Vamos falar de pop: Lusine

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Foi escrevendo sobre uma apresentação dos Pachanga Boys que o termo visceral surgiu – e fez real sentido – pela primeira vez na minha mente. Aquela era a palavra ideal para descrever a música intensa, repetitiva e viajante da dupla. Eis que me deparo novamente com o termo, mas agora, num release qualquer sobre Jeff Mcllwain, nome por trás do Lusine. A música dinâmica e cheia de vocais dele me parecia tudo, menos visceral. Resolvi passar mais umas boas horas escutando a obra dele – principalmente The Waiting Room, um dos álbuns que mais girou no meu playlist em 2013 – pra ver se entendia melhor. 

Natural do Texas e produtor há mais de 20 anos, Mcllwain passou um tempo na Califórnia antes de se mudar para Seattle, onde mora até hoje. Em L.A., estudou sound design e fez contatos que renderam trilhas para filmes como em Joe, deste ano, com Nicolas Cage. Nesse tempo, passou de IDM para techno para pop eletrônico. Ou avant-pop, como dizem por aí, essa mistura deliciosa do gênero com motivação avant-garde. Experimental ao máximo, dentro dos limites estreitos da estrutura do pop.  » Continue lendo esta matéria

100 Deep Electronic Music Classics

No decorrer do ano passado, enquanto trabalhava na edição de algumas entrevistas para o Electronic Standards, me veio à cabeça a ideia de criar um guia com os 100 clássicos de música eletrônica deep, cobrindo desde os anos 50 à atualidade. Sem fronteiras de sub-gêneros musicais, necessidades de se defender estilos ou interferências comerciais; apenas com o critério de se buscar elementos de profundidade, hipnose, sofisticação artística, relevância, magnitude musical e, principalmente, muita intensidade.

Já de cara, o “100 Deep Electronic Music Classics” suscitou um esclarecimento a respeito do qual temos que ser muito pontuais: Deep não quer dizer soft ou leve; pelo contrário – pode, em alguns casos, soar perfeitamente como uma porrada sonora de alta amperagem. Existem incontáveis exemplos, de Deep House a Jungle, Experimental, etc.

Sem dúvida que a ideia era, desde o início, incluir depoimentos como os de Gerald Simpson e Graham Massey sobre como ’808 State – Pacific’ foi feita; ou o que Derrick May tinha em mente quando produziu ‘Kao-Tic Harmony’, quais sintetizadores foram usados em ‘E2-E4′ do Manuel Göttsching, entre inúmeros outros tesouros. Grande parte destes depoimentos saiu de entrevistas, algumas ainda não lançadas. Outros, de conversas exclusivas para este projeto.

Para que não se repita o dilema dos posts grandes demais (sabemos que temos culpa no cartório), o ’100 Deep’ acontecerá em capítulos com dez obras de cada vez e seus devidos links para audição e compra (com a seguinte ressalva para os colecionadores inveterados de vinil e CD: aconselhamos sempre os sites www.discogs.com e www.ebay.com como consulta paralela obrigatória). 

Bem-vindos ao 100 Deep Electronic Music Classics! » Continue lendo esta matéria

Senǒide » Música e Política nº 04: DISTOPIA

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Na virada dos anos 70 para os 80, o movimento hippie havia sido completamente fagocitado pelo capitalismo, John Lennon era assassinado; a disco era chutada de volta para os guetos; a amoralidade e a agressividade do punk permitiam que o velho machismo se manifestasse. Khomeini, Thatcher, Reagan; Guerra Fria e ditaduras latino-americanas ainda vigentes; Guerra das Malvinas, Beirute, Irã x Iraque, conflitos na Líbia e no Líbano – os jornais eram bombardeados por imagens de um mundo desesperançoso e clamoroso de morte.

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RON TRENT (musicandpower) – Chicago, USA

How The Music Reflects One’s Soul, Essence, Social & Political Points Of View

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“Ele nunca lançou uma faixa ruim… jamais”. O comentário sincero, postado em um release do Ron Trent no Discogs, não pode ser negado. A verdade é que, independente de qualquer coisa, não se trata apenas de jamais ter feito uma obra de má qualidade, mas de saber o que há por trás disso. Por que Ron Trent é considerado um personagem proeminente não só para a cena de House Music, como toda a cultura club, do ponto de vista dos DJs, produtores e gravadoras.
Muito influenciado pelos seus pais e pela geração dos Movimentos dos Direitos Civis e da Casa Africana da Universidade de Massachusetts, Ron Trent compartilhou conosco suas influências e perspectiva de vida em um depoimento emocionante e culturalmente profundo. A entrevista a seguir, portanto, não terá perguntas e respostas; falará das relações e conexões entre a música e os contextos étnicos, políticos, sociais e filosóficos que nos permeiam.

“He has never released a bad track… ever.” The truthful comment, posted under a Ron Trent release on Discogs, cannot be denied. Although, it’s not only a question of never having done a bad track, but what in fact lies beyond that reality. Why is Ron Trent considered a prominent character not only for the House Music scene, but to the Club culture as well, from the DJs to the Producers and Labels point of view.
Largely influenced by his fathers and their generation of Civil Rights Movement and
‘Africa House University of Massachusetts movement’ as well, Ron Trent gave us the clue about his influences and way of life on a deeply emotional and culturally profound statement. The next interview will sound more like a statement than a proper question and answer practice and will be about the relations between music with ethnical, philosophical, political & social contexts that surround us.   » Continue lendo esta matéria

Senǒide » Música e Política nº 03: A pista CONCLAMA!

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Capa do 12″ de Liberation

 

POLÍTICA VIRA METAFÍSICA

Não há período mais utópico para a música ‘eletrônica’ do que o começo dos 90 – principalmente por volta de 92/93. O ecstasy brindava a aliança musical entre Europa e EUA, a ‘eletrônica’ negra e branca se entrelaçavam; Reagan, Thatcher e URSS saíam de cena, caía o Muro de Berlim e aquela estética bélica dos anos 70/80 perdia o sentido; Mandela era libertado, o computador pessoal chegava às casas e a consciência ecológica dava um salto considerável. Essa onda de otimismo podia ser ouvida na música de Jam & Spoon, CJ Bolland, Humate, Orbital, Underworld, Gypsy, Leftfield, X-Press 2, e dezenas de one-hit wonders. Tudo apontava para cima » UPLIFTING (elevado, planante) era o termo que melhor descrevia o movimento das simples estruturas musicais que subiam progressivamente e lá permaneciam.

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