
É o encontro da electronica com a música acústica: Alva Noto processa som e imagem enquanto Ryuichi lança uma chuva de piano sobre o sinteticismo sonoro.
Carsten Nicolai, o Alva Noto, é um dos criadores do selo Raster-Noton, a ponte alemã que interliga pop, arte e ciência. Carsten produz faixas loopando clicks, beeps e glitchs como estrutura principal da composição, mas é importante dizer que seu trabalho vai além da música, ele também experimenta as diversas possibilidades do som na forma de instalações.
Sakamoto ganhou reconhecimento internacional com a banda Yellow Magic Orchestra, o grupo japonês precursor do synthpop no fim dos anos 70. Depois disso a ressonância foi massiva, o artista já levou Oscar, Grammy e Globo de Ouro e contribui para a trilha sonora de filmes como Babel, O último Imperador e Merry Christmas, Mr. Lawrence.
Carsten Nicolai – Eu cresci na Alemanha Oriental, um lugar onde nem tudo era acessível. Improvisar era ago necessário, de forma que eu precisei substituir o que estava fora de alcance com as possibilidades que eu tinha. Acredito que isso foi uma ótima escola, o fato de abstrair o propósito original de uma ferramenta e criar uma funcionalidade própria para ela. Acho esse método importante de experimentar e relembrar.
Ryuichi Sakamoto – Isso me lembra quando comecei o ensino médio, no verão daquele ano a minha classe estava perto do mar e a noite eu tive a ideia espontânea de criar uma peça com meus colegas. Eu dei uma lanterna para um deles e um livro de poemas para outro. Ainda tinha outro amigo que tocava violão, pedi para que ele tocasse faixas dos Beetles. Adorei aquilo: uma lanterna, música e poemas no meio da escuridão.
Carsten Nicolai
- Sampling nos anos 80 foi uma das coisas que me influenciou fortemente. Acho que a música feita com samples é ainda inspirada naquele momento. É incrível ouvir Laurie Anderson, Peter Gabriel e todos os primeiros estágios dessa estética sonora, isso marcou a transição de instrumentos populares e clássicos para o uso de noise como ferramenta musical.
- Outro movimento importante tem background clásssico. É a combinação de ritmo e melodia de um jeito mais solto, Podemos tomar como referência a música básica africana ou compositores como Steve Reich, que experimentou essa linguagem através de sonoridades dependentes, criando melodias com feedbacks.
- O passo mais significativo para mim é a manipulação do som para produzir frequências ressonantes no espaço. Sempre estive muito ligado a isso, acho interessante quando o som vira parte da arquitetura, parte da performance.
Ryuichi Sakamoto
- Devo citar o momento em que o homem inventou o primeiro instrumento musical. Ninguém sabe ao certo quando, de qualquer forma, o instrumento mais velho é uma flauta feita com ossos de animais.
- Segunda grande transição foi quando inventaram o instrumento de corda e assim, a oitava, o intervalo perfeito entre uma nota musical e outra. É quando a música encontrou a matemática.
- Outra grande colaboração para a história da música foi quango Steve Jobs inventou o Macintosh.
Carsten Nicolai – Sempre estive atento a melodia, mas o trabalho com o Ryuichi me fez perder a distância disso. Até então era um limite conceitual para mim usar estruturas musicais classicas, depois do projeto percebi que desenvolvi peças mais melódicas.
Ryuichi Sakamoto – Eu era um grande fã de John Cage e de todo o movimento Fluxus bem antes de conhecer Carsten, posso dizer que Noise já era familiar. De qualque maneira, o tempo passou e Carsten me fez reencontrar essa estética, é como se eu revivesse a minha juventude.
Carsten Nicolai – O momento mais desafiador foi provavelmente transformar os releases em live. Precisei de um ano para preparar tudo e criar uma equipe com as pessoas certas para me ajudar a conceber um conceito visual e o software. Sempre enxerguei a colaboração como um projeto especial, não deveria ser somente um laptop do lado de um piano, e sim, uma experiência marcante, também visualmente. Meu objetivo era criar uma aura que transmitisse o espírito musical.
Ryuichi Sakamoto – Não me lembro de momentos difíceis, o trabalho com Carsten é sempre espontâneo e estimulante. Um pouco desafiador foi talvez quando trabalhamos com outros artistas, com o Ensemble Modern por exemplo. Acho que foi pelo motivo de termos backgrounds diferentes, mesmo assim o resultado foi ótimo.
Carsten Nicolai – Ainda não temos insights concretos no momento, gostaríamos talvez de documentar o show, já que ele é bem interessante visualmente. Tocamos algumas faixas que nunca foram lançadas, mas não pensamos em publicá-las ainda.
Ryuichi Sakamoto – O futuro é sempre aberto, é possível que a colaboração continue. Por outro lado estamos felizes com o fato de termos lançado 5 albums em 10 anos, mas caso boas ideias apareçam, só preciso mandar um e-mail para o Carsten.
http://www.sitesakamoto.com/
http://www.carstennicolai.de/
http://www.raster-noton.net/
Projekt Gestalten disse em 19 de maio de 2012
respect!!
Carsten e Ryuichi sao grandes artistas e essa coloboracao entre os dois sempre foi algo interessante. Pena que eles nao se apresentarao juntos no Bloc Festival em Londre… mas me contento em ver so o Alva, por enquanto…