DERRICK MAY- It Is What It Is

Transmat – Detroit, EUA

Derrick May Interview - Transmat Studios - Part One LAST

O coquetel de abertura da ‘Exibição de Arte Visionária de Detroit’ (Detroit Visionnary Art Exhibit), realizado na abertura do Backpack Music Festival (festival que levanta fundos para a compra de mochilas e material escolar para crianças mais carentes) na primeira sexta-feira de agosto de 2012, reservou uma grande surpresa para todos os presentes. Os apreciadores de artes visuais e música que foram conferir as instalações de fotos, desenhos e pinturas no Al Taubman Center For Design se depararam com os pioneiros do Techno Juan Atkins e Derrick May, o DJ Skurge (UR) e o artista visual Abdul Haqq. Após me apresentar ao sr. Rhythim Is Rhythim, ele disparou: “Me ligue mais tarde, vamos tomar alguma coisa e fazer a entrevista”. Mal podia acreditar que tudo aquilo era verdade, após tantos anos de expectativa, e que aconteceria na sede da Transmat, gravadora e estúdio onde alguns dos grandes clássicos do gênero foram criados, mais de duas décadas atrás.

Cerca de uma hora e meia mais tarde, lá estava eu naquele galpão que parecia abandonado, recebido por um sábio amigo chinês do Derrick que me conduziu escadaria acima ao local sagrado. Finalmente! Era enlouquecedor imaginar que ‘Feel Surreal‘, ‘Icon‘, ‘R-Theme‘ e ‘Kao-Tic Harmony‘ foram feitas ali, entre outras obras-primas, claro. Mayday gentilmente ofereceu um charuto argentino e bebidas, e me apresentou a sacada do prédio, com o símbolo da gravadora pintado na parede.

Salve! Como vão as coisas? Fale-nos um pouco da abertura do Backpack Festival.

Está tudo ótimo, foi uma bela abertura para as crianças da cidade. Por que elas não têm mochilas (em inglês: backpack), afinal?  Há muitas razões para isso; uma das principais é o estado precário da economia do município de Detroit, em Michigan. Então, boa parte dos jovens não têm mochilas… e não só isso: faltam estojos de primeiros socorros, amparo médico. Fora que grande parte dessas crianças toma ônibus e há muito material para carregarem. Não se trata de algo simbólico, e sim de um genuíno esforço para ajudá-las.

DERRICK-MAY-Interview-(Electronic-Standards)---Photos---At-Transmat-(Best)

Uma iniciativa de grande engajamento…

Algo prático! Estas crianças precisam… O Brasil sabe bem como é isso. Muitas pessoas têm dificuldade em entender como pode haver tanta problema dessa natureza em uma cidade dos Estados Unidos. Primeiro de tudo, aqui não é uma terra de fartura. Há sim a imagem de local das oportunidades, porém, a realidade é que cada Estado é independente e tem que enfrentar seus desafios, muito embora tenhamos uma Constituição e leis federais.

Qual posição tem o Estado de Michigan em relação a isso?

Acho que a posição é lamentável. Temos sim uma série de problemas financeiros, porém, uma coisa que deve se evitar a todo preço é comprometer o futuro das crianças, você não pode deixá-las de fora. Elas são o numero um, porque se algo deve ser construído, é para elas. Tire as crianças desta prioridade e você não terá nada. Às vezes, acho que o nosso governo se esquece dessa realidade, mas trata-se de um grande problema…

Esta situação de ‘abandono’ social não era semelhante nos oitenta?

Detroit sempre teve seus problemas. Grande parte das lutas era contra a corrupção, e o uso do dinheiro público sempre foi uma questão. Por muitos anos, a mentalidade reinante na cidade era que a ‘indústria representava o futuro’. As repercussões deste pensamento ainda podem ser sentidas hoje em dia. Quando era garoto, nos anos oitenta, a realidade era perigosa, mas não a ponto de atingir as atividades mais básicas das crianças, como ter direito a merendas escolares, livros e mochilas. É patético, e não acontece só em Detroit.

TRANSMAT PAINTING
A visita aos estúdios da Transmat se deu à noite, e foram necessárias duas fotos para (tentar) reconstituir este belíssimo painel feito por Abdul Haqq. 

