Senŏide entrevista Pilantröpóv

INTRO PILAS 2

Durante décadas nos acostumamos a esperar da cena eletrônica noturna as novidades, a experimentação e as mudanças de rumo radicais. Deixamos de notar que outros meios – performance, happening, videoarte, dança, teatro – poderiam nos abrir para universos musicais inéditos, expressões que não têm necessariamente relação com a massificação da música dos guetos do século 20.

Ao longo do tempo perdemos a percepção de que a vivência da música é quase sempre ritualizada. Quando colocamos uma roupa, ligamos para os amigos, abrimos uma cerveja e saímos para dançar estamos realizando um comportamento muito parecido com o de nossos ancestrais milenares, mesmo que não tenhamos consciência disso. O que Pilantröpóv, Kaloan Meenochite, Diego Monte Alto e seu grupo fazem é revelar as raízes desses comportamentos. Eles incorporam a imagem do nosso Zeitgeist.

Descentralizador e agregador ao mesmo tempo, Pilas (como é chamado pelos amigos) me convidou para um sítio a 80 quilômetros de São Paulo (Neyland) no meio da mata atlântica para esta entrevista, com direito a cachoeira e banho nu no lago ao lado da casa onde hospeda vários amigos.

Ele sugere mais profundidade no processo de produzir arte e música, anuncia que o hedonismo das últimas décadas talvez esteja se esgotando e, principalmente, exalta a intuição, o acaso e a espontaneidade como fatores indispensáveis para a criação artística. Pilas e seu grupo me fazem lembrar que a maior certeza da vida é a impermanência, que nada se conserva da mesma forma por muito tempo.

SEREIAS 2

  

Você geralmente trabalha junto a um grupo cujos participantes variam bastante…

Sim. Depois de fazer 11 anos de Artes Cênicas e de ter dado aula de Teatro por 6 anos eu não quis mais trabalhar com representação por perceber que tudo está muito ligado à racionalidade, a um roteiro. A partir disso a experimentação foi me encaminhando para outro sentido, decidi que queria continuar fazendo arte, me formei em Filosofia e conheci o Kaloan Meenochite »
http://kaloan.tumblr.com/ » http://vimeo.com/user5317058/videos »
que estava fazendo o Piknik » http://piknik.hotglue.me/. Foi então que os piqueniques começaram a virar experiências estéticas; começamos a nos articular para tocar em festas, galerias e se inscrever em editais.

Em que ano começou?

2010. Quando começamos uma pesquisa que não se baseia na figura do performer, nem no objeto, mas sim no entre - arte relacional. O Piknik (que depois virou Organismo Piknik) passou a não dar conta do que pretendíamos. O Organismo Piknik é uma interface que se relaciona com outras coisas, como a Toschen » http://piknik.hotglue.me/?TOSCHEN, uma editora, uma plataforma de publicação, uma revista muito inspirada na ‘Nós Contemporâneos’ do Edson Barrus, em formato A3 dobrado.

Como funciona o Organismo Piknik?

O Organismo é justamente como um organismo vivo tentando sobreviver, são várias pessoas, ele ganha e perde células involuntariamente e muito além da nossa vontade, às vezes nem são membros declarados. Eu e Kaloan estamos mais atentos em mantê-lo vivo e alimentá-lo, mas vários parceiros se identificam com muitos aspectos, como o Quintal Muamba, uma feira livre de trocas, ou o Keroøàcidu Suäväk, nosso projeto de música experimental e também a pesquisa sobre danças exóticas. Na pesquisa de indumentária mais o transe fundimos a dança e a música. Depois do festival de tecnoxamanismo passamos a nos denominar Keröáska; hoje o núcleo duro do projeto conta com a participação de Diego Monte Alto » http://diegomontealto.tumblr.com/.

Atualmente estamos trabalhando também sob o nome O.V.N.E.Y. (Organismo de Vivências Nômades Experimentais)
» http://ney.hotglue.me/ » http://ovney.tumblr.com/ » que envolve um maior número de pessoas em espaços rurais.

possuidas2Pilantröpóv e Diego Monte Alto

O que te influencia musicalmente?

Experimentos futuristas, música concreta, minimalistas como Steve Reich, Pandit Pran Nath, Meredith Monk, Throbbing Gristle, La Monte Young. E também noise (music), vaporwave, punk, música étnica, free folk, etc. 

