DJ MAGAL – A Arte do Pioneirismo

Fotos por Silvana Garzaro

DJ Magal, do Madame Satã para a história: fundamentos da cena eletrônica brasileira

Uma história que se confunde com a da cena eletrônica brasileira. Esta é a trajetória do DJ Magal, hoje próxima de completar nada mais nada menos do que três décadas dedicadas aos toca discos. Ter sido o residente na era de ouro do lendário templo do underground Madame Satã ao lado de Marquinhos MS entre 1983 e 1986 já seria suficiente para consagrar qualquer DJ, porém, Magal foi adiante e soube se reinventar ao longo destes quase trinta anos em clubes como Rose Bom Bom, Cais, Hoellisch, Der Tempel, Columbia, Stereo, AMP Galaxy, D-Edge, Vegas, Clash, assim como os grandes eventos e festivais por onde se apresentou. O segredo? Ter personalidade e muita pesquisa musical. A extensão sem paralelos de sua carreira proporcionou ao DJ momentos incríveis cujas estórias Magal procurou relembrar na entrevista a seguir. Perfeito para ouvir com o set old school ‘New Beat, EBM, Acid House‘ gravado especialmente para o deepbeep.

* Tracklist no final da entrevista

Muitas pessoas perguntam como era o Madame Satã naquele tempo em que você tocava com o Marquinhos. Me lembro que você me contou como foi mostrar às pistas compostas de punks, góticos e amantes de música eletrônica que o ecletismo era o caminho, especialmente quando começou a tocar os singles da gravadora Factory como o ‘Blue Monday’. Que tal nos contar a respeito?
O Madame Satã foi um clube de vanguarda em que os donos eram pessoas ligadas ao teatro, cinema e artes em geral. O lugar era frequentado por artistas, punks, celebridades da música e pessoas comuns. Esse clube foi inesquecível para mim não só por ter sido meu primeiro emprego como DJ, mas também porque naquela pista, eu aprendi que ser DJ não era apenas colocar músicas para as pessoas dançarem. A gente se envolveu com o trabalho de corpo e alma. Tínhamos uma relação muito boa com os frequentadores, apesar de alguns atritos. Nos aproximamos tanto deles que criamos uma espécie de intercâmbio musical. Eles sugeriam algumas músicas e nós mostrávamos outras de outros estilos através de nossas discotecagens.

Este tema tem a ver com a noção de que o DJ deve fazer muito mais do que apenas ‘entreter’, e que ele pode ter um papel de lançador de tendências, não é mesmo?
Isso mesmo, Alain! Foi ali que percebemos que a gente estava mudando a maneira como o DJ era visto pelo público. Ele deixou de ser uma simples figura que ficava escondida atrás de uma cabine para se tornar o personagem principal e formador de opinião. O que fiz durante todos esses anos foi aperfeiçoar todo esse conhecimento.

Várias destas músicas que vocês tocaram, embora tivessem saído do underground, se tornaram pop. Por que era tão diferente naquele tempo?
Estávamos saindo de uma década (a de setenta) que marcou toda uma geração e estabeleceu as casas noturnas. As pessoas estavam a procura de algo novo e diferente e aquele tipo de música não tocava nas rádios, apenas naquele porão. Uma coisa muito importante para nós naquela época foi ter um bom fornecedor. O Carlini, que mais tarde inaugurou a loja de discos Bossa Nova, foi nosso fornecedor. Isso fez toda a diferença.

“Naquela pista, aprendi que ser DJ não era apenas colocar músicas para as pessoas dançarem. Percebemos que a gente estava mudando a maneira como o DJ era visto pelo público. Ele deixou de ser uma simples figura que ficava escondida atrás de uma cabine para se tornar o personagem principal e formador de opinião”

Outro momento que recordo de você falar bastante a respeito da chegada de gêneros como a Acid House. Como (e onde) aconteceu e que papéis tiveram o Veríssimo e o Leuzzi na história?
Quando sai do Madame Satã, fui para o Rose Bom Bom que tinha uma proposta semelhante, porém muito mais eclética. Isso facilitou muito o meu trabalho. O Ângelo Leuzzi, que era o dono e também DJ do club fez uma viagem para Nova Iorque. Ele me pediu para fazer uma lista, e eu não perdi tempo. Fui na banca ao lado do club e comprei os últimos exemplares da NME (New Music Express) e Melody Maker. Ali tinha os indie charts. Em primeiro lugar estava ‘M.A.R.R.S.- Pump Up The Volume‘ e em segundo ‘Bomb The Bass – Beat Dis‘. Fora os discos que eu pedi, ele trouxe outros que se tornaram hits rapidamente. Entre eles: Mantronix, Housemaster Boyz, Inner City, entre outros.
O Arthur Veríssimo também foi um cara fundamental na minha carreira. Já no Madame Satã ele me mostrava coisas pra lá de interessantes: Pink Industry, Test Department, Quando Quango, Xmal Deustchland, The Sisters Of Mercy, só pra citar alguns. Mais tarde fui convidado pra tocar ao seu lado no Cais. Ali, houve outro grande momento na minha vida! Toda essa liberdade para explorar novos estilos para tocar só aconteceu porque os donos dos clubs permitiram. Sem eles, isso jamais teria acontecido.