Por outro lado, a música que vocês fizeram não era justamente um escape intelectual a esta realidade?

Sem dúvida. Hoje em dia, não creio que haja muitos produtores em Detroit fazendo música assim, com este pensamento. Antigamente, tínhamos diversos, mas agora, temos um… dilema real devido ao nível dos artistas de música eletrônica, reflexo do que tem acontecido com a nossa comunidade. Há mais artistas locais de Hip Hop do que antes, porém, nenhum deles produz algo que reflete a comunidade. Várias dessas músicas mostram oportunidade e criatividade, mas não este elo de ligação. Slum Village, por outro lado, era deste tipo de grupo, assim como o saudoso J Dilla, uma grande perda de liderança no gênero.

E a geração mais recente de produtores, como o Kyle Hall?

Kyle é demais, porém, é apenas um, e não pode resolver tudo. Seria injusto jogar este tipo de responsabilidade nele. É necessário que ele se desenvolva e desfrute, afinal de contas, tem uma perspectiva singular. Sua energia lhe dá foco e propósito, mas que não joguem nas suas costas a cidade de Detroi

Derrick-May-Interview---Transmat-Studios---The-RobotsRobôs tomam conta de equipamento na sede da Transmat: eterna paixão por arte e máquinas.

Sempre houve uma conexão cósmica na música de vocês, pioneiros do Techno?

Creio seja uma ideia, essa com a qual pudemos vislumbrar ou incutir em nossas mentes um tipo de visão que nos levasse a um outro patamar, e criar a nossa música de forma mais futurista, relacionada ao Cosmos, pode-se assim dizer. Porém, acho que as pessoas falam coisas demais a respeito. Porque para nós, era o momento.
Claro que tivemos aquelas visões e sonhos, assim como muitos outros jovens têm. Faz parte deste momento da vida, e não há nada de errado nisso.  Se por acaso fizesse música hoje, minhas visões e sonhos seriam completamente outros, porque sou uma pessoa bem diferente.
Falar, naquela época, de uma mentalidade cósmica? Não sei… Porém, como visionários, sempre imaginamos que faríamos parte de algo, ou que pudéssemos vislumbrar o futuro.

E hoje, é possível pensar em futuro em matéria de música eletrônica? Quero dizer, não deveria ser desta forma?

Sim, deveria ser assim, você respondeu a pergunta. Então… sim!! (risos) Em Detroit, temos um movimento restrito neste sentido. Mike Banks (UR) trabalha duro para desenvolver novos artistas, sempre dá a cara para bater e luta pelo melhor possível na área. Por outro lado, grande parte dos artistas deixou a cidade em busca de melhores oportunidades. Essas coisas acontecem, assim é a vida. A mágica ainda persiste, porém, em uma garrafa bem pequena.

Derrick-May-Interview---Transmat-Studios-At-Night-(Electronic-Standards)Os estúdios da Transmat na penumbra, onde obras-primas como ‘It Is What It Is’, ‘Icon’ e ‘Strings Of Life’ foram compostas.

Por falar nisso, como vocês faziam naquele início durante os anos oitenta para saber o potencial que tinha suas obras antes de lançá-las?

Posso te contar um segredo? Naquela época, quando eu e o Juan (Atkins) fazíamos as nossas faixas, sempre ouvíamos no som de um carro antes de lançar. Se soassem bem, lançávamos!

O que você acha que aconteceu com o espaço preponderante que a música eletrônica alternativa tinha? Teria a forma triunfado em relação ao conteúdo?

Sim, acho. Esta é a preocupação primária porque, atualmente, quando reparamos ao redor, por exemplo, em Detroit, percebemos que temos um exército pouco criativo. Poucos artistas capazes de fazer esse tipo de  música aparecem… pouquíssimos. Detesto dizer, mas acho que estamos no limite. Adoraria estar errado, que me surpreendessem e me fizessem mudar de ideia.

Nós, de fora, vemos vocês como uma cidade extremamente musical…

Ainda é assim, sempre será. Claro que ainda há diversos grupos de artistas criativos em Detroit e em Michigan em atividade, fazendo sua música, se apresentando. Há um legado musical em Detroit que jamais deixará de existir.  Por outro lado, é o legado da música eletrônica que está em perigo. Talvez, porque as pessoas estejam atrás do pote de ouro, ao se mudar para centros como Berlim ou Nova Iorque, e imaginar que possam ter mais sucesso fora. Acreditam que a oportunidade bate mais à porta dos vizinhos do que na sua.  