O que é free folk?

Enquanto gênero musical é um som desconstruído, de estrutura quebrada e subjetiva, aberto a métricas irregulares, atonal e ‘fora do tempo’, improvisação primitiva de sons superinternalizados que afloram de maneira espontânea. Alguns artistas da Fonal Records (Finlândia)  » https://www.youtube.com/user/FonalRecords e Jan Andersen também nos inspiraram muito. Eu sinto que aí existe uma possibilidade interessante de se criar a própria mítica e um folclore que seja livre – esse é um dos interesses em relação ao tecnoxamanismo: como o sagrado se constrói e se desconstrói.

Kemialliset Ystävät _ Kajastusmuseo » exemplo de free folk finlandês

 

Você sente que no momento em que o free folk finlandês se mistura à cultura nacional acontece uma expansão do Tropicalismo? A proposta é semelhante.

Eu acho que tem mais a ver com o que Michel Maffesoli diz no livro » A Parte Do Diabo « o primitivo manda lembranças - e também como a informação circula hoje nas grandes cidades: nós sabemos o que se passa no mundo e vice-versa, há uma sintonia, uma conversa global, são muitas influências. O Butoh e o movimento Angurá (underground) da década de 60 do Japão nos influenciaram tanto quanto a Tropicália em alguns aspectos específicos.

butoh cortadoexperiências baseadas na dança japonesa Butoh


Sua música se distancia das estruturas rítmicas convencionais e soa extremamente abstrata, amalgamada.

Sim, são muitas camadas, é uma paisagem. Há uma sonoridade volumétrica no ar. Eu pensei que não fosse acontecer, mas, é interessante perceber que, mesmo o som sendo bem abstrato, é possível reconhecê-lo quando escutado novamente.

Então vocês criaram uma característica própria.

O som nunca será repetido exatamente. Não tem como a gente tocar a mesma coisa duas vezes. Usamos alguns samples como base, mas prefiro evitar. Os sons que se repetem se relacionam com a música minimalista original e têm a ver com elementos circulares, espirais e essenciais. Tenho escutado poucas coisas parecidas com nosso som, talvez alguns álbuns tenham sua característica própria.

Fale sobre o seu selo de música, o Kimuso.

João Filho, grande amigo e parceiro da Cia de Pastéis Okinawa » http://altnewspaper.bandcamp.com/track/cia-de-past-is-okinawa, outro grupo do qual faço parte, ajudou a criar o selo. Parceiros com o trabalho voltado para música experimental já lançaram muitos álbuns. Funcionamos com ‘código aberto’ e participações que estejam sintonizadas com a proposta do selo. Disponibilizamos todos os álbuns para download
»
https://kimusorecords.bandcamp.com/
» http://kimusorecords.bandcamp.com/album/p-i-l-a-s-machine-ii


Que equipamentos vocês costumam usar?

Aplicativos do iPad, um tambor xamânico e uns chocalhos, brinquedinhos. Kaoss Pad, pedais de efeitos, delay, guitarra, mas varia muito, como o código é aberto, vem muita gente tocar e às vezes surgem outros instrumentos.

Vocês improvisam quase que totalmente?

Sim. Tanto na música quanto na dança.

Poderíamos dizer que é uma jam session psicodélica, mais próxima de um happening que de uma performance?

É um ritual de caos. Uma abertura mágica que acontece no meio das festas ou qualquer outro lugar onde alguém possa aparecer desavisado e encontrar a densidade energética do nosso transe, quando estamos abertos e conectados com as forças.

pilaspower2 

Imagino que as substâncias lisérgicas têm grande importância nas suas apresentações.

Ajudam bastante. São alimentos para a mente. A pesquisa com estados de consciência é muito séria, requer muita força e retidão. Você pode chegar a muitos estados diferentes, ir para muitos lugares sem problemas e fazer do modo mais natural e orgânico – o organismo sabe lidar melhor com essas moléculas do que com substâncias sintéticas.

E os enteógenos?