E de repente, teve aquela cena paralela de New Beat na Bélgica, que surpreendentemente fez um sucesso estrondoso no Brasil. Você dedicou parte do seu set a ela. Por quê?
Gosto muito de New Beat. Fui um dos principais DJs que ajudou a introduzir esse estilo aqui no Brasil no Cais e no Hoellisch. Ele deu muito certo na pista junto ao EBM. Os dois se tornaram minha marca registrada. Para mim, esse set traduz sua riqueza e mostra os timbres desse estilo que, por vezes, se confunde com o Acid House, porém, com BPMs mais lentos.

Ainda me lembro do seu período frente ao Hoellisch (1990-1992), um porão que tinha em frente à Praça Roosevelt. Vale a pena contar para quem não esteve qual era a atmosfera e por que as pessoas eram tão entusiasmadas com a música e o clima.
O Hoellisch foi um dos clubs mais incríveis que toquei em minha vida. E está, sem dúvida, entre os melhores da minha carreira. Ajudei a construí-lo e usei todo meu conhecimento musical ali. O Hoellisch não era pequeno, era formado por um labirinto de salas e bares, uma pista bem ampla com o pé direito alto e um palco muito bem localizado onde se apresentavam bandas eletrônicas nacionais. Havia também uma loja de discos e outra de roupas. Coisas inéditas para um club daquela época. Meus sets eram compostos de muito EBM, New Beat e Industrial.

O Columbia representou um nova realidade na sua carreira, onde você soube se reinventar diante de uma nova geração. O que aprendeu com isso?
No Columbia tive que mudar minha maneira de tocar por necessidade financeira. A proposta era muito diferente da que eu estava acostumado. Mesmo assim, sabia que era capaz e usei todo meu tempo lá para aperfeiçoar minha parte técnica. Foi minha primeira experiência no mainstream e acho que dei conta do recado.

Todos os DJs com longa trajetória (como você) já passaram por momentos difíceis, faz parte da vida. Me lembro de uma entrevista do Mau Mau onde disse que houve uma reunião com donos de clube no início dos noventa para que aumentassem o cachê dos DJs de algo como trinta para cinqüenta dólares. Teve também a história que o Marshall Jefferson me contou sobre a situação crítica que atravessou a cena de Nova Iorque no fim dos oitenta, quando muitos DJs de grande importância chegaram a tocar por cinquenta dólares apenas. Qual foi o momento difícil que você atravessou?
Foi no início dos anos noventa, logo após minha saída do Columbia e coincidentemente quando a música eletrônica estava crescendo aqui. Muitos me rotularam como um ‘DJ só de anos oitenta’ e não havia muitas ofertas de trabalho para mim. Eu passei quase uma década tocando em clubs sem expressão e ganhando pouco. Mesmo assim, nunca reclamei ou deixei de ser profissional. Até hoje, sou um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair dos clubes nas minhas noites.

O final dos anos noventa trouxe a ideia de segmentação musical e a ideia de ser DJ de determinado estilo, com sets de tempos mais curtos. Por outro lado, há a célebre citação do Laurent Garnier onde diz: “Dê à maioria dos DJs a oportunidade de tocar um set de oito horas e eles se cagarão inteiros!” Você acredita que esta segmentação tenha limitado a criatividade do DJ?
Com certeza! No início, em clubes que toquei, sempre tocava por mais de oito horas. Foi assim no Madame Satã, Hoellisch e Rose Bom Bom. E também recentemente na minha noite no Vegas, Oldschool Friends, onde cheguei a tocar em várias noites sets de até cinco horas. Você nunca saberá o verdadeiro potencial de um DJ em uma hora de set. Outra coisa que não concordo é esse lance de segmentação musical. Música boa é para ser tocada independente de estilo mas, para que isso tenha uma certa coerência, o cara precisa ter no mínimo duas horas de set para poder mostrar seu trabalho ou contar um pouco da sua história.