Complicado, não?

Na verdade, não. É o que é.

Me, Derrick May 2012 Detroit Backpack Festival Ouverture

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MAYDAY: STRINGS DRAMÁTICOS, DO CORAÇÃO

Uma vez que a mais conhecida música de Derrick May, Strings Of Life‘, foi amplamente abordada por jornalistas e experts em matérias e documentários, resolvemos dar espaço para as suas demais obras-primas nesta seção. O americano de Detroit é enfático ao definir a forma como as produziu: “Sempre iniciava com os acordes. Tudo deveria começar com melodias. Para mim, os acordes são a música, eles que a definem. Isso sou eu e é essa a forma como faço.” Para nosso deleite, não deixou de citar os equipamentos usados nos seus clássicos: “Entre os equipamentos que utilizei, estão o Mirage Ensoniq, os Yamaha DX-100, DX-7 e DX-21, os Roland Juno 106 e Jupiter 8. Foram sempre estes.”

DERRICK MAY Interview (Electronic Standards) - Records - Nude PhotoRhythim Is Rhythim – Nude Photo / The Dance – Transmat (1987) – “Cheguei a vender no mínimo meio milhão de cópias da ‘Strings Of Life’, e algo entre duzentos e cinquenta a trezentos mil da Nude Photo. Contudo, ‘Nude Photo’ é uma faixa que não consigo suportar. Jamais gostei, desde o primeiro dia;  nunca ouço e nem quero. Não é porque você fez uma obra que tem necessariamente que gostar dela! Não era eu e não representava o que eu penso. Tomas Barnett se envolveu na criação. Ele queria uma faixa e veio para mim com duzentos ou trezentos mangos e a sua iniciativa resultou no meu início oficial como produtor. Já produzia antes disso, mas não lançava nada. Então me falaram deste cara, que era segurança em uma loja e que queria pagar por algumas produções. Foi ideia dele, inclusive, de chamar a obra assim. Eu jamais teria dado este título ridículo. Ele me deixou as ideias do que queria e, naquela noite, compus e entreguei no dia seguinte. As ideias foram dele, por isso há os créditos no disco; mas a composição foi minha. The Dance, por outro lado, amei demais! Ficava no outro lado do disco com ‘Move It’.”

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Rhythim Is Rhythim – Nude Photo (1987)

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Rhythim Is Rhythim -The Dance (Living Room Mix)

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DERRICK MAY interview (Electronic Standards) - Records - It Is What It Is (Blue)Rhythim Is Rhythim – It Is What It Is / Feel Surreal - Transmat (1988) - “Grande parte da minha obra vem de momentos melancólicos, lembranças da infância. Meu avô, sobretudo, foi muito importante para mim em virtude do tempo que passei ao seu lado quando criança. Ele era um homem simples e trabalhador, e eu o amava muito. Me proporcionou uma grande infância. Não conseguiria definir de forma melhor. Claro que a minha mãe também me deu amor e carinho, mas o meu avô foi a minha figura paterna, porque venho de uma família sem pai. Ele foi a minha estrutura. Minhas tias, embora fossem mais velhas, eram como minhas irmãs. Me sentia como um irmão caçula de uma grande família. Fiz a ‘It Is What It Is’ com muito amor lembrando do meu avô.”

 

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Rhythim Is Rhythim – It Is What It Is (Majestic Mix)

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Rhythim Is Rhythim – Feel Surreal (Subconscious Mix)