São substâncias psicoativas que levam a uma compreensão do Todo, e esse Todo pode ser chamado de Deus, de Theos ou outro nome. Às vezes fico em dúvida se essas palavras ainda valem porque assim estaríamos nos direcionando para o sentido animista de concepção do mundo; mas também não sei se nego totalmente. Os termos ainda geram dúvidas. Precisaríamos de outra palavra para compreender os psicoativos da natureza – os cactos, o cogumelo, a ayahuasca, entre outros.

Quando a arte vira ritual?

Eu acho uma pena a arte do mainstream ter se desconectado do ritual. Nós passamos na Documenta de Kassel para fazer o Piknik e era uma sensação de que a Arte tinha encaretado mesmo, virado mercado apenas. Nosso trabalho toca muito nesse ponto de ritualizar as coisas da vida e da morte, do vazio e do caos.

capuzes


Como esse contexto tradicional (documentas, bienais, exposições coletivas) se difere dos happenings e performances que vocês fazem em boates, festas e espaços da cultura noturna?

A possibilidade de fazer arte fora do cubo branco e do cubo preto compensa! E as festas são itinerantes, sinto que a cultura dos clubes noturnos mudou um pouco, às vezes acontecem na rua, em fábricas, etc. Muitos galeristas torcem o nariz para o nosso trabalho, talvez não achem sério o suficiente, outros abriram suas portas. O público das festas demorou para sacar a proposta, talvez algumas pessoas ainda nos veem como entertainers.

 

O que é tecnoxamanismo?

Como a palavra mesmo sugere é o encontro destes dois universos: o futuro e o passado reunidos no presente. O acesso a conhecimentos ancestrais que nunca mais poderá ser visto da mesma forma está aberto a mutações e ao devir mágico.

Fizemos um primeiro festival de tecnoxamanismo em Arraial d’Ajuda, na Bahia, num sítio chamado Itapecó onde se pesquisa permacultura »
http://pt.wikipedia.org/wiki/Permacultura. Quando chegamos lá fomos recebidos por índios Pataxós – a ideia era se integrar – dançamos com eles em volta da fogueira, foi bastante emocionante. No dia seguinte aconteceram as oficinas da tribo, presenciamos dois casamentos pataxós – um raro momento, esse era o quarto casamento em dez anos. Foi um prazer aprender com eles sobre essa cultura de resistência que perdura 500 anos – é a primeira tribo a encontrar os portugueses. Também pudemos inventar nossos próprios rituais.

Vai ter de novo?

A gente pretende fazer outra versão, sim. Talvez a Fabi Borges possa fornecer mais respostas – existe um grupo na internet bastante ativo.

 

Muitas performances do Keröácidu Suävák são políticas, por exemplo, na que aconteceu em frente à Esplanada dos Ministérios. Qual o intuito em buscar inter-relacionar arte e política?

Testamos os limites dos espaços públicos do poder. A polícia aparece porque é uma área que não pode ser filmada. Nesse dia não tínhamos energia elétrica, então tudo está no corpo. O som e os excrementos do vídeo colocamos depois. 


Kaloan Meenochite 
complementa:

O evento se chamava Arestas em Artes » http://www.foradeeixo.org/. São rituais tecnoxamânicos, experimentais no sentido de não planejarmos suas consequências, mas evidenciar outros modos de vida possíveis; conexões com a ancestralidade; alterações de consciência. É arte/política num ponto energético poderoso que é o Planalto Central, mas não há o intuito de fazer política nos moldes da atual, o ato se dá na ação experimental, na ruptura de lógicas normativas (por isso a importância dos psicodélicos), na invenção do dia-a-dia em abrir caminhos.

chapadaO.V.N.E.Y. na Chapada Dos Veadeiros

 

» http://vimeo.com/pilantropov/videos 

» http://pipilantropov.hotglue.me/ 

» http://pilasmachine.tumblr.com/ 

» http://xitafritz.tumblr.com/ 

» http://vimeo.com/106192046

Senǒide _ Destrinchando Arca e FKA Twigs

JK1

Esqueça os critérios usados nos últimos quinze anos para perceber a Música – o paradigma mudou – estamos num momento de saída do minimalismo, na era da desconstrução do ritmo – descontinuado, dissolvido ou estilhaçado – dos glissandos velozes e aleatórios, dos sons dramáticos e do barroco tribal, do esgotamento dos revivalismos do século 20 e, principalmente, da mobilidade entre o mainstream e o underground, entre o comercial assumido e a arte.