Na segunda metade da década de noventa, apareceu a cena do Electroclash e um grupo de produtores que alavancaram as sonoridades inspiradas em gêneros como Post Punk, Synth Pop, Cold Wave, EBM, Italo-Disco e Hi Energy. Que impacto teve isso em sua carreira, e de que forma você traduziu em seu trabalho?
O Electro caiu como uma luva nos meus sets. Tanto que ganhei o premio de melhor DJ do gênero pela DJ Sound Awards em 2004 e fui indicado várias vezes por outras revistas especializadas de música eletrônica; além ter sido reconhecido fora do Brasil também. Minha formação musical está quase toda inserida no Electro.

Ter sido residente do CIO 80′s teve um papel fundamental na sua vida, estou certo?
O CIO resgatou minha autoestima. Meu deu a segunda chance de mostrar meu potencial. Foi ali que eu voltei a ter prazer em tocar novamente.

Você se apresentou em festivais como Sonar SP, Nokia, Skol Beats e Spirit Of London. Qual a sensação de tocar para um público tão grande?
É uma experiência muito boa. Você se sente um superstar vendo todas aquelas pessoas na sua frente. Por outro lado, tem o peso da responsabilidade e a obrigação de fazer por merecer. Dá um frio gostoso na barriga.

Atualmente, você tem residências que abrangem diversos públicos e gêneros musicais, prova do seu grande background musical: Oldschool Friends, Boogie Nights, Discommend e o retorno da Madchester, dedicada ao universo música que existiu no Haçienda. Conte-nos um pouco a respeito delas.
Depois de tantos anos atrás dos toca-discos eu achei que deveria contribuir um pouco mais e resgatar através dos meus projetos sonoridades que ajudaram a construir toda essa cena e a minha carreira. São quatro projetos ao todo, três deles de referências: Boogie Nights de Disco e Funk; Discommend, onde toco o meu background até a década de noventa; e a Madchester, que é dedicado ao Acid House, EBM, New Beat, House de Chicago, Detroit Techno e Indie Rock. Tem também o Oldschool Friends que acontece em parceria com a Caravana da Coragem. Esse é um projeto de música eletrônica de ponta.

DJ MAGAL

www.soundcloud.com/djmagal
www.facebook.com/magalsp
www.discogs.com/artist/DJ+Magal
www.twitter.com/djmagalsp

contato: manager@electronicstandards.com

* Tracklist do set:
1- Confetti’s – The Sound Of C
2- Major Problem – Acid Queen
3- Miss Nicky Traxx – Acid In The House
4- Agreppo – Kings Of Agreppo
5- Public Relations – Eghty Eigh
6- The Psycheldelic Furs – Heartbeat
7- Xymox – Scum
8- Moev – Capital Heaven
9- Cassandra Complex – Angels In The Sky
10- Fingers INC – I’m Strong (Instrumental Mix)
11- Phuture – We Are The Future
12- Blackman – Beat That Bitch With Bat
13- Da Pose – Strings
14- Renagade Soundwave – The Phantom
15- 2 Puerto Ricans A Blackman and a Dominican – Do It Properly
16- Hexacon – Discommend

avatarEscrito por Alain Patrick em 20 de janeiro de 2012

comente

  1. avatar

    Cassiano disse em 26 de janeiro de 2013

    Eu que por privilégio do destino tive a oportunidade de ir na maioria destas casas, sinto muita nostalgia de ler esse texto. Realmente, nessa matéria foi abordada a síntese da noite paulistana nas últimas décadas, pois quem não foi nessas casas e não viu essa galera que foi citada tocar, não pode dizer que sabe o que é uma pista de dança de verdade. Hoje em dia, a maioria das casas que lotam e duram muito só tocam porcaria e são regadas a VIPs e open bar, senão ficam vazias e o coração de uma danceteria que antes era a pista, agora está relegada a planos secundários. Felizmente, ainda existem algumas que preservam o bom gosto e o Magal está presente na maioria delas. Foi no Rose Bom Bom que me apaixonei definitivamente por esse ramo e trabalhei nele como promoter durante muitos anos, inclusive no próprio Cais, em sua 2a edição. Infelizmente, essa época não volta mais. Foi lá que escutei pela 1a vez Inner City, Snap e Technotronic e nunca mais me esqueci disso. Parabéns ao repórter e ao entrevistado, que narraram a época de ouro da noite paulistana!

  2. avatar

    DJ Acacio Moura disse em 2 de março de 2012

    Mestre

avatar