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DERRICK MAY Interview (Electronic Standards) - Records - R Theme 01R-Tyme - R-ThemeTransmat (1989) - ”Fiz ela com o Daryl Wynn.  Não se tratava de abordar as questões de modo pura e simplesmente filosófico. Claro que pensávamos naqueles temas, líamos os livros, ao menos parte deles, mas acima de tudo, estávamos isolados, tínhamos a nossa própria filosofia. Ela era exatamente isso: não importava o que os outros pensavam, não parávamos para refletir a respeito do mundo fora dos nossos sonhos. Estes, representavam uma ideia futurista de música, apostamos tudo nisso. As pessoas sempre me perguntam, estão curiosas para saber os mistérios, e eu entendo isso. Mas para nós, era o isolamento. Detroit é como viver na Sibéria. Estamos sozinhos aqui! É tal qual o fim ou o início de tudo na América. O que se sucede nestas bandas, sofre pouquíssima influência da esquerda ou direita. É um local único para se viver, uma cidade idealista demais. As pessoas em Detroit sempre foram extremamente independentes. Lutamos por melhorias há pelo menos umas quatro décadas. Não costumamos absorver muita influência do que quer que seja. ‘R-Theme’ tinha belos acordes e foi uma grande oportunidade de fazer uma bela obra. Pouco após, quando a ouvi novamente, percebi que era parte de uma trilha de um filme do tipo jamais lançado.”

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R-Tyme R-Theme (Mayday mix) – Detroit techno classic

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DERRICK MAY Interview (Electronic Standards) - Records - Kao Tic Harmony 00Rhythim Is Rhythim – Kao-Tic Harmony – Transmat (1991) – “É uma obra de Soul/Jazz high-tech que fiz com Carl Craig. Carl atingiu um ponto em que ele sestava se tornando uma força real e eu sabia disso. Então, estávamos finalmente em condições de compor aquela obra juntos. Não produzimos muitas músicas lado a lado. Sei que existe uma impressão que ele estava comigo em todas as faixas, mas obviamente que não foi assim; ele era bem jovem, tinha entre dezoito e vinte e um anos! Todavia, a música não teve nada a ver com teorias sobre Física ou seja lá o que for. Kao-Tic Harmony foi, na verdade, uma obra romântica feita com coração melancólico. Assim como eu, Carl tocou parte das melodias e dos acordes, e acredite, tudo foi gravado de uma vez só. Não costumava gravar em mais do que duas ou três tentativas porque não conseguiria garantir exatamente o que tinha acabado de tocar. A faixa saiu primeiro na Europa, porque a ideia era desenvolver relacionamentos em outros locais. Foi distribuída pela Buzz, e lançada em uma parceria das duas gravadoras naquele single que tinha a capa prateada com a logo vermelha ( da imagem em miniatura). Vendemos 47.000 cópias dele.”

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Rhythim Is Rhythim – Kaotic Harmony

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DERRICK MAY Interview (Electronic Standards) - Records - Icon 01Rhythim Is Rhythim – Icon – Buzz (1992) – “Icon representou um período triste da minha vida. Acredito que eu estava em um momento de transição. Tinha uma namorada com quem terminara pouco antes, algo que precisava fazer porque… bem, muitas coisas aconteciam naquele momento na minha vida e não tinha certeza ainda de que rumo queria tomar em matéria de criatividade musical. Tratava-se de uma transição profunda, em parte, porque odiava o business musical. Aquelas pessoas todas me pressionando para ser um prodígio, uma espécie de novo guru musical. Não queria aquilo e resolvi me afastar de tudo. Então, no inverno entre 91 e 92, decidi compor esta obra. Criei as linhas de acordes e não mexi até a primavera  de 1992 quando, então, terminei. Os acordes são super gélidos.”

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Rhythim is Rhythim – Icon

 

DERRICK MAY

http://www.facebook.com/derrickmayday

http://www.transmatrecords.com

 

avatarEscrito por Alain Patrick em 7 de fevereiro de 2013

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  1. avatar

    Motor disse em 19 de fevereiro de 2013

    Excelente entrevista. E sobre o espaço preponderante que a música eletrônica alternativa tinha… Se em Detroit anda do jeito que tá, imagina aqui pra gente… E é fatídico que estamos no limite. Esse cara é foda! LENDA ~

  2. avatar

    DJ Yonoid disse em 7 de fevereiro de 2013

    PQP! Parabéns Alain, entrevistou a lenda viva, deve ter sido foda sua visita na Transmat!
    RESPECT!

  3. avatar

    @leandrobionic disse em 7 de fevereiro de 2013

    Emocionado, lendo e conhecendo um pouco da história de um artista que influenciou diretamente minha cultura musical no começo dos anos 90. Sem dúvidas agora, uma pessoa totalmente ser humana. E fica a lição pra quem está chegando agora, que a música é feita e ouvida pela alma!

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