A estrutura da Música mudou para expor as novas energias sociais liberadas neste turbulento começo de década, que acabou por estimular a expressividade em detrimento à tecnologia de ponta. Nesse processo, ainda em desenvolvimento, surge uma nova abordagem das origens do romantismo, uma curiosidade pelo medievalismo que reacende (ou evidencia) temas como a dissolução do ego, a resignação, o misticismo e as dualidades essenciais: corpo e espírito, sagrado e profano, superficialidade e profundidade, realidade e virtualidade, oculto e explícito »

ARCA _ XEN

 

Vem se falando muito da sonoridade inclassificável do Arca e da FKA Twigs, percebe-se que essa nova musicalidade é a confluência de inúmeros gêneros. Por isso chamei seis convidados especializados em áreas relativamente distintas entre si e pedi que selecionassem as músicas que lhes vieram à mente na primeira audição. Ao Francisco Raul Cornejo sugeri que buscasse as raízes da IDM; ao Apolinário, os elementos da cultura pop e da Moda; ao Hisato, a música etérea; ao Jade Gola, referências recentes; ao Bruno Belluomini, o dubstep, o UK garage e o R&B; e ao Alain Patrick, as vanguardas. O resultado, como esperado, é bastante diverso, mas nunca divergente.

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Francisco Raul Cornejo,

apresentador do BOILER ROOM no Brasil,

mediador da UIVO Records

«« É relativamente simples mapear a nascente de qualquer nova vertente até seus mananciais estilísticos. Então, facilitando a compreensão dessa nova musicalidade que ocupa crescente espaço em festivais e na imprensa especializada, assim como adensa uma considerável base de fãs, ouçamos algumas de suas formas ancestrais, com base em alguns princípios básicos que penso serem cruciais para sua originalidade: o caráter etéreo na formação de paisagens sonoras idílicas e complexas, a ritmicidade intrincada com influências não-ocidentais e a sobreposição de camadas temáticas na composição da narrativa. De acordo com cada década:

1970-1980: A Ambient Music e o que se convencionou chamar de New Age estão no cerne do primeiro fator. Temas esparsos, camadas densas de pads e a quase ausência de percussão, sendo um descendente direto da psicodelia sintética da década anterior e aparentado da Kosmische Musik contemporânea »»

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BRIAN ENO _ 1.2 _ (AMBIENT 1 – MUSIC FOR AIRPORTS) _ 1978 _ [POLYDOR]

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KITARO _ MONO-RISM _ (OASIS) _ 1979 _ [POLYDOR]

«« 1990: Os desenvolvimentos posteriores da Ambient foram amplamente promovidos por selos como Warp, Apollo e Rising High nas décadas seguintes e se tornou um gênero cuja autonomia chegou até a eventos exclusivamente dedicados a sua estética ou mesmo setores em grande festivais de música e raves, lançando mão de inúmeras referências étnicas de cepa norte ou centro-africana ou sul e centro-asiática. »»

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PLAID _ ABLA EEDIO _ 1996 _ [WARP]

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SEEFEEL _ CHARLOTTE’S MOUTH _ (QUIQUE) _ 1993 _ [TOO PURE]

«« 2000: A virada do século trouxe profundas mudanças para o universo da música eletrônica como um todo, com uma franca expansão da música teutônica dentre suas esferas mais populares. Selos como Kompakt, no bojo de sua dominação mundial pelo minimalismo, trouxe uma nova abordagem do Ambient, agora com influências harmônicas do pop e uma inovadora forma de apresentar texturas como gancho melódico. Também o momento de glória do dubstep e demais ramos rítmicos fora da curva de extração inglesa, principalmente os que formara a vanguarda encabeçada pelo selo Hyperdub. »»

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ULRICH SCHNAUSS _ A STRANGELY ISOLATED PLACE _ 2003 _ [CITY CENTRE OFFICES]

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BOLA _ PULA KAPPAS (SQUARE) _ (SHAPES) _ 2000 _ [33 RECORDS]

 

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ARCA _ THIEVERY

 

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Apolinário,

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DJ

«« Se pudéssemos criar uma função matemática para a música e a estética do Arca seria:

ARCA = M . K + H . D – R

onde:

