, porque o Tim Maia… o que dizer dele, né?”

Para ouvir: Bom Senso (1974)

The New Jersey Queens And Friends – Party And Don’t Worry About It – Magnet (1973) - “Esse é o tipo de coisa que estou tocando hoje em dia”, diz Pogo ao sacar a reprensagem pela gravadora Base Line em doze polegadas. Rare Soul com belíssimos arranjos e sustentação rítmica, como não poderia deixar de ser.

Para ouvir: Party And Don’t Worry About It

James Brown – The Drunk – Bethlehem (1969) - Lançado pelo pequeno label Bethlehem no final dos sessenta, ‘The Drunk’ traz um dos ritmos e arranjos mais contagiantes da constelação dos geniais músicos dos J.B.s. – “Este é um dos favoritos do pessoal do James Brown atualmente para mim. Não é algo que você possa encontrar em qualquer lugar… Amo essa obra!”

Para ouvir: The Drunk

Jay Dee – Fuck The Police – Up Above (2001) - “J. Dilla tem que estar nesta seleção dos meus favoritos!”, lembra Pogo ao se referir ao ótimo instrumental da obra lançada em 2001, diga-se de passagem, perfeita manipulação de breaks de batera em loops.

Para ouvir: Fuck The Police (Instrumental)

The Marvels – Rock Steady Pama Supreme (1971) - Cover de grande sucesso da Aretha Franklin, essa versão Reggae cheia de Alma é paixão eterna dos Breakers.
“Essa não pode faltar! Sempre a incluo nos meus sets de Funk!”

Para ouvir: Rock Steady

DJ POGO

http://supapogo.blogspot.com
http://www.dmcdjbrasil.com.br
http://en.wikipedia.org/wiki/DJ_Pogo
http://www.myspace.com/djpogo

Para fechar a entrevista, DJ Pogo nos presenteia com um set exclusivo. Enjoy!

avatarEscrito por Alain Patrick em 11 de janeiro de 2012

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    Trepanado disse em 17 de janeiro de 2012

    Entrevista MEGA, Alain, demais, parabéns! Tá 18 quilates. Puta personagem, amo o Pogo, até preciso levar ele pra tocar na Selvagem mais pra frente. =)

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