M = Marilyn Manson » vocalista da banda epônima de metal industrial. Seu nome artístico foi formado a partir dos nomes Marilyn Monroe e Charles Manson, um dualismo que ele mesmo considera o mais perturbador da cultura americana.
K = Kizomba » gênero musical e estilo de dança originados em Angola no começo dos anos 1980. ouça um exemplo de pura kizomba aqui.
H = Hood By Air » marca de streetwear novaiorquina. veja em hoodbyair.com
D = Dazed & Confused » revista britânica de estilo e moda. veja em dazeddigital.com
R = Rock
 

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Impossível não lembrar de Marilyn Manson. Arca é uma adaptação mais QUEER e despretensiosamente WEIRD do nosso príncipe das trevas. Me parece claro que os sintetizadores bem desalinhados de The Beautifull People do Manson fizeram algumas noites da juventude de Alejandro Ghersi (Arca) acontecerem. Hoje, esses synths aparecem minuciosamente coordenados pelo ritmo caliente de uma bela kizomba, realçando o apelo ao bom esquisito e não ao esquisito pela esquisitice-de-ser-diferente. Junte àquela equação: Æon Flux, Amanda Lepore e Mulher Pepita… »»

Mulher Pepita dançando FKA Twigs

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JESSE KANDA e as ARTES VISUAIS

Jesse Kanda é um elo importantíssimo entre Arca e FKA Twigs. Ele produz os vídeos e a arte dos álbuns para ambos. Sua estética remete aos artistas que usam o corpo humano em deformação como elemento de linguagem. Selecionei alguns deles para esta matéria.

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Do PROFANO ao SAGRADO

HILDEGARD VON BILGEN, século 12

A obra criada pela monja, mística, teóloga, compositora, poetisa, dramaturga e escritora alemã Hildegarnd Von Bilgen combina com a voz de Tahliah Debrett Barnett (FKA Twigs). Em sua época ela rompeu alguns preconceitos contra as mulheres. Hoje é considerada uma das figuras mais singulares e importantes do século XII europeu e suas conquistas têm poucos paralelos entre os homens mais ilustres e eruditos de sua geração.

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FKA TWIGS _ PREFACE

[...] Sem olhar o vejo, sem lingua, eu sinto
Desejo me largar, e então me vem a sorte
Amo outro, por isso me odeio
Devoro a tristeza, na minha dor, eu rio [...]

trecho de poema de Thomas Wyatt, século 16 
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hisato

Hisato,

trilheiro do circuito da moda e das artes,

DJ

Sobre música etérea: «« O Cocteau Twins conseguiu desenvolver uma identidade sonora própria nos anos oitenta ao usar pedal de chorus (novidade na época) com reverb no talo em seus instrumentos, e assim soar etéreo e agradável. Já o Dead Can Dance produzia melodias espiralizadas, inspirava-se em referências do oriente próximo e eventualmente na música erudita via instrumentos de cordas. »» FOTO: SÉRGIO CADDAH

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COCTEAU TWINS _ LAZY CALM _ (VICTORIALAND) _ 1986 _ [4AD]

* * * * * 
Hisato me fez lembrar que Elizabeth Fraser, a vocalista do Cocteau Twins, participou do single de LIFEFORMS no auge do The Future Sound Of London, em 1994. Sua voz angelical combinada ao ritmo quebrado e às ambiências surreais do FSOL se parecem às novas sonoridades do Arca e FKA Twigs. A dupla inglesa também sampleou Dead Can Dance para “Papua New Guinea”, de 1991.

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THE FUTURE SOUND OF LONDON _ LIFEFORMS (PATH 4) _ 1994 _ [ASTRALWERKS]

 
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Jade Gola,

curador do deepbeep,

jornalista

«« Acho que hoje grande parte da música eletrônica e do pop negro, do R&B, estão em simbiose explícita, embaralhando ainda mais as tênues distinções entre underground e mainstream. Vejo que nomes como Arca e FKA Twigs entendem, enxergam e bebem de valores comuns que permeiam artistas tão diferentes como Aphex Twin, Beyoncé e Oneohtrix Point Never: um estranhamento de estéticas (originalidade “radical”), experimentalismo com as formas pré-concebidas e muita, muita imagética. »»

 

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APHEX TWIN _ MINIPOPS 67 [120.2] [SOURCE FIELD MIX] _ (SYRO) _ 2014 _ [WARP]

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ONEOHTRIX POINT NEVER _ NASSAU _ (REPLICA) _ 2011 _ [MEXICAN SUMMER]

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BEYONCÉ _ NO ANGEL _ 2013 _ [COLUMBIA]

«« Beyoncé leva o pop a um novo patamar, é uma feminista não muito valorada como tal, enquanto o Oneohtrix é o protótipo da genialidade esquisitona e de musicalidade inata. E Aphex Twin também, com uma ruidosidade que vem cada vez mais se humanizando. Acho que Arca e FKA Twigs trabalham nesses limiares e formam assim um som e identidades líquidas que são bem a cara dessa metade dos indefiníveis anos 2010 (já notou que essa década nem tem um “nome” direito?) »»

 

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FKA TWIGS _ VIDEO GIRL

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Alain Patrick,

colunista do deepbeep:

ELECTRONIC STANDARDS

 
 

«« FKA Twigs está, assim como raras exceções, “revolucionando a parada.” É uma das artistas que mescla conteúdo musical singular com uma imagem intransferível ao incorporar ‘a música de natureza pessoal ao que há de irresistível em matéria de tecnologias de audio e visual, a tal ponto que sua persona musicale foi capaz de transpor a barreira do ‘alternativo’ e conquistar grandes audiências, o que é normalmente pouco provável em artistas tamanha ousadia. Vamos falar de duas obras cujos elementos podem ter influenciado a artista do ponto de vista de abordagem estética, técnica ou de conteúdo. Se vocês estão esperando ouvir joias raras de Soul ou R&B, esqueçam – e talvez se surpreendam com o que ela própria considera como influências em declarações dadas nos últimos meses. Afinal, as toneladas de reverbs, a perspectiva de natureza hipnótica, os efeitos de modulação, a densa imagem estereofônica e os experimentos sonoros não estão presentes na sua música a toa. »»

 

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KRZYSZTOF PENDERECKI _ KOSMOGONIA _ 1970 _ [PHILIPS]

«« É impossível categorizar alguém com a obra musical da FKA Twigs e que tenha sido influenciada por música eruditaPrince e X-Ray Spex. Mas, quando se trata de especular o que pode ter servido de referência para esta artista, há algumas pistas. “Coisas estranhas podem ser sexy”, disse certa vez, em um depoimento. Da mesma forma, afirmou que suas propostas sonoras são “compatíveis com a música erudita”, e que “se fosse loira e branca e frequentasse a igreja o tempo todo falariam sobre o aspecto dos ‘corais de vozes’ em sua música.” Portanto, resolvemos radicalizar com esta obra do Krzysztof Penderecki de 1970 de abordagem sombria, estranha e temerosa de belos rompantes instrumentais, acordes profundos, reverbs naturais de grande duração e coro misto de vozes, já que ela mesma declarou não gostar de nada ‘genérico’ ou ‘rotulável’. »»

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PHILIP GLASS _ THE PHOTOGRAPHER (ACT 1 – VOCAL) _ 1983 _ [CBS]

«« É justamente esta abordagem hipnótica dos coros de vozes e sons sintéticos que ressaltamos na segunda escolha. Não no sentido de se reinventar necessariamente o tradicional Gospel ou os seculares Cantos Gregorianos, mas em uma estética mais repetitiva e ao mesmo tempo sutil. Poucas vezes esta combinação foi tão bem aplicada quanto nas obras-primas do genial Philip Glass, como em ’Dressed Like An Egg’‘The Photographer’ e até mesmo ’Music In Twelve Parts’. »»

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Bruno Belluomini,

dono do selo TRNQR,

pioneiro do dubstep no Brasil

 

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SHACKLETON _ MAJESTIC VISIONS _ 2006 _ [SKULL DISCO]

«« O aspecto étnico da cadência percussiva de THIEVERY do ARCA lembra o trabalho de Sam Shackleton no selo Skull Disco. Ele foi pioneiro em explorar esse tipo de característica de forma praticamente integral, menos asséptico que El-B, Kode 9 ou qualquer outro que estivesse tentando misturar elementos rítmicos primitivos ao UK Garage naquela época. »»

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EGYPTRIXX _ RECITAL (B VERSION) _ (BIBLE EYES) _ 2011 _ [NIGHT SLUGS]

«« É impossível não lembrar dos synths cacofônicos do Egyptrixx em “Bible Eyes” ao ouvir NOW YOU KNOW do ARCA. É difícil também não lembrar de uma das primeiras colaborações entre o Kode 9 e o Spaceape: a grave e praticamente beatless “Sign Of The Dub”, de 2004. »»

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GROOVE CHRONICLES _ STONE COLD _ 1997

«« O R&B sempre acompanhou o UK Garage: do hino underground “Stone Cold” à pop “21 Seconds” do So Solid Crew, de 2001. Os vocais estão ali. »»

* * * * *

 

(+ + +) EFEITOS SONOROS DO CINEMA HOLLYWOODIANO PARA TEMPERAR

 

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para melhorar o áudio clique na barra à direita em DETALHES e converta a QUALIDADE de AUTOMÁTICA para 720p ou 1080p HD (depois do play)

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agradecimentos: Isaac Ebner e Carlito Contini

FABRICE LIG 
- The Galactic Soul Odyssey

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Behind the new album’s elements & influences

Fotos: Divulgação

A longa jornada ao velho continente chegava ao fim, e o destino final era a cidade industrial de Charleroi, Bélgica, onde se situava o estúdio do produtor Fabrice Lig. Após passar uma tarde no museu de fotografia de Charleroi (altamente recomendado, por sinal), finalmente nos encontramos. A grande surpresa ocorreu momentos após, no início da noite, quando Fabrice literalmente desmantelou a ideia que tinha de cidade industrial de pequeno porte ao me mostrar a vila de Thuin, na periferia de Charleroi, a cerca de quinze minutos de carro do centro. Situada na confluência entre Sambre e Biesmelle, a vila dava de frente para a maravilhosa torre de defesa de 1638 (chamada por eles de ‘Beffroi’), considerada pela UNESCO patrimônio mundial da humanidade. Habitada desde a era neolítica e com raízes Gallo-Romanas, Thuin fora fortificada no século X para se proteger de ataques invasores. Porem, tanto quanto suas belezas naturais e históricas, Thuin se tornara núcleo de sons desafiadores – mais precisamente vindos dos estúdios de Fabrice Lig, cuja casa se situava no meio da natureza com direito ao mais límpido ar imaginável. Após um café fresquinho, era hora de ouvir – tanto os sons, quanto as histórias. 

It was the closing of a long journey in Europe and the final destination was the industrial city of Charleroi, in Belgium, more precisely the village of Thuin, where Fabrice Lig’s studio is located. After an afternoon spent at Charleroi’s Museum of Photography (highly recommended, by the way), we finally met for the interview. The biggest surprise took place few moments later he found me, at early night when Fabrice dismantled the idea I had in mind of an ordinary small industrial City when he brought me to the place where once was a fortified middle-age village at the periphery of Charleroi, located about fifteen minutes from the centre. Thuin is at the confluence of Sambre & Biesmelle rivers, with a gorgeous 1638 Beffroi (defense Tower) classified as UNESCO World Heritage Center. Inhabited since the Neolithic era and once a Gallo-Roman necropolis, Thuin had been fortified during the Xth Century to prevent itself from attacks.

As much as its natural & historical treasures, Thuin has settled as a place for challenging sounds – more precisely Fabrice’s house in the middle of the nature and the most fresh air imaginable. After a fresh coffee, it was time to hear – Music and stories. 

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Sangria Digital Vol. 28

Puzzleman by Matt Johnson

“Puzzleman” por Matt Johnson

Nesta edição da Sangria Digital, algumas sugestões, caminhos e sensações podem ajudar a escutar, sentir e absorver melhor a seleção musical: abstração, epifania, viagens espaciais, criatividade, alumbramentos,  introspecção, contemplação, imersão, rituais, celestial e profano.  A supremacia das ambiências, semi-dançante, chapação, pulsão sexual, tecnologias do imaginário. Kraftwerk preso no elevador com King Tubby ouvindo algum novo artista inglês. Nuvens.  » Continue lendo esta matéria

♒ senǒid’ aqua ♒

intro

“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”. Heráclito (aprox. 535 a.C. – 475 a.C.)

iamamiwhoami _ Hunting For Pearls _ 2014

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